O RIO E A SUA CULTURA POPULAR


Marcus Faustini também é escritor e entre outros tantos afazares é um dos promotores da Agência Redes para a Juventude.

Em 2009 lançou o livro Guia Afetivo da Periferia, uma viagem subjectiva por várias realidades do Rio de Janeiro que se cruzam com a história do autor.

O êxito do livro valeu-lhe a classificação de escritor de periferia. Escritor é escritor, e é exactamente contra o paternalismo dessa classificação, generalizada ao circuito cultural e artístico desenvolvido nas comunidades populares do Rio , que Marcus luta.

Tornou-se um dos principais activistas da cultura popular, de base. A sua opinião veio hoje expressa no suplemento 2 do Público, numa reportagem de Alexandra Lucas Coelho intitulada Um Novo Brasil.

"Tinha uma época que só tinha restaurante japonês no Leblon, onde a classe média fingia que vivia em Nova Iorque. Só que dentro desse restaurante havia um sushiman que era da Rocinha, mas não era narrado na história. E o que está acontecendo agora é que já não dá mais para ele ser invísivel."

"Jovem da favela não é carente, é potente. Ele só está fora das redes e reportórios da cidade. Ainda está. Mas algumas já se abriram, como a do audiovisual."

"O Brasil pode ir para qualquer lugar, Mas nunca esteve tão em disputa e isso é bom. A maior invenção do Brasil é a cultura popular. O Brasil é desejante de cultura. Não é a toa que a mãe bota ao filho o nome de John Lennon da Silva."

"O pobre já foi o homem tosco. Estou falando de Guimarães Rosa, onde a subjectividade se confunde com a terra. A classe média é que sempre representou  o pobre. Pobre é invenção, pobreza é condição sócioeconómica."

"A classe média tem um fétiche em dizer quem é o pobre. O pobre ficou fora dos meios de produção e então inventou meios de cultura, de operar a linguagem, virou o sushimen que fala engraçado. E a classe média ficou confusa: ´Pô, eu aqui te representando e tu fica inventando coisas sem parar."

"Aí, os jovens disseram: ´Não queremos um encontro jesuítico, hierarquizado em que você me diz o que é cultura. Queremos um encontro em que a gente encontre algo de novo´. Queriam quebrar os pobres como produto, commodity da industria cultural."



E porque cultura e criação são talvez os principais instrumentos de transformação da cultura carioca e da emancipação da sua população, em particular daquela que habita nas comunidades populares, muito se escreve sobre o assunto.

Também hoje, Jorge Barbosa, Geografo e Coordenador Geral do Observatório de Favelas publicou um editorial denominado Cultura da Favela é Cidade:

Cultura da Favela é Cidade 
por Jorge Barbosa 

As favelas são solos férteis para criação cultural. O samba, a capoeira, o choro combinaram a dança e a música na gestualidade estética carioca. O funk, o hip-hop, o break e o forró atualizaram as marcas do mundo vivido de seus moradores. A pintura, o grafite, a fotografia e o vídeo retraduzem pertencimentos à cidade. 

A favela faz florescer a cultura no Rio de Janeiro. Nos seus becos, vielas e pequenas praças estão os diferentes encontros que formam um tecido denso de sociabilidade, de religiosidade, de humanidade. É a mistura de arte com a vida que vai faz a esperança cotidiana ser chamada de cultura. 

Por isso, e muito mais, que a favela é um território de experimentações, de singelezas e de desafios. Olhando de longe não identificamos os equipamentos culturais monumentais. Não há prédios grandiosos, e até mesmo mais simples não ilustram a paisagem. Mas quando nos aproximamos fica em relevo a pluralidade de invenções e de práticas que dão significado à existência humana. 

Na calçada as crianças retomam criativamente brincadeiras dos seus pais e avós. N’outra esquina sentimos os sabores da comida nordestina. Mais adiante dispara o sonoro aroma da feijoada com pagode. Enquanto motoboys circulam sem parar, e os santos de fé figuram nas fachadas. Lan houses se avizinham das barracas de camelôs e das biroscas.
Celulares, ipads, televisão cabo. Búzios, telegramas do amor, rádios de pilha. São encruzilhadas da velocidade com o tempo lento. O consumo urbano adentra pela favela, seduz e é seduzido. É inventado um novo jogo. Jogo onde nos localizamos - e nos perdemos - no mapa de significações. Geografia de nós mesmos com outros diferentes, chamada cidade. 

A cultura é patrimônio materialmente inscrito. Mas é também conhecimento de nós mesmos. Um sentido de pertencer a algo que nos pertence: o território. Uma morada virtual (no sentido de vida) que nos faz ser/estar como a expressão diferenciada de significados. É no território que a cultura realiza as possibilidades de sua apropriação como conceito e de sua visibilidade como prática social. Podemos habitar a cidade compartilhando experiências / territórios de sociabilidades fraternas? A favela te convida: passa lá em casa. 

A cultura é o habitar em uma obra inconclusa, sobretudo porque a criação cultural é um ato de trocas simbólicas, corpóreas e materiais entre os seres humanos. Assim, criamos vínculos e interpretamos nossa presença na sociedade. Porém, a cultura nos permite interrogar nossa posição, nosso lugar, nossa existência. A cultura está imersa em nossas práticas e condutas sociais. Daí a centralidade política da cultura para a construção de um projeto transformador da cidade contemporânea. 

Precisamos viver a cultura de modo mais rico, intenso e plural para sermos capazes de inventar o futuro. Por isso renovamos o convite: habite os solos culturais das favelas.


Este documentário da BBC explica a importância da socialização popular urbana na criação dos principais géneros musicais basileiros: Manguebeat, Rap, Samba, Funk, techno, etc.