A PROVA DAS RATAZANAS - BERLIM 1936 #london2012


Os Jogos Olímpicos de Londres estão quase a começar, e a stress vai preparando o evento relatando histórias paralelas sobre o movimento olímpico.
Hoje publicamos um arquivo da revista Antítese (nº1) de 1984 - A Prova das Ratazanas, de Nadar sobre os jogos de Berlim de 1936.





A XI Olimpíada dos tempos modernos teve inicio em 1 de Agosto de 1936 na capital do Reich. Num clima de ódio racial, de controlo militar e policial, a grande parada nazi conquistaria, com a cumplicidade do Comité Olímpico Internacional, uma estranha nomeada na cena mundial. Foi a prova das ratazanas.
É preciso dizer que o nazismo deu às Olimpíadas a sua verdadeira natureza, ao menos a que Pierre de Coubertin explicitamente quis. Mas Berlim 1936 foi também para o Reich, além de um suporte financeiro não negligenciável, um extraordinário meio de
propaganda em favor da "raça ariana".

A APOLOGIA DA "RAÇA"

Tal como declarou Turnerschaft, porta-voz do movimento gímnico nacional alemão e diapasão da concepção militar-desportiva dos exercícios físicos concebidos pela ideologia nazi para fortificar a "raça":
"Os negros não têm nada a fazer nas olimpíadas ( ...). Os dirigentes desportivos judeus e aqueles que estão contaminados pelo Judaísmo, os pacifistas e os reconciliadores dos povos não têm lugar na pátria alemã".
Era pesadamente difícil aos defensores do "desporto à frente de tudo" e do "desporto apesar de tudo", Ignorar esse clima de ódio, de racismo que dava a sua cor particular e esperança ao culto da força bruta presente nas SS e noutros.
Coubertin vai encontrar em Berlim, no ideal nazi, o prolongamento exato do seu próprio credo. Ele reconhece ai o eco das suas próprias declarações anteriores. "Há duas raças distintas: a do homem de olhar franco, com músculos fortes, com desenvolvimento assegurado, e a do doentio, de semblante resignado e humilde, e ar vencido.”.

Como não haveriam os "pensadores nazis" de ver as analogias flagrantes entre aquele discurso e o seu que exaltava também "o culto másculo, individuai". Coubertin confortou-os nos seus princípios quando declarou, como bouquet final oferecido ao fascismo:
"Cinzelando o seu corpo pelo exercício, como faz um escultor numa estátua, o atleta antigo adorava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira."
O olimpismo encontrava nos seus propósitos as suas cartas de indignidade, o fascismo também. Mas, dessas duas ideologias, finalmente, qual melhor serviu a outra, qual utilizou a outra?



A SURDEZ DO COI

Desde o inicio, é necessário frizar que o COI (Comité Olímpico Internacional) se encarniçou em querer organizar os Jogos de Berlim. Ele toma essa decisão desde 1931 e o comité olímpico alemão dá o seu aval a 4 de Janeiro de 1933, ou seja, apenas dez dias antes da tomada do poder por Hitler.
O Comité Internacional, surdo ao ruído das botas que subiam além Reno não se inquietou além do respeito da carta olímpica.
Para maior segurança respondeu que os "judeus alemães não serão excluídos dos Jogos". Coubertin, quanto a ele, contentava-se nessa altura em "saudar as alterações na Alemanha como o sinal duma mudança mundial que abraçaria todos os povos muito rapidamente". 
 
O COI não era felizmente seguido por todos os atletas participantes às olimpíadas. Enquanto que se prosseguia a organização dos Jogos de Berlim, os opositores concentravam os seus esforços de propaganda metendo em marcha um "boicote alternativo":
A organização de uma olimpíada popular em Barcelona.
A Liga dos Direitos do Homem, A Liga Antinazi Americana, a Maccali World Congress, a AFL, a Internacional Comunista e a SFIO eram os principais animadores dos numerosos movimentos do boicote internacional.
A abertura das competições de Barcelona foi fixada para 18 de Julho de 1936. Desgraçadamente para esses Jogos, e infelizmente para a própria Espanha, os fascistas espanhóis desencadearam nesse mesmo dia o seu golpe. Para os desportistas presentes em Barcelona nesse dia, a escolha era clara: muitos partiram a reunir-se nas frentes e os outros dirigiram-se directamente à Checoslováquia para participar nos Jogos Olímpicos de Praga, organizados pela internacional vermelha dos desportos, em Agosto de 1936, isto é, paralelamente aos de Berlim.

