CARACAS: SENTIRES SEGUINTES #caracas


1) Cidade do México - Caracas
 
Foi instantânea a comparação que fiz no sentir. A memória conduziu-me de imediato para a Cidade do México: Cidade do México em 2006, Caracas em 2012. A primeira, herdeira da Tenochtitlán azteca fundada no século XIV, destruída pela fúria colonial de Hernán Cortez, guarda pouco do magnífico centro cultural e comercial azteca que foi até 1521. Quando caminhamos pela capital mexicana, a mais de 2.000 metros de altitude, caminhamos sobre as ruínas de Tenochtitlán. Caracas, ao contrário, não foi construída sobre uma antiga cidade ameríndia, mas mandada edificar por um colono castelhano, Diego de Losada, em 1567, a quase mil metros acima do nível do mar. Apesar de origens e fundações distintas, tornaram-se ambas cidades fundamentais para a colonização da América pelo Império espanhol, tendo sido palco de lutas de resistência quer à violenta colonização castelhana quer, depois da independência política, às tentativas (algumas alcançadas) de neocolonização imperialista e à desumanidade do capitalismo. 

A sensação que senti ao pisar as duas cidades, foi, no entanto, semelhante. Lembro-me da aterragem, em 2006. A Cidade que alberga dez milhões de habitantes nascia sob o meu primeiríssimo olhar. Deveriam ser 7h da manhã, e calcorreávamos aquela cidade e aquele país que nos acolheria durante três meses. Lembro-me do sorriso de ambos à instalação dos primeiros vendedores de rua, da confusão que, gradualmente, aumentava de intensidade, das ruas marcadas por edifícios modernos que, ao aproximarem-se do Zócalo, ganhavam uma nova cor colonial. Sob o peso de 13 kilos cada um e muita excitação, iniciámos a descoberta da História de um país e de uma gente que, ainda hoje, traz a Saudade do que vivemos, vimos e trocámos. 

2012. 6 anos depois, aterro em Caracas. Sozinha, desta vez. O tempo encoberto, saindo do aeroporto – os mesmos 13 kilos às costas – e pronta a tocar a primeira vida da capital venezuelana. 8h da manhã, avisos constantes para não sair do aeroporto sozinha, Que é perigoso, Você é uma mulher, Meta-se imediatamente num táxi, Não fale com ninguém, Só faltava dizerem-me para não respirar nem ver. Ou seja, aconselhavam-me a viver Caracas em estado de terror. Acenei um gentil Adeus a todas as palavras que me eram endereçadas pelos passageiros do voo Willemstad–Caracas, e resolvi, tranquilamente, informar-me sobre os horários de autocarros, calcorrear a pé a distância que separa o aeroporto Internacional do aeroporto Nacional (Não faça esse trajecto a pé! Está cheio de ladrões!, haviam-me dito uns minutos antes), comprar um bilhete, instalar-me no autocarro com o raio da mochila que me começava a pesar em demasia, e, pela primeira vez, mirar, atentamente sorrindo, a cidade de Caracas. Paragem final no Parque Central, novas perguntas, algumas ajudas, entrada no metro, chegando e subindo, finalmente, as escadas da estação Plaza Venezuela, dirigindo-me, depois, ao Gran Café, na Sabana Grande, onde G. me esperava pacientemente há quase duas horas.

A Cidade do México surgiu(-me) do cinzento dos morros que a cercam, tal como Caracas ganhou contornos e vida com os bairros que nos morros, de manhã, acordam olhando para o seu centro. Já não é, no entanto, a beleza do Zócalo e das grandes avenidas que dele partem, mas a imensidão de velhos edifícios cansados que perderam a cor, talvez devido, imaginei eu, a toda uma história de resistência, pois também eles tiveram de enfrentar os ataques que a (velha) grande burguesia foi infligindo à cidade e ao país. Por outro lado, já não era a vida de uma cidade que se preparava para as eleições de 2006, mas a de uma cidade que se prepara para aquelas de 2012.


