OS NOVOS DESAFIOS DE DETROIT uma transição urbana


Tradução livre de um artigo do Detroit News sobre os novos desafios de Detroit. O artigo tem interesse acrescido ,se considerarmos o processo de gentrificação do centro da cidade, num ambiente de perda constante de população e de recursos económicos.

OS NOVOS DESAFIOS DE DETROIT
Numa antestreia em Midtown, de um documentário sobre Detroit que vai ser exibido na Alemanha e em França, o artista Olayami Dabls, morador da cidade desde há muito, ficou surpreso: “ Nunca tinha visto tantas pessoas de descendência africana em qualquer outro documentário sobre Detroit”.
Isso diz-nos muito sobre Detroit, em que 82% da população é afro-americana. Detroit tem sido objeto de vários documentários e estão mais em perspetiva. Talvez metade das pessoas entrevistadas para este documentário sejam afro-americanas como Dabls.
O filme centra-se numa nova cidade emergente a partir das ruínas pós-industriais, contudo, há um número cada vez maior de habitantes de Detroit a queixar-se de estar a ficar de fora dessas novas oportunidades.
Apesar de Detroit estar à beira da falência, um fenómeno de gentrificação está empurrar alguns dos seus habitantes para fora. Muitos potenciais compradores de habitação em Corktown, Midtown e Downtown vêm as suas ofertas superadas.
Âmbar Wilson de 28 anos, residente em Southgate, viu as suas ofertas superadas em três habitações durante o ano passado: “Um casal de Oakland County pagou mais de cem mil dólares em dinheiro por um loft para que a filha voltasse de Chicago. “Eu não consigo competir com isso”; disse Âmbar, uma designer a quem tinha sido pré-aprovada um credito de habitação no valor de cento e vinte mil dólares. Ela também não queria comprar uma casa em mau estado, o que seria a única solução para habitar naquele bairro.


Em Downtown, o complexo de apartamentos Trolley Plaza foi comprado por novos proprietários que  o renovaram, mudaram-lhe o nome, e subiram as rendas em pelo menos 20%.
“Passou-se de uma diversidade de moradores para predominantemente novos e brancos”, diz Jack Sexton, um antigo residente. “É pena porque muitos querem ficar mas não têm como pagar”
A torre Broderick em Downtown também está a ser renovada. As suas penthouses de cinco mil dólares por mês foram as primeiras a ser reservadas quando o edifício reabriu no passado Outono, diz Stewart Beal, um dos seus proprietários.
As estatísticas não enganam: há uma cidade diferente a nascer em Downtown, Midtown e Corktown; e é mais branca e rica do que a restante.
De acordo com os Census de 2010, de 2000 a 2010 Detroit perdeu 25% da sua população, 44% se considerarmos apenas a população branca. No entanto, Midtown e Downtown perderam percentagens muito baixas da sua população, enquanto Corktown cresceu.
Cada um dos três bairros ganhou moradores brancos, que já representam pelo menos um quarto da sua população. Em Detroit, a população branca representa 8% do total.
O rendimento médio dos novos compradores de habitação nas três áreas é muito maior do que a média da cidade. De acordo com um estudo financiado pelo Economic Growth Detroit Corporation, Midtown tem o rendimento médio por família superior: 113.788 dólares, seguido de Downtown: 111.509 dólares, e de Corktown: 79.980 dólares
O rendimento médio dos novos compradores de habitação em Detroit é de 50.550 dólares

Os Outsiders a Chegar
A gentrificação ajuda um mercado imobiliário deprimido de uma cidade a perder população, mas a mudança tem causado tensões.
Há dois anos, um grupo de jovens adultos ocupou uma casa abandonada em North Corktown para a transformar num projeto artístico. “O problema é que ninguém avisou os vizinhos”, diz Jeff DeBruin que dirige um comedor popular e um projeto comunitário artístico chamado Imagination Station. “Pôs-se fogo duas vezes”, diz Jeff.
Ninguém reivindicou a autoria dos incêndios. Jeff diz que falou com os moradores do bairro e que em geral sentem-se ameaçados por um grupo novo que não tentou envolver a comunidade.
Carolina Garcia de Southwest Detroit também está apreensiva: “Tem-se a sensação que não se trata de tornar as coisas melhores para todos, apenas torná-las mais seguras para os suburbanos, não é justo.”, e prossegue: “Continuo excitada por ver aquela gente toda a mudar-se para Corktown, e todos aqueles novos negócios. Mas sempre que lês alguma coisa online sobre os progressos, é sempre como se fosse o pessoal novo responsável por tudo. Isso vira-me do avesso”.
“Pensem em todas as conversas nas instituições, bairros e media sobre crescimento, cultura e entretenimento. Esse diálogo de investimento é todo sobre Downtown, Corktown e Midtown”, diz Rodney Lockwood, um investidor de longa data da cidade e futuro presidente da Câmara de Comércio do Michigan. Essas áreas têm assistido a um fluxo de novos empregos, retalho e moradores.
Agora “pense na narrativa do resto de Detroit”, acrescenta Lockwood. Poderia incluir uma gestão financeira de emergência para uma cidade que nos últimos seis anos não apresentou um orçamento equilibrado, onde o sistema de trânsito está a bater no fundo, em que nenhum autocarro passa a horas, sinais de trânsito partidos e uma crescente taxa de homicídios.
“As pessoas não percebem que já se deu início à discussão que dividirá a cidade em duas.”, diz Lockwood.


 
Mais Vozes, uma Cidade mais forte
Margarita Barry está entusiasmada com o facto de pertencer a esta cidade renascida. Ela tem uma loja em Midtown chamada 71 pop e outra online: bohomodern.com. Ela está a “adorar a energia e todas as pessoas novas”.
Ainda assim, a afro-americana considera que a imagem que está a ser pintada é distorcida por alguns: “Leio alguns desses sites online e estou espantada com a ausência de pessoas de cor na cobertura”, e acrescenta: “isso só alimenta a perceção de que apenas determinado grupo está envolvido na mudança positiva, o que não é assim tão verdadeiro.”.
Essa é a razão para Barry ter decidido comprar uma casa em Nortwest Detroit. “ Eu às vezes recebo determinados olhares, até parece que não querer morar em Downtown, Midtown ou Corktown seja inédito. Ela acrescenta: “Cresci em Northwest Detroit e enquanto vou adorando as novas zonas da moda e seus desenvolvimentos, fico muito preocupada em que os outros bairros fiquem para trás.”:
Toby Barlow, sócio gerente da agência de publicidade JWT, é uma das caras da ascensão de Detroit. Ele elogiou as virtudes da cidade em colunas de jornais nacionais e documentários. É investidor de propriedades e negócios em Detroit.
“O facto de não haver vozes suficientes nas variadas discussões é uma preocupação bastante válida e perigosa”, disse.
Contudo, o maior desafio de Detroit é convencer investidores e empresas a regressar à cidade, acrescenta Barlow, e finaliza: “Não podia discordar mais da tese do caminho para a divisão de Detroit, esse não é o objetivo de ninguém”.

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