Dirty Talk #2

Neste Dirty Talk estivemos à conversa sobre a actual situação do vale do Rio Tua com o Tiago Carvalho, engenheiro do ambiente e investigador da área da estética da paisagem.

foto de Antonio F. Amorim

 

Requiem pelo Tua

O rol de problemas e questões que a construção da barragem de Foz Tua invoca deveria convidar-nos a uma pausa para sobre eles reflectirmos.

Nesta época de contínua aceleração dos ritmos das nossas vidas, marcada pela cadência crónica e extenuante de movimentos, gestos e rotinas advindas da labuta de cada um, há referências que vão ficando diluídas e esquecidas. Uma delas é que a própria natureza da sociedade democrática em que vivemos deve estar ligada à discussão, pública, participada e sem ditames autoritários. E sem uma pausa para que o ruído e o burburinho quotidianos soçobrem, a compreensão da necessidade desses momentos não surge. Sem o valor gerado pela discussão e pela árdua tarefa de separar o trigo do joio informativo ficaremos sempre pela rama do que quer que esteja em jogo; sem uma aproximação íntima e pessoal à importância deste tipo de discussões nenhum sucedâneo de uma ágora bastará.

A estrutura das redes sociais, dos artigos noticiosos, das peças dos telejornais será sempre e por demais insuficiente, fragmentária, limitada. São por conseguintes lenitivos soporíferos, apascentam-nos e impedem, para o caso do Tua, que a maioria dos portugueses, residentes nos centros urbanos de Lisboa e Porto, se apercebam da enorme perda de valores que é o desaparecimento de um rio numa zona remota do interior do território nacional. Fechados nas respectivas realidades, divertidos pelas trivialidades diárias e empolando outras à sua absurda exaustão, vamos todos pertencendo a um processo de esquecimento de paisagens, vivências e culturas que nos são mais próximas, enquanto vamos sendo seduzidos por outras que nos são distantes. Perdemos geografia e as outrora noções de espaço e lugares pessoais. Hoje qualquer capital europeia é paradoxalmente mais perto do que o vale alcantilado do Tua.

A rarefacção populacional do interior transmontano acarreta o empobrecimento da participação cívica e, numa escala maior, introduz desequilíbrios na sustentabilidade populacional do território; estes factos afectam a auto-afirmação da região transmontana e o seu crónico isolamento, precisamente devido à falta de mobilização cívica para uma discussão transversal de uma obra que afectará a região de forma indelével; a emigração local instiga este défice democrático, reduzindo as suas edilidades a de pedintes indigentes dos cofres da capital e prolongando uma venenosa mas necessária ligação umbilical aos seus parasitas. O despovoamento e envelhecimento populacionais que assolam Trás-os-Montes desde a década de 60 introduzem portanto um défice democrático, facilitando o saque da região por empresas e intervenções estatais.

Esta questão introduz-nos na temática da energia. O rio Douro, em cujos afluentes se incluem o Tua, o Tâmega e o Sabor, é, em termos de caudal, dos rios mais violentos da Europa; em grande parte do seu percurso ele percorre ainda desfiladeiros e penhascos a pique, o que contribui para incrementar o seu potencial hidroeléctrico. É essa a razão pela qual a bacia hidrográfica do rio Douro estar povoada de várias barragens e destas serem responsáveis pela fatia de leão da geração de energia hidroeléctrica em Portugal. É aqui que a porca (talvez a de Murça) torce o rabo no que toca às várias e falaciosas justificações que foram sendo apresentadas pela EDP: criação de emprego e desenvolvimento local. Ora, nem só as já existentes barragens são praticamente automatizadas na sua totalidade, como não acrescentaram valor à região; em termos de empregabilidade, criam-na, é certo, mas apenas enquanto ocorre a obra em estaleiro. Em termos de desenvolvimento local, a questão é ainda mais grave: embora Trás-os-Montes, através do rio Douro e afluentes, gere electricidade que alimenta todo o país, não existe da tributação das receitas para a região. Uma política tipicamente colonialista, onde a cidadania dos territórios explorados é garantida mas os lucros gerados pelos recursos locais abandonam a região e os seus habitantes.