Fruto de uma fraude eleitoral, António Manuel Lopez Obrador (PRD) perderia as eleições de 2006, ainda sem saber que, seis anos depois, os mesmos métodos seriam utilizados e a sua candidatura à Presidência, uma vez mais, considerada perdedora (apesar do apoio – mais explícito em 2012 do que em 2006 - de uma parte da burguesia nacional). A maioria da burguesia mexicana preferira a candidatura de Calderón à de Lopez Obrador e pusera em marcha os métodos necessários para atingir este objectivo. Neste sentido, se, em 2006, a classe dominante utiliza a estrutura política do sistema para eleger Filipe Calderón (PAN), em 2012 ela fá-lo a favor de Enrique Peña Neto (PRI). Lembro-me das manifestações que, em 2006, ocuparam as ruas do México, refutando o resultado eleitoral, das entrevistas que fiz, das conversas tidas ao sabor de uma cerveja, do meu entusiasmo, das manifestações daquela outra Frente Política progressista, convocada e dirigida pela EZLN - a Outra Campanha –, que, tendo em conta o carácter social-democrata da candidatura de AMLO, não o apoiou. Lembro-me de ver Marcos num comício – e de sentir, apesar da cientificidade que guia a minha análise da sociedade e do meu entranhado materialismo, uma sensação estranha de pasmo ao vê-lo subir ao palco -, das dezenas de fotos tiradas, lembro-me de AMLO, apoiado por amplos sectores da social-democracia mexicana - mas fonte de esperança para milhões de mexicanos - falar na mesma praça onde havia visto Marcos, e de uma multidão me encerrar naquele espaço que, apesar dos seus 57.000 metros quadrados, se tornou numa casa de bonecas perante a imensidão de gente que a ocupou. Lembro-me da minha emoção perante a vivência de uma parte da História do México que assimilava avidamente através de manifestações, leituras, discussões, visitas de Museus (Ah!... O Museu de Antropologia...). Vi Rivera, Orozco, Siqueiros, percorri-os no magnífico Museu de Belas Artes, cruzei-os, mais tarde, em Guadalajara, apresentaram-me o seu país através dos imortais murais – a violenta colonização, o genocídio dos povos autóctones, a entrega à luta de um povo explorado, a Revolução mexicana, a visão de um Futuro sem exploradores nem explorados. Cruzei Manuel Hidalgo, em 1810, Zapata e Pancho Villa, um século depois, vi o carro baleado deste último, dormi em La Realidad - aldeia de Chiapas que, embrenhada na Selva Lancadona, viu nascer os primeiros comunicados da EZLN – e aprendi atentamente o que me era oferecido aprender. Com Frida, exaltei-me perante a beleza da Mulher e da Obra.

Olhámos (e quase tocámos) a Guatemala, navegámos em rios e caminhámos na Selva, desertámos pela Baja Califórnia, viajámos pelas estradas mexicanas, do Norte ao Sul, de Este a (pouco) Oeste, e apanhámos sustos valentes. Percorremos Caracoles zapatistas, revoltámo-nos perante a miséria da prostituição e da exploração em Tijuana e Nogales, entristecemo-nos face ao muro imposto pelo imperialismo, dizíamo-nos que um povo de Luta e de Resistência como Aquele diria, um dia, Basta!, e construiria uma nova sociedade sob o peso da magnífica História da independência e da bárbara história da neocolonização imperialista.

Estes sentires e aprendizagem foram constantemente acompanhados pelas eleições que nesse ano tiveram lugar e que ocupavam as discussões e ruas da capital. Noutros estados, como em Oaxaca, outras Lutas moviam trabalhadores e populações locais.


