DISCURSOS SOBRE O POST-FILHO-DA-PUTA #ensaio #archive

Retirado da secção Almanaque da revista Devagar nº1, provavelmente da autoria de António Ferreira, seu editor e proprietário.


Apontamentos para um DISCURSO SOBRE O POST-FILHO-DA-PUTA

O post-filho-da-puta não se opõe, detesta. E, não detesta as coisas, detesta o nome das coisas. Mas não o verdadeiro nome, apenas o pseudónimo das coisas, aposto nelas por ele próprio ou pelos seus mentores. Assim ele detesta sempre um pouco ao lado e por isso ninguém se sente realmente atingido pelos seus sarcasmos. Este quociente de ineficácia estende-se da crítica às realizações, alterando toda a sua postura como indivíduo e como geração.

O post-filho-da-puta detesta abundantemente na prática, tudo o que não seja ele próprio e a sua desmesurada sede de sucesso -mas encarniça-se com um fervor especial sobre o que chama, erradamente, a «geração de 60». Afirmando a torto e a direito já estar farto de ouvir falar de Maio de 68 acaba por ser o principal divulgador dos nomes e feitos da  década, a qual, sem ele e o seu infatigável desdém, já estaria provavelmente esquecida. Mas é claro que se soubesse o que foi realmente o Maio de 68 o post-filho-da-puta detestá-lo-ia ainda mais.

O post-filho-da-puta acredita em tudo porque acredita cegamente no dinheiro e, para ele, tudo gira à volta do dinheiro. Na sua ignorância, considera-se terrivelmente inovador por esse facto de atribuir ao «vil metal» um lugar central no seu ingénuo sistema de referencias.

Alguém lhe disse que a geração anterior prezava outros valores. Crédulo onde se julga mais cínico hei-lo que vive desde então na convicção de que sem ele já o sistema monetário teria sido revogado à muito. Que o dinheiro seja desde há muitas gerações a primeira preocupação da esmagadora maioria dos homens -e nunca tenha deixado de o ser - ignora-o ele na sua beatitude fundadora. Que tenha havido em cada geração e como há na dele mas do outro lado -uma ínfima minoria que rejeita e aponta os malefícios do dinheiro, ignora-o também porque não foi assim que lhe contaram a história. Jornalistas e outros aduladores profissionais extasiam-se perante o pragmatismo, a ausência de ilusões de que supostamente dá mostras o post-filho-da-puta. O seu antecessor filho-da-puta, esse sim, era pragmático. Declarava ele não acreditar em nada pela simples razão de saber que a nada chegaria. E a nada chegou, efectivamente, para além de um conforto de pechisbeque adornado de saudades do que nunca foi. Só poeticamente desejava o impossível, um impossível bem comportado como ele. E secretamente desejava tudo o que fosse possível, na esperança de que pelo menos um dos desejos se realizasse. Realizou-se um, de facto, o único que lhe era caro de verdade: o desejo de ter tudo o que hoje tem: tudo o mais era poesia (enfim, a sua noção de poesia). Quando hoje se lamenta do curso que as coisas tomaram e se diz traído pela História, não o levem a sério: está apenas a dar largas ao seu velho talento para a mistificação. Chega a ser cómico ver um desses quarentões de unhas manicuradas, com os seus fatinhos perpetuamente domingueiros, sorvendo bebidas avariadas como se fossem o máximo e evocando nostalgicamente os Woodstocks onde nunca estiveram (e se tivessem estado teriam ficado horrorizados) e os Maios de que nem sequer tiveram conhecimento «atempadamente». Tudo isso é fita. Ora o post-filho-da -puta acredita piamente na fita. E vai de zurzir impiedosamente Woodstocks e Maios, completamente ao lado da questão. É neste quadro que ele arvora o seu famoso pragmatismo, ou seja, o primado do dinheiro e do sucesso. Mas vejamos a coisa de mais perto. Será sensato prever para tantos indivíduos - sem nenhum talento especial visível -um futuro «Rich and Famous»? Que uma meia dúzia venha a alcançar uma notoriedade mediática perdurável e as inerentes vantagens - ou dissabores -é mais que provável e o mesmo aconteceu em rodas as gerações desde que há jornais e imbecis para os lerem. Mas não parece muito razoável que tamanha legião de post-filhos-da-puta acredite com tão féria displicência no seu próprio êxito. Ou o génio se tornou , sem termos dado por isso, um artigo corrente ou então vai haver muitos suicídios daqui a uns anos.