Refira-se outra das justificações da EDP para perpetrar uma obra que assassinará valores paisagísticos e de biodiversidade: a criação de energia eléctrica “verde” e a diminuição da dependência energética de Portugal. O último ponto é verdadeiro: importamos combustíveis fósseis (carvão e gás) para gerar electricidades, mas também importamos petróleo para alimentar o nosso parque automóvel e as inúmeras auto-estradas que fomentam a adopção desse meio de transporte. Se queremos de facto diminuir a dependência energética, existem muitas outras coisas que um governo pode empreender, como promover a eficiência energética e o investimento e complementaridade nos transportes públicos; já para uma empresa praticamente monopolista como EDP, não haverá tantos negócios chorudos como este que mexam com algum patriotismo bacoco apelando ao consumo da “nossa energia” enquanto arrasa um vale: a energia eléctrica a ser gerada pela barragem do Tua corresponderá, no ano de referência de 2010, a 0,3% do consumo eléctrico; a cada dois anos, contudo, e como se intui no uso e abuso da parafernália electrónica (computadores, telemóveis, IPADs, escovas de dentes eléctricas, máquinas de barbear, etc.), o consumo eléctrico tem aumentado 6%. Os números falam por si: a barragem, no que toca à sua justificação energética, é inútil.

Como se justifica que uma centenária linha de comboio, que serpenteia o vale do Tua entre escarpas e túneis, não seja classificada como património pelo IGESPAR? Como é possível que a barragem de Picote seja por sua vez reconhecida como património? Como é que a incapaz e incompetente dupla CP/REFER têm a coragem de justificar o fecho da linha do Tua face à sua reduzida utilização, mas contudo não intervêm na mesma linha com obras de manutenção e modernização há mais de duas décadas, até que as mortes ocorram? Estas questões não podem ser dissociadas uma da outra. Fazem parte de uma lista de várias coincidências destinadas a dar o destino da linha e do vale como consumados.

Finalmente, a postura da EDP. Promovendo sucessivas campanhas nas rádios (TSF à cabeça), televisão e jornais, ora sem direito a contraditório, ora usando anúncios quase cinematográficos, com elevados custos de produção, arregimentando várias equipas de produção de vídeo e som e sempre, sempre, apresentando as barragens como benéficas para o país e como amigas da “natureza”. A questão da EDP há muito que extravasou o discurso ambientalista. É uma organização interessada em perseguir os seus objectivos a todo o custo e sem qualquer respeito pelas pessoas.  Veja-se o seu comportamento perante um relatório do ICOMOS, organização parceira da UNESCO, que hipotecava qualquer hipótese da conservação do estatuto de património mundial do vale do Douro caso a barragem do Tua fosse construída. 

Recuar a obra? Nem pensar. Muito para lá de uma ignorante ministra do Ambiente que acreditava que a barragem do Tua já tinha sido construída ou de um secretário de estado da cultura, qual moço de fretes, afirmando em pleno telejornal da SIC que se poderá pintar a barragem ou enterrar a cabelagem para minorar o impacto, o que fez a EDP? Estabelece acordos, por via dos milhões que locupletou a todos os portugueses, com arquitectos e artistas invertebrados (mas conceituados) da praça para que transformem, pela sua “arte”, as barragens ou as centrais eléctricas adjacentes. Temos assim o caso de Pedro Cabrita Reis que alaranjou a barragem do Mogadouro; a intervenção de Souto Moura na central eléctrica da barragem de Foz Tua, e a promessa de outra intervenção de Álvaro Siza numa qualquer barragem, tornando o que é estranho e destrutivo da paisagem no artificial ponto de atracção turística e quiçá fazendo esquecer que o Douro ser património mundial significa um reconhecimento de que aquela paisagem foi moldada por sucessivas gerações de assalariados trabalhando sequiosos e esfaimados. Como é esta pornografia, vista por todos, aceitável? Porque não há montras partidas, paredes pintadas, um arreganhar de dentes, um “basta!”?

A construção da barragem de Foz Tua, se for realmente avante, e mesmo a já consumada destruição do vale e das fragas desse singular rio enrocado constitui por conseguinte um acto de terrorismo gratuito que deverá envergonhar qualquer um que pague facturas à EDP, empresa responsável por este megalómano projecto. Este apontamento é só uma tentativa de resistência pela palavra.

Tiago Mesquita Carvalho



A Perdiz que sobrevoa os antigos comboios da linha do Tua

Automotora verde no verde de Abril
que segurava as mãos na terra
e o riso no fio do rio escuro pela
lenta trasladação das aldeias
Descia uma excursão pela montanha
ao longo do comboio estreito
que riscava a linha de água
com um riso ardente
A Perdiz ombreava com a carruagem
na corrente do ar e na passagem apertada das pontes
e roçava as asas como barbatanas
na explicação das oliveiras
O comboio vagueava na albufeira futura
e a Perdiz pedrês na miragem de uma arma furtiva
traçava um mapa semelhante na tarde que tardava
E o aquário de gente que passava sentada
levava o Tua na vista cansada e descia
ao Douro com a Perdiz ao peito
a ver o rio fechar-se por dentro

Tiago Manuel Patrício