Na Venezuela, é a campanha para as presidenciais que ocupa o espaço público. Hugo Rafael Frías e Henrique Capriles Rad(t)onsky são as duas faces de duas propostas que se opõem. Uma, representa a Esperança; outra, representa os velhos e bolorentos interesses da grande burguesia nacional associada ao grande capital estrangeiro. Capriles, que no golpe de estado de Abril de 2002, assaltara a Embaixada cubana, é filho de uma das famílias mais ricas da Venezuela. Com ele, estão os meios de comunicação privados, maioritários no país. Chávez, militar que se dá a conhecer no golpe militar de 1992, e que chega ao poder por via eleitoral seis anos mais tarde, é reeleito em 2000 (depois de uma retumbante vitória num referendo, em 1999, que permite aprovar a progressista Constituição bolivariana), afastado do poder durante 47h no golpe de estado de 2002 - voltando graças ao apoio popular e de uma parte dos militares-, reeleito novamente em 2006, e candidato às eleições de 7 de Outubro próximo. A partir de um certo momento, Chavez assume a via socialista do processo bolivariano, baseando-se, no entanto, na ideia de um socialismo do século XXI (atenção!... o processo bolivariano não nasce, no entanto, sob esta bandeira!), o qual, afirmando pretender o aprofundamento da democracia participativa e uma redistribuição mais equitativa da riqueza, não pretende alterar a estrutura (socio)política criada pela burguesia, defende a necessária conquista do poder no sistema burguês para construir um novo caminho, nega o papel de vanguarda de um partido de classe e o papel revolucionário do proletariado.

Apesar disso, as classes trabalhadoras e as camadas mais pobres, face aos progressos e mudanças positivas das suas condições de vida e de de trabalho, estão, na sua maioria, com Chávez. E creio ser fundamental apoiar - consciente, no entanto, das divergências - o actual processo bolivariano (que, aliás, ainda não se encontra consolidado!).

Como já disse. As discussões nas ruas venezuelanas giram à volta do Antes e do Agora, do que Foi e, asseguram-me, Não voltará a ser, da contraposição de um mundo ainda em construção a um Passado de humilhação e de medo cujo regresso há que travar. A todo o custo.

                                        
2) Episódios: 28 de Julho de 2012

28 de Julho de 2012. Dizem-me, 

Às 14h30, Chávez estará em Petare. 

Hoje? 

Hoje! 

Não pensei duas vezes. Almoçando com G. e Y., olhava nervosa e constantemente o relógio: queria ser pontual. Porra. Ver o Chávez é ver o Chávez... 
Não te preocupes, ele chegará certamente mais tarde...
As tentativas de dissuasão eram várias, mas, para mim, 14h30 são 14h30. Acabo de comer, bebo o café apressadamente, despeço-me com um Até Logo, já animada pela perspectiva de assistir, pela primeira vez, a um comício com o Presidente e candidato a Presidente da República Bolivariana da Venezuela. Pego na mochila, entro no metro, e o meu assombro inicia-se logo à saída. Centenas de pessoas baralhavam-se indistintamente nas escadas que subiam à superfície e, uma vez aqui (com muitas dificuldades) chegada, assisti à multitudinária confusão entre apoiantes de Chávez e gente que se passeava pela feira de rua que, diariamente, aí tem lugar. As vuvuzelas, t-shirts encarnadas, bonés, chapéus, palavras, gritos, danças, percorriam o ambiente. Quando, a custo, chego à larga rua onde Chávez deveria chegar, fico perplexa. Com a máquina fotográfica na mão, boquiaberta, sem saber para onde me dirigir, olho à minha volta. Dezenas de organizações distintas que apoiam Chávez, milhares de pessoas, convivem, dançam salsa, bebem uns copos, sorriem. O povo saíu à rua, pensei, sem no entanto ter tido consciência de que a Helena Vieira da Silva me acompanhava com aquele seu magnífico cartaz, A Poesia está na rua.

