Proteomics, a equivalência entre o sangue e a luz



A biologia é uma tecnologia de informação.

O antigo sonho da simbiose entre os códigos, entre as espirais do ADN e as linhas de números do software, materializa-se hoje no diálogo e escrita contínua entre corpos e computadores. Começou em 1953, no Institute for Advanced Study, em Princeton, a fusão do digital e do orgânico. Desde então, a genética nunca mais deixou de estar intimamente associada à informática e à cibernética, essa vaga e complexa filosofia do controlo e da comunicação, e a vida nunca mais deixou de ser entendida pelos cientistas do mundo como uma propriedade emergente da organização de códigos. Somos hardware, animados por programas.

As mais estranhas, ou óbvias, iluminações das novas metáforas da biologia são as que fazem regressar o entendimento do corpo humano às noções dos antigos, onde a visão sistémica da medicina previligia o equilíbrio, a harmonia, e a interligação entre todos os pequenos infinitos pormenores da vida quotidiana. As horas de sono, um sorriso ou uma discussão matinal, café ou chá. Numa gota de sangue cabe toda a informação sobre o passado e o possível futuro do corpo, e até agora a medição dessas turbulentas propriedades era impedida e viciada pela mecânica pesada dos laboratórios pre-digitais.


Enter W. Daniel Hillis, o lendário fundador da Applied Minds, inventor do conceito de computação paralela - na base da maioria dos supercomputadores - e o mais recente ilustre investigador dos mistérios dessa desregulação celular a que por simplicidade, ou medo, aprendemos a chamar cancro.

Hillis tem vindo a desenvolver projectos de laboratórios para o estudo da permanente conversa entre as proteínas do corpo humano, Proteomics, e a aplicar ao metabolismo das células os métodos de investigação e os instrumentos digitais da informática. Com o objectivo de modelar o ideal estado de equilíbrio saudável, um pouco como se de um sistema metereológico se tratasse, Hillis anuncia uma medicina preventiva, personalizada, para sempre ligada às bases de dados e às redes de comunicação digital.

Se o conhecimento do genoma pode ser explicado como sendo a lista de ingredientes de um determinado restaurante - muita soja e pak choi quase sempre significa que o estabelecimento é asiático - a promessa do entendimento sistémico das proteínas equivale a entrar na cozinha e verificar a execução das receitas. Ao coleccionar, catalogar, interligar, e arquivar toda esta informação biológica, a medicina do futuro próximo não é definida pela capacidade de executar milagres, mas pela possibilidade de os decifrar. 



De sangue e luz se faz o novo século. Os cabos de fibra óptica que atravessam o planeta, os oceanos e as cidades comunicam o mundo a si mesmo na conversa digital única das finanças, da cultura, da guerra, do amor. Algures, e em toda a parte, a rede começa agora a falar também - e com todo o peso da coincidência metafórica - a linguagem celular.