A Biologia à Velocidade da Luz


Em 2010, o J. Craig Venter Institute anunciou a criação da primeira célula viva descendente de computadores. Foi, a um tempo, a conclusão de uma longa história e o nascimento de uma infinita dinastia.

Há muito que o orgânico e o digital se namoram. Nils Barricelli foi dos primeiros a ver as semelhanças entre a espiral do código da vida e as linhas de números capazes de agir, de realizar tarefas como se de entidades animadas se tratassem. Em 1953, no mítico Institute for Advanced Study em Princeton, Barricelli começou a introduzir pequenas sequências numéricas no enorme computador que John von Neumann, Julian Bigelow, e tantos e tantas outras construíram em New Jersey.

Essas sequências, algoritmos, são os entes ancestrais das criaturas que agora se criam nos laboratórios onde o ADN e o software se entretrocam em fluídos e fluxos de luz. São a metáfora e a realidade da convergência entre dois universos definidos pelas propriedades emergentes da vida.




"O que significa esta equivalência entre informação e biologia?
 Da nutrição à medicina, da guerra à estética, da religião ao crime, o horizonte do possível continua a estender-se graças ao poder da ciência contemporânea. 
Este século inaugura a suprema literacia humana, a que permite manipular, talvez poeticamente, a linguagem da vida."


 
Craig Venter é o homem do momento quando se fala da ascensão da genética. Depois de sequenciar o primeiro genoma humano e de liderar o nascimento da M. mycoides JCVI-syn1.0, a célula cyborg, Venter está agora no centro do debate sobre o potencial destas novas tecnologias e da bioética que as acompanha.




A proposta central no percurso deste cientista lendário parece ser a democratização da biologia, na senda do que a internet fez com a informação. Ao sequenciar centenas de genomas de bactérias e micróbios marinhos, Venter tornou-se no mais visível dos novos bibliotecários: os que arquivam e catalogam, em nome do futuro, os textos genéticos da vida na Terra.

Num discurso recente, Craig Venter falou sobre alguns dos projectos já em curso, e sobre as ambiguidades e os medos gerados pelo poder deste novo conhecimento sobre o invisível. O debate sobre os OGM na Europa, e todos os mal-entendidos e propaganda que o rodearam, foi a primeira indicação de como os preconceitos irracionais de vários sectores da sociedade podem tornar-se obstáculos quase inultrapassáveis à adopção de soluções revolucionárias.


Na próxima década, o planeta vai ter mais 1 bilião de seres humanos. Nunca na história conhecida houve tanta gente viva ao mesmo tempo. A globalização deixa de ser uma palavra vazia quando decomposta em aeroportos, voos intercontinentais, megacidades, alteração climática radical.

Tudo está interligado, e todos os lugares estão em toda a parte.

A questão não é se o futuro vai ser paradisíaco ou catastrófico. É de perceber que o presente, aqui e agora, já exibe todos os contornos imaginados nas muitas ficções sobre o século 21.



A capacidade de compreender e influenciar o curso dos acontecimentos é desde sempre o que define a ciência, e o que separa os seus adeptos dos seus inimigos. Este é um planeta dominado por micróbios, bactérias, vírus. Nós, os humanos, somos parte dele, deles. Com a genética digital, tornamo-nos enfim no que há muito os mitos previam: autores e obras da infinita circulação do código.