Filmei, fotografei, recusei incessantemente passos de dança que não conheço, falei, sorri, estava numa Festa. Uma Festa popular, onde a certeza de ganhar se encontrava em cada sorriso trocado. O entusiasmo inicial levou-me a uma barreira onde centenas de pessoas se acumulavam, 

O Chávez vai chegar por aqui! 

De certeza? 

De certeza, não... mas pode ser que sim...


Lá me instalei entre dois rabos, preparando a máquina para a prevista chegada. Os olhares cruzavam-se, perscrutando o final da rua, atentos à eventual chegada dos primeiros militares que sempre antecipam a caravana de Chávez. Não sei quanto tempo esperei. Cansada de estar de pé, comprimida entre dois corpos que dificilmente deixavam espaço à minha infrutuosa tentativa de conseguir umas imagens, resolvi ir dar outra volta. O entusiasmo ia esmorecendo, apesar das salsas contínuas dançadas, dos corpos que, não dançando, esperavam por detrás das barreiras a chegada do Comandante, dos jovens que, num camião de som, iam sobrepondo reggae e rap à salsa do palco principal. Quando, após quase três horas de espera e umas tantas águas e cervejas ingeridas, decidi que, 

Caraças, ele podia chegar a horas, Vou até ao 23,

Cruzo, inesperadamente, G. e outro amigo. Decido, então, entre outros conhecimentos que entretanto chegam, continuar a espera, a qual acaba por dar os seus frutos já as 18h passadas. 

E nunca assisti a nada assim. 

No México, a emoção e entusiasmo, também multitudinários, haviam-me impressionado. Porém, aqui, na Venezuela, havia algo mais que ultrapassava a Razão de todos aqueles que ali estavam presentes.

Chávez mescla esperança e emoção com misticismo. Quando chega, a multidão desloca-se fervorosamente, correndo violentamente na sua direcção, pouco importando quem está de permeio. Irracionalmente, os corpos não querem saber dos corpos seus vizinhos; o objectivo é apenas um: aproximarem-se de Chávez. E tocá-lo, se possível for. Assim foi neste 28 de Julho. Crianças choravam, os pais gritavam, e eu protegi-me daquele vasto e inesperado movimento num dos passeios que beirava a feira, longe da caravana presidencial, tentando compreender aquele movimento frenético de corpos e alarido crescente.

Quando reencontrei uma ligeira calma, no local onde me encontrava, e tornei a cruzar os amigos, abanei a cabeça em sinal de espanto, 

Nem sei o que dizer... 

Eles sorriram e responderam-me,

Viste o Comandante. É sempre assim quando ele vai a algum sítio. Sempre, sempre assim... 


Atónita, segui com o olhar o movimento que se deslocou até ao palco, na vã esperança de se aproximar de Chávez. Seguiu-se música, os Parabéns aos 58 anos de vida que nesse dia comemorava, e Chávez tomou a palavra. Talvez a espera tenha sido demasiado longa, talvez as minhas pernas cansadas apenas desejassem descansar o corpo numa qualquer cadeira, talvez o calor me tenha atordoado, o facto é que, perante o tumulto iniciado com a chegada de Chávez, a emoção encontrava-se ausente quando principiou o comício. 

Não fiquei até ao fim. Percebi que aquele seria o início de, pelo menos, duas horas de conversação. O entusiasmo dos presentes, no entanto, permanecia – apesar de algumas partidas e de algum esmorecimento -, mostrando essa esperança-mor que Chávez personifica e explicando, em parte, a conjugação de diferentes forças à sua volta. 

Saímos em direcção àquele bairro que me aprendeu a sentir e a ler Caracas, o 23 de Janeiro, sentada numa mesa, frente a uma Polar, ouvindo vidas, vendo o mundo através das palavras de quem ali estava, e trocando ideias sobre este 28 de Julho. Apoiando e respeitando, como já disse e repito, apesar de divergências!, o processo bolivariano em construção.

Texto e fotografias de Ana Maria Saldanha

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