FIXAR O MOVIMENTO #books #livros


Um dos primeiros livros sobre o Rap em Portugal1. Apesar de apenas públicado em 2003. o livro reflecte a realidade do Rap em especial na Grande Lisboa depois do fenómeno Rapública.
A primeira parte do livro dá-nos uma explicação das raízaes do aparecimento do rap, e dos seus primeiros passos nos Estado Unidos da America.
Em relação à fixação do movimento em Portugal, o mesmo está bastante afecto às imigrações dos países africanos e na sua radicação em determinado contexto territorial.

Numa das primeiras partes do livro, Teresa Fradique faz um diário do movimento: Espaços de Perfomance, Consumo e de Produção de Cultura Rap. Esse diário incide nas sessões de Hip-Hop às Quintas-Feiras no Johny Guitar qe duraram de  Novembro de 1996 a Maio de 1997 (em 1994, o JG já tinha albergado sessões de Rap denominadas Ataque Verbal, nome do programa na já extinta FM Radical)2.

Geografias do movimento:.

9.1.1997

«A geografia das sessões começa a delinear-se de forma mais nítida. Os grupos que pareciam surgir dividos entre o público começam a corresponder no palco a diferentes estilos de rap, a diferentes estratégias e opções  de fazer passar a sua mensagem. A tendência Gangsta é sintetizada pelo  rapper Jazzy G cujos temas no improviso centram-se muitas vezes sobre o rap puro e duro, o dinheiro, as mulheres e a boa vida no gheto. Pela primeira vez surge uma especie de duelo, que durará grande parte das sessões e que parece sintetizar a expressão mais dura do rap que é aqui apresentado - trata-se do despique em improviso entre o referido Jazzy G (ex Zona Dread) e Italiano (dos TWA). O clima é de alguma tensão»

16.1.1997

«TWA in tha house!: Italiano entra no bar em apoteose. Sam the Kid abre o freestyle sob sugestão de Jazzy G que fica na rectaguarda. A jam session está com pouca fluidez e ocorrem alguns silêncios entre os vários improvisos. À entrada de determinado instrumental,  Jazzy G sobe ao palco e inicia um longo improviso que inclui algumas partes em criolo e que é acompanhado cm entusiásticos passos de dança. Italiano junta-se a Jazzy G e inicia uma provocação corporal à qual se segue um duelo verbal em improviso. O crioulo é a lingua principal das prestações de Italiano. Segue-se o Mc Dino numa improvisação animada  e cheia de ritmo. Batem-se palmas, o público está entusiasmado. Sam the Kid sobe ao palco e inicia um rap da sua autoria. É interrompido por Italiano. O ambiente na sala ressente-se. Italiano continua a improvisar em crioulo, louva o gangsta rap, critica General D e afirma que Jazzy G talvez esteja ok. Outro membro de TWA, Jorginho, junta-se a Italiano e interpretam duas músicas, os temas centram-se em torno do gheto, da morte, do puro rap.

Teresa Fradique, no seu diário de um movimento regista as prestações no Johny Guitar de dezenas de mc´s:
Clay (dos Mafia Suliana), D Mars (dos Micro), Davidson (Nexo), Dino, Dj Assasino (Micro), Djassy (Nexo), as Divine, Mr. B, Pump (Três Ilegais), Double V (dos Family), Fredy (Mirasquad), Italiano (TWA), Jorginho (TWA), Ridiculous, Robocop (AZ), Sagas (Micro), Knowledge one (Komibnation), Sam the Kid, Sunrise, Tony (ex Zona Dread), Virgul (da Weasel), Xaca (Máfia Suliana).



O livro contém discurso directo de vários interpretes da época sobre os diversos assuntos relacionados com o rap:

«O Rap verdadeiro é o rap que fala da vida real, do que a gente passou; tu tens de falar do que passaste, do que estás a sentir, não é falares da cena de outro gajo...é difícil de explicar»
Pump, Miratejo

«O grupo TWA começou como um grupo de amigos. Íamos ao Trópico às cenas do rap. Ao vermos os grupos cantar, para quem já ouve rap - rap americano, rap francês -, quem já ouve isso , quando vê esses grupos dá graça! Tás a ver? Então é tipo naquela: se os grupos de rap portugueses fazem isso, eu consigo fazer melhor; se eles fazem isso e as pessoas curtem, então vou começar o meu também»
Primero G, Pedreira dos Húngaros

«Há rappers em todo o canto de Portugal. O rap hoje em dia é seres real a ti proprio, seres real a ti mesmo, saberes o que estás a cantar é o teu quotidiano e dia-a-dia. Tens que saber minimamente da vida, tens que ter sentido na pele.»
David, Arrentela



«O Instrumental tem a ver com o estado da pessoa. Tem a ver com a letra também, claro. Conforme a letra sei como é que vou fazer o instrumental. Mas os instrumentais que eu faço têm mais ou menos a haver com o meu estado, por exemplo se estou num estado de revolta. Eu tento exprimir-me nos instrumentais que faço. Mesmo que não oiças a letra e oiças o instrumental, tu sabes mais ou menos o que estou a tentar expressar. As letras escrevemos nós: TWA, todos. Por exemplo, eu tenho o instrumental e digo-lhes: este instrumental aqui é de intervenção, ou é de não sei o quê, depois chegamos a um ponto e tentamos dizer o que é que vamos atingir. o que é que vamos cantar. Depois de chegarmos a esse ponto vamos tentar arranjar o refrão. É a partir do momento em que a gente arranja o refrão que cada um escreve a sua parte.»
Primero G, Pedreira dos Húngaros

«Eu sempre fiz uma diferença no rap e essa é a única diferença que faço: entre sucker e real. Não há preto, nã ha branco, não há mulher, não há homem. A única diferença que eu faço é: tu és um sucker porque cantas comercial; eu sou um real porque canto aquilo que eu sinto. Mais nada, ñão há mais nenhuma diferença (...)
Tens de viver e falar do que tu sabes. Dizem que nós (TWA) cantamos gangsta. Só que essa é a nossa vida. Quando me dizem: Tu és um gangsta, eu digo: Não, não sou um gangsta, a vida que eu levo é que é de gangsta. Eu levo porque tenho que levar.»
Primero G, Pedreira dos Húngaros

«Eles, os comerciais, com o nome que já têm podiam voltar a ser reais E as pessoas iam comparar na mesma por causa do nome e nós íamos não pelo nome deles, mas pela mensagem.»
David, Arrentela


1 - Ver também Contador, A.; Ferreira, M.; (1997), Ritmo e Poesia: Os Caminhos do Rap, Lisboa, Assírio & Alvim.
2 - A autora também fala-nos de outros espaços importantes: o Soul Factory no Bairro Alto enquanto espaço de convívio de alguns mc´s e ainda o Ciclone - Johny Guitar depois de 1999

Geraçon Rap de António Contador, Emanuel Ferreira, M. Ferraina e Jorge Barata, 1994/5: