Decálogo, de Jan Švankmajer

[Estes são os "dez mandamentos" pelos quais Jan Švankmajer se guia para realizar os seus filmes de animação. Esta tradução foi feita a partir do livro Para ver, cierra los ojos, da editora Pepitas de calabaza. O texto foi publicado pela primeira vez em 1999 na revista checa Analogon, nº 26-27.]


I. Grava no teu espírito que a poesia é uma só. O contrário da poesia é a especialização profissional. Antes de começares a rodar um filme, escreve um poema, pinta um quadro, faz uma colagem, escreve uma história, um ensaio, etc. Porque só terás a garantia de realizar um bom filme alimentando a universalidade dos meios de expressão.

II. Submete-te por completo às tuas obsessões. As tuas obsessões são o melhor que possuis. São relíquias da infância. E é das profundezas da infância que vêm os melhores tesouros. É preciso deixar sempre a porta aberta ao que vem de fora. Não se trata de recordações, senão de sentimentos. Não se trata do consciente, senão do inconsciente. Deixa que este rio subterrâneo flua por ti livremente. Concentra-te nele e relaxa-te ao máximo. Quando rodas um filme deves estar "submerso" vinte e quatro hora por dia. Em tal estado todas as tuas obsessões, toda a tua infância, instalar-se-á no filme sem que de tal sejas consciente. Desta maneira o filme será um triunfo do que provém da infância. Este é o objectivo.

III. Utiliza a animação como se realizasses uma operação mágica. A animação não consiste em fazer com que as coisas mortas se mexam, mas sim em reanimá-las. Ou melhor, em dar-lhes vida. Antes de reanimar um objecto num filme teu, tenta compreendê-lo não através da sua função utilitária, senão da sua vida interior. Os objectos, sobretudo os objectos antigos, são testemunha de diferentes histórias que ficaram impressas neles. Foram tocados e manuseados por pessoas que se encontravam em  diferentes situações e sob a influencia de diferentes emoções, deixando neles as marcas dos seus estados psíquicos. Se, através da câmara, queres tornar visível o conteúdo que está oculto nestes objectos, deves escutá-los, por vezes, durante vários anos. Primeiro que tudo deves converter-te num coleccionador, só depois disso num cineasta. A reanimação feita através da animação deve realizar-se com naturalidade, deve emanar dos objectos e não do teu desejo. Nunca exerças violência sobre esses objectos! Não te sirvas dos objectos para contar as tuas histórias, conta as histórias dos objectos.

IV. Toma o sonho por realidade e a realidade por sonho. Não há caminhos lógicos. Entre o sonho e a realidade há apenas um ínfimo movimento físico: o abrir e fechar dos olhos. No sonho acordado, nem sequer existe esse movimento.

V.
Se tens de decidir ao que deves dar prioridade, se à visão ou à experiência do corpo, dá sempre prioridade à experiência física, uma vez que o tacto é anterior à visão e é uma experiência muito mais fundamental. Além disso, no estado actual da civilização, uma civilização audiovisual, o olho está extremamente fatigado e danificado. A experiência física é mais autentica e, até ao momento, não teve de aguentar o peso da estética. Mas o ponto que não deves perder de vista é a sinestesia.

VI. Quanto mais aprofundas uma história fantástica, mais realista tens de ser com os detalhes. Deves apoiar-te completamente na experiência onírica. Se queres que o espectador sinta que o que está a ver lhe diz respeito, que não se trata de algo exterior ao seu próprio universo mas antes algo no qual ele, inconscientemente, está afundado até ao pescoço, não tenhas receio de usar "descrições monótonas" de uma obsessão que insistentemente repete um "detalhe insignificante", não tenhas receio de recorrer a um estilo documental. Para tal, deves servir-te de todos os artifícios cinematográficos que tenhas ao alcance.

VII. A imaginação é subversiva porque proclama o possível sobre o real. Eis o porquê de usares desenfreadamente a imaginação. A imaginação é o maior dom que a humanidade possui. A imaginação é o que nos tornou mais humanos, não o trabalho. Imaginação, imaginação, imaginação...

VIII. Escolhe sempre temas sobre os quais a tua posição seja ambígua. Esta ambiguidade deve ser suficientemente profunda e irreversível para que possas caminhar no seu topo sem cair para um lado ou para o outro, ou para os dois lados ao mesmo tempo. Só assim podes evitar o pior dos crimes: um filme-dissertação.

IX. Cultiva a criatividade como uma forma de auto-terapia. Esta atitude anti-estética é a que aproxima efectivamente a criação artística à liberdade. Se a criatividade tem um sentido é exclusivamente o de nos libertar. Nenhum filme (quadro, poema) pode libertar um espectador se não provoca o mesmo efeito no seu autor. Tudo o resto não é mais que uma questão de "subjectividade geral". Pensa na criação artística como uma libertação permanente.

X. Dá sempre prioridade à criação, à persistência do modelo interior ou do automatismo psíquico e não à ideia. Uma ideia - mesmo a melhor - não é razão suficiente para estar detrás da camera. A criação artística não é o saltar de uma ideia para a outra. A ideia só tem lugar na criação quando já assimilaste o tema que desejas expressar. Só depois de isto acontecer é que surgem as boas ideias. A ideia faz parte de um processo criativo, mas não constitui de forma alguma o seu impulso.
Nunca trabalhes, improvisa sempre. O argumento é importante para o produtor, não para ti. É um documento que não compromete nada, ao qual recorres quando a inspiração te abandona. Se isso acontece mais de três vezes durante a rodagem, leva isso como um sinal: ou estás a fazer um mau filme ou já o terminaste.

O facto de formular
estes dez mandamentos não significa que os siga conscientemente. Estas regras são uma consequência da minha criação, não a precederam.
Por outro lado, todos os mandamentos existem para ser transgredidos (não contornadas). No entanto, há outra regra que se transgredida (ou contornada) é destrutiva para qualquer artista: nunca ponhas o teu trabalho ao serviço de outra coisa que não a liberdade.