COMIC, UM MARCO DE CULTURA POPULAR #copra #archive


Texto de Jorge Magalhães editado originalmente na fanzine Copra dirigida por Jose de Matos Cruz.

COMIC, UM MARCO DE CULTURA POPULAR 

Tem-se pretendido situar a origem das HQ [História em Quadrinhos] na antiguidade, referindo exemplos como as pinturas paleollticas, as ilustrações do Livro dos Mortos dos antigos egípcios, os mosaicos sumérios, a Coluna de Trajano, a tapeçaria de Bayeux, a tábua de Protat, etc. Quando muito, poderá ver-se, nesss exemplos, os signos de uma linguagem em tensão permanente, que procura romper as suas estruturas primitivas e criar nova formas expressionais. 

"Os quadrinhos não são uma Coluna de Trajano, nem tam­ pouco tapeçaria de Bayeux; esse veículo gráfico não quer, pela sua sucessão de imagens, ir contando a história. A reprodução grá fica de imagens da antiguidade é responsável por inúmeros equívocos" (Wlademir Dias-Pino, in Revista de Cultura Vozes, nº 94, Maio de 1971). 

Só nos séculos XVIII e XIX se produz a integração dos elementos que constituem a linquagem estrutural dos quadrinhos. 
É neste contexto histórico e cultural que surgem as imagens de Épinal, arte popular apoiada por uma técnica de reprodução em­brionária; os magazines infantis que inserem histórias senten­ciosas e de fundo humorístico, utilizando uma sequência uniforme, com textos copiosos por baixo das vinhetas; e as criações de Rudolph Topffer (1799-1846), cujo estilo elíptico antecipa a moderna técnica dos quadrinhos. 


Mas os primórdios da narração figurativa permanecem tabém vinculados à sátira política,que utilizava a caricatura como arma preferida. Certos magazines satíricos da época co­mo o Punch, de longevidade notável, pois chegou até os nossos dias , foram os bancos de ensaio de alguns dos mais reputa­dos pioneiros da narração gráfica. "A grande época da ilustração política", escreve George Perry em The penguin Book of Comics. "situa-se entre os fins do século dezoito e meados do dezanove. Neste período, o género evoluiu em duas direcções distintas: o cartoon político,que se prolongou até os nossos dias através da obra de David Low, Vicky e Herblock, e a tira satírica. Ambos foram simultanea­mente praticados pelos mais famosos artistas da época: Thomas Rowlandson (1757-1827), cujo Dr. Syntax foi a primeira personagem regular dos quadrinhos, James Gilroy (1757-1815), célebre pela agressividade corrosiva do seu estilo, e George Cruikshank (1792-1878), cujo pai, Isaac, foi um dos mais conhecidos cartoonists da era napoleónica. Rowlandson e Gilray, particularmente, foram responsáveis por transformar o balão, artifício usado para indicar o diálogo dentro de um desenho, num uso corrente".  

Com a generalização do balão , os quadrinhos sofrem um impulso estético comparável ao do cinema após o advento do sonoro, tornando-se um fenómeno digno de ser analisado sob uma perspectiva crítica relacionada com a nossa sociedade de consumo. 


Em 1896, surge The Yellow Kid. o primeiro herói marcado pelos imperativos do consumo. Historicamente, o momento corresponde à difusão das novas técnicas de imprensa (sobretudo nos Estados Unidos) e às primeiras sessões Públicas do cinematógrafo. A cultura popular -fomentada pelas novas necessidades criativas e Sociais -- crava as suas primeiras estacas no cerne da arte contemporânea. 

The Yellow Kid surge no New York World pela mão de Richard Fenton Outcault, de senhador ao serviço da ideologia capitalista de Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst, o cidadão Kane dos grandes jornais americanos. 

Vestido com uma enorme camisola que, por vezes, serve de espelho dos seus pró­prios pensamentos -- e que os técnicos do jornal, um belo dia, resolvem pintar de amarelo --, esse rapazito chinês de orelhas de abano e sorriso travesso vai tornar-se o patrono de certa imprensa estadunidense, apelidado de yellow journalisme - (jornalismo amarelo), e provocar uma onda de emulação em artistas das mais diversas tendências, como Rudolph Dirks, James Swinnerton, Winsor Mc Kay ou Charles Kahles. 

Deste breve esboço histórico, podemos extrair os seguintes pontos capitais:  

- As HQ nasceram ao mesmo tempo que os novos meios de reprodução e de consumo, dentro de um contexto económico e so­cial gerado pela revolução industrial e o capitalismo. 
- Numa perspectiva histórica, os quadrinhos represen­tam um marco da cultura popular, pela multiplicidade e o valor intrínseco das suas criações. 

Acrescentemos que a função da cultura de massas já não é apenas imitar a arte, mas sim transformá-la: "a cultura popular situada no próprio redemoinho da cultura eléctrica do nos­so tempo" - segundo a exemplar focagem de Moacy Cirne.