A prodigiosa acumulação de banalidades e tiques no meio post-filho-da-puta desmente prima facie um dos axiomas que aí imperam: a recusa da massificação. É estranho que geme tão ferozmente individualista acabe por ser tão monotonamente parecida, o acanhado reportório de poses e falas faz com que seja imediatamente e em qualquer lado reconhecido um membro da seita.

O post-filho-da-puta é esse eterno fedelho cujas insolências só escandalizam a sua própria consciência vacilante, cujas travessuras ou simples tolices ocorrem em circuito fechado, longe dos lugares onde decorrem os confrontos pelos quais verdadeiramente se joga o destino do mundo. Destes confrontos e lugares ele não suspeita sequer a existência, convencido que está de que é ele o centro do universo.

Os anos passam, as luzes da ribalta incidem sobre novas ilusões. O post-filho-da-puta, que celebrou o efémero, será vítima do efémero. Um outro, saído da mesma fábrica e do mesmo modelo, mas com menos vinte anos, apresta-se a roubar-lhe o lugar na galeria d'arte, nas bocas do mundo. E o sucesso, que estava à vista, que parecia garantido, transforma-se em ressentimento impotente, em cinismo estéril. Os que mais contribuíram para erigir o arbitrário em único critério de avaliação dos méritos artísticos ou «mundanos» são as suas primeiras vítimas. O novos «árbitros das elegâncias» não têm a complacente bonomia do original.

O post-filho-da-puta substituiu as drogas que faziam irradiar a consciência pelas que cristalizam a competência. A eufórica precisão e a acuidade que lhe advêm da cocaína aumentam razoavelmente a sua capacidade de produzir insignificâncias cada vez mais rigorosas. É assim que ele chega a lastimar aqueles que no passado acabaram totalmente inadaptados ao mundo da filha-da-putice pelo uso sistemático do L.S.D. ou da heroína, numa fluidificação progressiva da personalidade incompatível com uma adesão submissa à treta reinante. Mas é claro que nem todos os post-filho--da-puta se drogam. A lguns preferem o jogging e o iogurte. A saúde é a única cedência ao ideal, a sua Utopia. Neles ,as olheiras são um adorno tão postiço como tudo o resto. E o postiço, uma referência tão irrisória como as outras.

O post-filho-da-puta procede a essa mesma especialização do tempo que encontramos no quadro clínico da esquizofrenia e que desdialectiza a inserção na história das suas práticas artísticas ou outras. Assim, quando se dedica à arte não é no domínio da arte que ele se move, mas apenas no domínio da história de arte , quando se dedica à filosofia é tão só no domínio da história da filosofia que se move, etc . Nestes domínios ele não ficará como mais um capitulo mas como uma revisão da matéria, feita à trouxe-mouxe. Nada acrescenta, limita-se a resumir. É verdade que ele próprio declara nada querer acrescentar, a arte acabou, a filosofia idem. (Bela novidade, repetida desde há décadas por toda a gente) Mas parte ele daí para urna superação? Não. Parte simplesmente para a venda a retalho de duas ou três velharias requentadas apresentadas como novidade a um público ansioso por ser enganado.

O post-filho-da-puta reptesenta um regresso mas não no sentido que ele julga. Com efeito o imenso mosaico de referências de que ele é feito não é essa reabilitação de fragmentos pré-modernos e modernos com vista a uma reconstrução do mundo ou da sua representação. Estas belas intencões naufragam na despolitização generalizada do passado e do presente por ele promovida -quando a mais importante conquista da época precedente fora precisamente a repolitização de tudo.

Não é o menor dos paradoxos o facto de que o post-filho-da-puta -que-se pretende para além do moderno -sinta uma aversão especial por tudo o que no interior do moderno, se afirmava como a sua superação. Esta surpreendente idiossincrasia ilustra este outro aspecto da natureza do p-f-da-p. Ele não é, por mais que o diga, o filho rebelde do modernismo mas apenas o herdeiro do que houve nesse período de mais ferozmente antimoderno. Como tal o seu papel é hoje ocultar, baralhar e tornar confusa, ou invisível, a verdadeira superação do moderno. Com toda a sua ensurdecedora fanfarra ele quer fazer crer que o post-moderno é aquilo. Quem está dentro do assunto sabe que não é. Quem esteve por dentro das lutas controvérsias que- conduziram o modernismo a um merecido eterno descanso sabe também onde está hoje a superação do modernismo. Não vamos contudo deixar aqui o endereço, não vá algum post aparecer por lá e estragar a festa.