O TEMPO DAS CRIADAS #book


No tempo dos avós, foi-se criada ou serviu-se de uma. À parte da memória pessoal e da história oral, a literatura também acompanhou esse Tempo, como disse Luiz Pacheco: "tudo começou com uma criada".

O tema que Inês Brasão traz à estampa não se reserva apenas à memória e antropologia histórica, ajuda-nos até para a analogia do presente.

A mesma burguesia urbana que tutelou a criadagem nas décadas de 40 e 70 do século XX continua a requerer da servidão para se libertar.

A narrativa preponderante da nova economia, baseada nos serviços avançados fixados nas cidades globais, promoveu estilos de vida dos seus trabalhadores qualificados  que são garantidos pela migração de novos trabalhadores, em especial mulheres.

Assim, para a consolidação da famíla moderna dá-se a emergência de uma nova classe servil (ler Sassen em Global Women: Nannies, Maids and Sex Workers in The New Economy):

In global cities, then, a majority of today´s resident workers are women, and many of those are women of color, both native and immigrant.

O quadro de afiliação servil não está agora reservado ao pater familias, mas persistem elementos, alguns novos e contemporâneos que enquadram o novo estatuto de servidão: precaridade dos vínculos, ausência de protecção laboral, ausência de documentos de cidadania, isolamento familiar e social, desimpowerment na agregação da classe, envolvimento em redes de tráfico humano,etc.