CARACAS: SENTIR PRIMEIRO #caracas #venezuela revolução bolivariana

15 de Julho: terceiro dia em Caracas. Os encontros e os conhecimentos são intensos, a aprendizagem constante, Caracas tem outro rosto vista do Bairro 23 de Janeiro. Bairro com uma História de Luta de meio século, não poderia nunca não acompanhar a passos largos a Revolução Bolivariana posta em marcha há 13 anos. As vozes misturam-se nas ruas, discutindo quotidianos, famílias, preços, e, claro, aquela que é A Eleição de 7 de Outubro. Os gestos fervilham e Voltar atrás, carajo, não voltamos, Isso é certo, Os outros que se amanhem!, O Socialismo está em construção e na ofensiva! Face a esta certeza inabalável, a força colectiva no processo de transformação social assume-se como um Poder que aí está, firme, pronto a combater de armas na mão se o curso da História voltar a ser ditado pela grande burguesia.


Muitos dos habitantes dos bairros populares estão, indiscutivelmente, a participar no quotidiano desta tão peculiar Revolução que afirma ser possível a construção do socialismo a partir da estrutura socioeconómica criada pela burguesia. As minhas dúvidas, assim como as minhas certezas, permanecem. Apesar disso, avanços importantes foram, e continuam sendo, feitos. Apoios sociais massivos, consquista de um novo Código do Trabalho, nova Constituição, o povo antes esquecido participando activamente na vida política e cultural do país, nos planos de alfabetização Robinson, beneficiando de novos apoios na saúde, doença e velhice, esquecendo fomes passadas, conhecendo uma habitação digna, libertando finalmente os gestos e as vozes, acolhendo a solidariedade de quem chega com um aberto sorriso que nos submerge numa nova família. 


Olho e oiço, toco, cheiro, coloco dúvidas, assimilo umas vezes, outras o cansaço não mo permite, como uma arepa, bebo as cervejas que continuamente me vêm parar entre as mãos sem que a vontade tenha sido verbalizada, cruzo um madeirense cujo português se perdeu nos meandros de uma emigração de mais de 60 anos, uma madeirense que serve bebidas no tasco familiar, um venezuelano cujo trajecto de vida me prende a horas de escuta (Porra! Esqueci-me do dictafone...), uma venezuelana que tem 6 filhos, 19 netos e litros de vida de whisky que mantêm a Vida e Luta com uma energia inquebrantável, um H. em cuja tasca tanto se aprende apenas ouvindo, um J. cujos talentos de artista plástico dão voz aos muros do bairro, uma Y. que me impressiona pela força feminina que emana, um G. que mercerá linhas outras pela sólida prática revolucionária que o move, pelo sorriso, pelo vigor que imprime à constante Luta que é a Vida e pela mão amiga que me guia pela História e ruas do bairro e do país, dos amigos e camaradas, da acolhedora companheira e da nem sempre fácil C. que, do alto dos seus seis anos, nasceu e vive no processo bolivariano em construção. G. e Y. são uma história em que o Amor e a Luta, de mãos dadas, constroem o presente que exigem viver. 


(Um Abraço especial àquele que me abriu as portas da cidade de Caracas vista do 23)

Depois da (ainda) colonizada e sofrida Martinica, da colónia de férias que é a magnífica ilha de Curazao para os elegantes e endinheirados habitantes dos Países Baixos - de eu sentir, apesar de tudo, a força que o papiamento tem como uma forma de identidade autónoma da holandesa - Caracas surje como a Esperança em construção de um Mundo outro. 


Texto e fotografias de Ana Maria Saldanha