GLOBAL WOMEN E A CLASSE SERVIÇAL DAS CIDADES GLOBAIS


Saskia Sassen deve grande parte do seu reconhecimento por ter qualificado o termo Global Cities1, destacando a emergência de um novo tipo de cidade, à escala global, com um paradigma económico baseado na comunicação e nos fluxos de informação. 

Embora a análise sobre a globalização tenha permitido à autora fixar o conceito de Global Cities, que permitiu a existência de uma força de trabalho qualificada, flexível e de grande mobilidade; Sassen destaca um outro roteiro da Globalização. Fá-lo em Globalization and its Discontents2, e mais tarde no capítulo a que nos propomos a analisar: «Global Cities and Survival Circuits», integrado no livro Global Women


Nesse artigo a autora conta uma narrativa alternativa para a globalização, com reflexos tanto nas Global Cities como nos países do terceiro mundo onde os circuitos de sobrevivência dependem cada vez mais das mulheres, tanto pelo tráfico humano a que são sujeitas como pelas remessas financeiras que enviam. A verdade é que o estilo de vida promovido pelos trabalhadores qualificados (já citados) nas cidades globais, realiza-se à conta de mulheres imigrantes que auferem baixos salários (empregadas domésticas, amas de crianças,etc.). 

Resumindo: sustentam o estilo de vida dos mais qualificados e, através da opção de migração e das remessas financeiras que enviam, fazem depender as condições de vida nos seus países de origem. Esta nova configuração do mercado de trabalho nas cidades globais, traz também consequências na regulação do mesmo: 

« (...) new labour suplply - women and immigrants - (...) breaking the historical nexus that would have empowered workers under these conditions. The fact that these workers tend to be women and immigrants also lends cultural legitimacy to their non-empowerment. In global cities, then, a majority of today´s resident workers are women, and many of those are women of color, both native and immigrant.». 


A entrada de mulheres qualificadas das cidades globais no mercado de trabalho, a consequente transferência das tradicionais tarefas domésticas para as mulheres imigrantes, e a necessidade de 30 a 40 % de trabalhadores de baixo custo nos sectores líderes da nova economia, ajudaram à criação de uma nova classe serviçal proto-colonial. 

A nova economia também arranjou formas de organizar essa nossa classe serviçal, reunida à volta de multinacionais como a Kelly Services (limpezas) e a 5 à Sec (lavagem de roupa). 

Enquanto no topo do sistema global temos estas Staffing Companies, no terceiro mundo e na base do sistema, o tráfico humano realiza-se por terceiros e não por opção individual, numa rede que outrora foi nacional ou regional mas que hoje é global. São as contra-geografias da Globalização. 

1 - SASSEN, S., (2001), The Global City, New Jersey, Princeton University Press. 
2 - SASSEN, S., (1999), Globalization and Its Discontents, New Press, New York.