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Junior Perim, director executivo do Circo Crescer e Viver, foi o escolhido por Mauro Ventura para a crónica "Dois cafés e a conta..." da revista Globo deste Domingo.

A entrevista:

A partir do dia 21, O Rio ganha o maior festival internacional de circo do país, com dez companhias estrangeiras e dez nacionais. E acontece integralmente nas favelas com UPPs. Além de espetáculos, haverá oficinas, master classes, intercâmbios e conferêrcias. "Pela sua abrangência territorial, não duvido de que seja um dos maiores do mundo", diz Junior Perim, coordenador executivo da ONG Crescer e Viver, presidente da Federação lberoamericana de Circo e diretor geral e artístico do festival. 

Junior largou a escola aos 11 anos para ajudar a mãe, os pais haviam-se separado. Começou pesando frangos, mas viu que poderia ganhar mais como magarefe, abatendo as aves. Mudou de ofício, mas não teve o aumento. "De qualquer forma, ao alcançar raquele posto elevei minha autoestima." 

Foi continuo, operador de xerox, trabalhou no serviço público, até que criou em 2003, com o amigo Vinícius Daumas, ator e palhaço, a Crescer e Viver, que atende 300 pessoas de baixa renda, de 7 a 24 anos, em sua lona na Praça XI. 

A ONG se divide em um circo itinerante, uma escola de circo e a companhia Crescer e Viver de Circo. 



REVISTA O GLOBO: Como vai ser o festival? 
JUNIOR PERIM: Temos festivais internacionais consagrados de música, dança, cinema e teatro. Mas não de circo. Resolvemos então criar um, e de forma ousada. Poderíamos fazer em qualquer lugar do Rio, mas não quisemos reunir atrações para mostrar nos lugares tradicionais e dar ingressos para os moradores das comunidades terem acesso à produção artística apresentada no asfalto. 
É o melhor do circo contemporâneo do Brasil e do mundo se exibindo nas co­munidades pacificadas, sem que seja preciso cruzar a América Latina ou o Atlântico. 

Quem são os alunos da ONG Crescer e Viver? 
Lidamos com moleques que o senso comum condena ao fracasso. Mas fazer circo dói. Exige superar os limites físicos e saber administrar as emoções. Um lavador de carros, da Mangueira, quis ser trapezista. Mas com 1,80m e 127 quilos foi recusado quatro vezes na Escola Nacional de Circo. Pois virou um dos melhores trapezistas que já tivemos. 
O segredo é ajudar o moleque a meter o pé na porta do seu imaginário. 

Como se faz isso? 
Fazemos o moleque acreditar que não é um perdedor. Dar um salto mortal exige condições físicas e psicológicas. Um garoto chegou aqui entorpecido, com uma garrafa PET cheia de cola de sapateiro. Um educador lhe tomou a cola para permitir o acesso às atividades. Corrigi o edu­cador. Disse que já tinham tirado tudo do me­nino. Falei ao garoto: "Quer saltar no trampolim? Guarde a sua cola e volte de cara limpa" No outro dia, ele chegou careta. Temos jovens que vol­taram ao colégio, melhoram o desempenho e a relação familiar, estão no mercado de trabalho. 


Você deve ver muitos casos emocionantes, não? 
Em dezembro, um menino nosso de 11 anos ia à Itália participar do primeiro festival intemacional de circo social. Antes da viagem, quis passar uma noite com a madrinha para se despedir. Foi com a mãe dormir lá. Naquela noite, o prédio onde viviam desabou, com vítimas fatais. Só esca­param porque estavam com a madrinha. Se não fizesse parte do Crescer e Viver, poderia estar morto. Outra emoção foi ver uma menina sem uma das mãos me mostrar que aprendera a fazer malabares com três bolas. Era do nosso núcleo em São Gonçalo. Mas é frustrante que o núcleo tenha fechado em 2009 por falta de recursos. 

Vocês focam muito no mercado de trabalho. Porquê? 
Trabalhamos com uma galera de classe popular que vive a pressão social do trabalho, em geral feita pela família. Se não criarmos condições para que se sintam produtivos, a cena perde talentos. Nossa escola de circo e nossa companhia vão a três, quatro países por ano, da Austrália a Burkina Faso. Nosso primeiro aluno, Cristiano Prado, chegou aqui com 12 anos. Na primeira aula, o pai, que tinha uma bírosca e havia servido na Marinha, foi lá para bater nele com um pedaço de pau, dizendo: "Meu filho não vai ser víado." Fizemos um trabalho com a família e hoje, aos 22, ele ajuda fínanceíramente os pais. Está num circo na Itália É dos poucos que fazem malabarismo com oito bolas. O pai tem o maior orgulho.