A RESISTÊNCIA INTERIOR

Em Berlim, todos os opositores à ordem nazi, passaram à clandestinidade, quando não eram pura e simplesmente eliminados. O partido comunista, na ilegalidade, uniu-se ao partido socialdemocrata, submetidos às mesmas contrariedades. Eles formam em
conjunto uma frente comum que, apesar de enormes dificuldades, vai fazer falar dela durante o desenrolar das Olímpiadas.
Assim aproveitam-se de toda a publicidade feita à roda dos Jogos para denunciar a hitlerização não só do desporto mas também da sociedade.
Ajudados pela emigração anti-fascista, brochuras como "Arbeiter IJlustrente Zeitung" circulam. Distribuídas clandestinamente aos turistas vindos a Berlim, ela denuncia, em três línguas, as perseguições antisemitas e faz conhecer o mapa detalhado das prisões e dos campos de concentração do Reich.
Os opositores aproveitam a passagem do facho olímpico para se manifestarem. Assim, quando ele entra na Checoslováquia, panfletos antinazis foram distribuídos e os atletas checos recusaram-se a passar o testemunho. Esta recusa está também, além disso, ligada ao facto de o comité de organização dos jogos ter editado um cartaz onde os territórios limítrofes checos e sudetas eram muito simplesmente representados como fazendo parte integrante do Reich.
A Gestapo tinha dificuldade em dissimular a resistência interior durante o desenrolar dos Jogos. Apesar da ostentação dum vasto plano de enquadramento popular, ela não pôde impedir aqueles que, de noite, retiravam as bandeiras impressionantes da cruz suástica que tinham sido colocadas na cidade e próximo do estádio. Como em 7 de Agosto, ela não pôde suspender a distribuição de panfletos deitados à rua de um alto prédio, por um sistema engenhoso de equilíbrio com um balde furado, a "distribuição" fez-se em diferido; depois da água escoar deixou de fazer contrapeso aos panfletos, caindo estes, permitindo assim a fuga tranquila aos opositores.
Entretanto, os Jogos organizaram-se, apesar das oposições corajosas mas, tudo somado, limitadas. E o K. P. D. encontra-se com um muro de incredulidade assim que foi anunciado que a cidade olímpica seria, depois dos Jogos, transformada em academia militar.

OS JOGOS

Goebbels, ministro da propaganda, antigo mestre na arte teatral, foi encarregado de planear a encenação. Os Jogos foram um grandioso suporte para a propaganda nazi e funcionaram como um "soporífero" para a população, camuflando as perseguições antissemitas, os movimentos de tropas e os discursos símbolicos olímpicos e nazis atingiram o seu paradoxismo com a sua palavra de ordem digna de Big Brother:
"A Olímpiada da Paz" ...

Num ambiente de euforia, alimentado com precisão, em Berlim e em toda a Alemanha, a grande missa do desporto abriu em 1 de Agosto.
Desde as 7 horas da manhã, os desfiles militares começaram. Aos sons duma música marcial, as SS fazem ranger as suas botas sobre o cimento. Eles abriam caminho a 4500 participantes, 49 equipas nacionais, que desfilaram sob o olhar satisfeito das autoridades nazis. A saudação olímpica, braço esticado, tornar-se-ia o sinal do reconhecimento oficial.
Mas, apesar da vigilância e dos esforços dos organizadores aconteceram aIguns obstáculos no desenrolar das festividades.

 

Jesse Owens, atleta negro (os oficiais nazis preferiam chamar "auxiliar africano da equipa americana"), alucinava todo o regime fascista pelas suas marcas, a tal ponto que, vexado, Hitler recusou apertar-lhe a mão. Owens, filósofo, contentou-se em dizer: "Eu saí da miséria para afrontar os super-homens; então, eu estava lá para lhes dar uma lição."
Depois do hino nacional, o balanço das medalhas por países, a vitória de Hitler. A 16 de Outubro de 1936, a cerimónia de encerramento deixava silenciosa "uma multidão disciplinada, mortificada, ofegante!"
A XI Olimpíada tinha catalisado às mil maravilhas os valores chauvinistas da raça dos sanguinários.

 

                                                                                                                                Jean-Louis Nadar