Facewatch, Instagram, e o actual paradigma tecno-económico


 
Carlota Perez é uma ilustre e respeitada académica especializada no estudo da inovação tecnológica e sua relação com a economia. É autora de uma teoria que olha para a história recente e vê ciclos de invenção, de mudanças regulares de paradigma tecno-económico nas sociedades modernas. Primeiro há uma ideia, depois uma ferramenta, depois uma tecnologia inserida num ecosistema de dinheiro, leis, e vontades sociais.

Há um momento seminal em que parece que tudo vai mudar de repente, e não muda, e depois, quase sempre dez anos depois diz Perez, o mundo está enfim pronto para se renovar. Aconteceu o mesmo com o vapor, a electricidade, os transportes. Vivemos o momento da informação, do código digital.

Fred Wilson é um ilustre e respeitado investidor de New York especializado em apostas de risco e de sucesso. Em 2002, pouco depois da bolha especulativa da economia da internet ter rebentado, Wilson leu "Technological Revolutions and Financial Capital: the dynamics os bubbles and golden ages", o futuro clássico escrito por Perez nesse ano. A influência do livro foi fundamental na estratégia desenvolvida na década seguinte pela Union Square Ventures, a empresa de capital de risco co-fundada por Wilson. Baseada nas teorias de Perez sobre a regularidade dos ciclos de inovação económica e nas de Yochai Benkler sobre o potencial criativo das redes digitais, a USV financiou Twitter, Tumblr, Kickstarter, Foursquare, SoundCloud, e Zynga, entre muitas outras empresas que são agora peças fundamentais da nova economia Americana.


you know what's cool?

Facebook compra Instagram por um bilião de dólares e imediatamente há fala de especulação, de uma nova crise de virtualização financeira, do absurdo que é uma empresa com doze empregados valer tanto dinheiro, e que tudo vai ruir em breve. Não é o caso. Uma das explicações mais lúcidas acerta na metáfora, as aplicações para smartphones indicam a chegada de um modelo novo, baseado em media, em interactividade criativa, em atenção. Como Hollywood, mas neste século. Carlota Perez indentifica lugares e tecnologias específicas que são o berço e o motor das revoluções, e neste caso interessa perceber que o software e a California são os nomes actuais dessa lei misteriosa.

Expansíveis, os efeitos prometidos em 2001 pela então imberbe segunda economia são agora visíveis em quase tudo, mesmo quando ausentes. Da governação ao comércio, do prazer à saúde, da religião à lei. Um exemplo: FACEWATCH é uma aplicação para smartphones que permite aos utilizadores identificar suspeitos procurados pela polícia de Londres. O slogan é "Together We Will Beat Crime", uma promessa antiga renovada agora pelos distribuídos poderes interactivos das comunicações móveis.




Em Outubro de 2011, na conferência Web 2.0 em New York sobre a economia digital, Fred Wilson entrevistou Carlota Perez, num encontro de proporções quase místicas. As evidências do crescimento exponencial de todos os sectores associados às tecnologias de comunicação e informação acrescentam um tom profético ao que é um trabalho académico sério, revelam a existência de realidades paralelas, simultâneas, de crise social e de prosperidade financeira e económica, e anunciam aquela que vai ser a medida de tudo isto: a confirmação e a surpresa da crise e da abundância na presente década.