António de Macedo na Cinemateca de Lisboa

Nojo aos Cães (1970)

"A inclinação para o maravilhoso, inata a todos os homens em geral, o meu particular apreço pelas impossibilidades, a inquietação do meu cepticismo habitual, o meu desprezo pelo que sabemos e o meu respeito pelo que ignoramos — eis as motivações que me levaram a viajar pelos espaços imaginários."

 Barão de Gleichen (Séc. XVIII)

Na primeira entrevista, concedida ao Público a 28/05/2010, desde que tomou posse como nova directora da Cinemateca Nacional, Maria João Seixas afirmou o seguinte: "E eu gostaria que o ano de 2011 começasse com um realizador que tem obra suficiente para constituir um ciclo especial: António de Macedo".

A propósito desta afirmação, a jornalista Kathleen Gomes interroga-a acerca das críticas apontadas à Cinemateca sobre a criação do seu próprio cânone do cinema português, legitimando alguns cineastas e ignorando outros. A sucessora de João Bénard da Costa esquiva-se ao assunto mas reconhece que existem muitos cineastas de costas viradas para a instituição, citando o exemplo de António-Pedro Vasconcelos e José Fonseca e Costa. Curiosamente, estes dois tentaram, de alguma forma, reabilitar a figura esquecida do “arquitecto” Macedo através de artigos de opinião em que culpam as sucessivas administrações do ICA pelo final abrupto da sua carreira cinematográfica. 

Mas, no caso de Vasconcelos, é novamente curioso que o tenha feito, porque em 1974, na edição nº19 (09/02/1974) da revista de cinema Cinéfilo que co-dirigia com Fernando Lopes, participou activamente num autêntico assassinato de carácter levado a cabo a propósito da estreia de “A Promessa” produzida pelo Centro Português de Cinema, do qual ambos faziam parte. Escreveu: "Domingo à Tarde tolerava-se talvez com desculpas de primeiro filme. O mau gosto, o sadismo mórbido e o regozijo nos pequenos truques de cineasta-aprendiz eram o preço de um cinema de intelectual autodidacta. "7 Balas para Selma" desculpava-se com a ingenuidade do propósito e com os fracassos da produção. O ridículo dispensava a crítica mais feroz. (…) "Nojo aos Cães" era a vanguarda ousada, a problemática metafísica, a estética da pobreza, o cinema-vérité misturado com a expressão corporal. Lá fora houve quem se embasbacasse com a audácia: havia nus e contestação. Hoje com "A Promessa" o saco de desculpas está vazio".


A Promessa (1972)
Macedo foi, sem dúvida, a vítima favorita dos cineastas e críticos do Cinema Novo, movimento que ajudou a fundar quando António da Cunha Telles o chamou para, em conjunto com Paulo Rocha, Fernando Lopes e Fonseca e Costa, fazer parte do núcleo duro da revolução cinematográfica lusitana na década de 60. Os seus maiores sucessos de bilheteira foram sempre resultado de campanhas negativas: “A Promessa” foi o primeiro; seguiu-se a cruzada do jornal O Dia em conjunto com a Igreja Católica para impedir a estreia de “As Horas de Maria”; e finalmente nos anos 80, 8 semanas seguidas de críticas e bolas pretas a “Os Abismos da Meia-Noite” fizeram com que o público acorresse a vê-lo.


Se por um lado Macedo surge como vítima passiva, por outro verifica-se uma necessidade em provocar estas polémicas para marcar uma posição. Assim foi com “7 Balas para Selma” afastando-se claramente da devoção à Nouvelle Vague e a Manoel de Oliveira que existia por parte dos restantes membros do movimento; e da sua relação com a Igreja Católica portuguesa através de filmes como “Domingo à Tarde”, “A Promessa”, “Fatima Story”, “O Príncipe com Orelhas de Burro” e o blasfemo “As Horas de Maria”. Até cometeu a suprema audácia de pôr em causa o movimento estudantil com um filme produzido do seu bolso e proibido pela censura chamado “Nojo aos Cães”. 

Apesar de todas estas polémicas, poucos se lembram hoje deste cineasta, nunca foi feita uma retrospectiva integral da sua obra, não se lhe conhecem seguidores. Mesmo “Domingo à Tarde” que é um dos filmes-fundadores do Cinema Novo juntamente com “Os Verdes Anos” e “Belarmino”, surge apenas mencionado de passagem nas escassas obras em torno do cinema português, como se verifica no “Histórias de Cinema” de João Bénard da Costa ("Até porque o realizador – ele também, figura em certa medida, marginal e de gostos esotéricos – conseguiu dominar, melhor do que os outros, certas deficiências técnicas e, servindo o livro, deu dele uma adaptação que à generalidade do público pareceu singularmente escorreita.").

Os Abismos da Meia-Noite (1984)
Macedo largou a carreira de realizador, único da sua geração que se pode ter gabado de viver do cinema, nos anos 90 após ter-lhe sido recusado sucessivamente subsídios para filmar. Em carta dirigida ao Ministro da Cultura da altura, dá conta do seu desespero: “[…] [um dos membros do júri] disse-me que era norma assente lá entre eles considerarem, para os currículos dos realizadores, apenas as obras dos últimos CINCO ANOS!!! Estou feito ao bife! Como o sistema não me deixa filmar há nove anos — estou sem currículo! Mais de quarenta anos do meu trabalho e do meu suor no cinema português foram pelo esgoto abaixo!”. O último guião a concurso chama-se “O Pastor e o Magarefe” e no dizer do próprio autor “consiste numa reflexão sobre o cinema em si e sobre o acto tecnológico e estético de filmar”, mas também aborda a personagem histórica de Frei Gil de Santarém que praticava curas espectaculares no séc. XIII por alegadamente ter feito um pacto com o diabo.



A Cinemateca de Lisboa está a exibiu entre 22 de junho e 31 de julho de 2012 uma retrospectiva integral da obra do cineasta António de Macedo:
 
"A retrospectiva da obra de António de Macedo que a Cinemateca agora propõe é uma travessia de várias décadas de história do cinema português e a revisão de um olhar reivindicadamente experimental, frequentemente polémico. Numa proposta de António de Macedo, começamos por O PRINCÍPIO DA SABEDORIA, sendo a retrospectiva genericamente pensada a partir da sua cronologia. Incluindo longas e curtas-metragens, obras conhecidas e títulos mais raros, os filmes serão em grande parte apresentados em novas cópias tiradas no laboratório da Cinemateca."