«BATMAN O SENHOR DA NOITE» IN COPRA Nº 3

No mês de Maio de 1939, no número vinte e sete da revista Detective Comics um jovem desenhador que assina Rob' t Kane - a firma Bob Kane aparecerá uns meses mais tarde - apresenta ao público um novo herói. Actua de noite, veste um estranho fato com uma ampla capa que o faz assemelhar-se a um morcego, de onde lhe vem o nome de guerra, e persegue os criminosos até lograr a sua destruição. O personagem, rodeado de uma aura de mistério, interessa imediatamente ao público...

Seis meses mais tarde, no número trinta e três de Detective Comics, enteirar-nos-emos, na aventura intitulada Batman: quem é e como chegou a sê-lo, da história e motivações do herói da série. Thomas Wayne e a sua esposa são assassinados à saída de um cinema - ante os olhos aterrorizados de seu filho Bruce - por um assaltante nocturno, ao resistirem­-lhe. Dias depois, numa cena que a mão mestra de Bob Kane torna inolvidável, num clima im­pressionante, o pequeno Bruce, choroso e à luz duma vela, faz, ajoelhado em sua casa, um sole­ne juramento: Juro, pela alma de meus pais vingar a sua morte, dedicando o resto da mi­nha vida a lutar contra os delinquentes... Bruce estudara ciências e praticava todos os desportos. Um dia, apresta­-se a começar, mas procura um nome que os criminosos ouçam aterrados. Um morcego penetra pela janela aberta do seu estúdio. A sorte esta lançada.

No número trinta e oito de Detective Comics cumpre-se aquele velho adagio biblico, Não é bom que o Homem esteja só... e, em vez de Eva, aparece um adolescente vítima, igualmente, do cri­me. Adopta o apodo de Robin, e completa a equipa que seria chamada de Dinâmico Duo, lançando-se na luta contra os fora-da-lei, causando estragos em suas filas. 


O ano de 1940 será decisivo para a história de Batman; de um lado, conhecerá os seus mais ferozes inimigos: The Penguin, Clayface e The Joke; por outro lado, em compensação, no numero dois de World's Finest Comics, encontrará outro grande, se bem que não-humano, da luta contra o crime: Superman, com quem frequentemente colaborara em franca camaradagem, a partir de então. 
 
Um ponto a destacar na figura do Herói é a sua personalidade secreta. Bruce Wayne, um cientista milionário e, como se isto fosse pouco, um completíssimo atleta, é quem usa aquele uniforme que consiste num capuz médio que lhe oculta os olhos e a face, cobrin­do-o como uma carapaça, da qual sobressaem duas orelhas ponteagudas à semelhança estilizada de um morcego, além do conhecidíssimo fato cingido ao corpo, que se sofisticará com o transcorrer dos anos, e onde se destaca o simbó­lico morcego sobre o peito. A capa, utilizada para as mais diversas funções, inclusive para planar de grandes alturas, encerra o aparato, que indubitavelmente desperta enorme entusiasmo entre o público leitor.
 
Quando veste o uniforme, os olhos desaparecem, ficando as fendas brancas, como em The Phantom de Ray Moore. Mas aqui, em contrapartida - ao contrário que no famosíssimo herói da selva - faz-nos participantes da secreta personalidade de Batman; com ele o leitor sofrerá ao ver descoberta a sua oculta identidade, e discorrerá um meio para sair airosamente do transe. Este aspecto - moderno reflexo do mito do Dr. Jeckill - cala sempre muito fundo no ânimo do público-massa; o trabalho diário, mais que liber­tar, escraviza ao converter o homem - cada vez mais consciente disso, ainda que embriagado com esquemas, filosofias e lemas pre-fabricados - no que ele autenticamente é, um simples elo na engrenagem da gigantesca máquina do sistema. E esse elo, tarde ou cedo, desgasta-se ou oxida. 


Sonha, então, o leitor, com uma oculta personalidade que, sem perder as comodidades que permite um soldo fixo dentro de um trabalho rotineiro - aspecto este que não se deve esquecer - lhe permita auto-realizar-se. A identificação a nível subconsciente com o herói é total, e a serie - para além do logro do seu total êxito comercial - começa a desnovelar um germe do mito em que se converteria Batman. 

Residentes em Gotham City, os milhões de Bruce Wayne permitem-lhe - do mesmo modo que os superpoderes a Superman - ter a sua Batcaverna por baixo da Vila Wayne, onde estão ocultos, não só a clássica Sala de Troféus, mas ainda Laboratório, Arquivo e Ficheiros do Crime, as "garagens" para guardar e conservar o Batmóvel, o Batscafo, o Batplano e o Batcóptero, com os quais o Dinâmico Duo leva­rá a justiça por terra, mar e ar ... 

 A mulher, como em todo o comic que se preze, e talvez para amordaçar certas malévolas acusações de homossexualismo feitas por alguns teóricos da banda desenhada aparece na série Batgirl - como a sua homónima Supergirl - es­tará ao lado da parelha, mas a nota sentimental com o homem-morcego não estará a seu cargo - pe­lo contrário, Batman contará com duas acérrimas inimigas (Poison Ivy e Cat Woman), sendo nesta última que o equivoco amoroso se bem que muito ambi­guamente definido, surgirá; o leitor nunca saberá o que pensar a respeito de Cat Woman e permanecerá na dúvida sobre se a bela gatita quer  assassinar ou amar o "rato voador."

A série, ainda que com alguns altos-e-baixos, sem­pre gozara do favor e do interesse do público, e grandes desenhadores passarão por ela,como Bob Kane, Mike Secowvsk, Nick Cardy, Bill Binger, Carmine Infantino, Joe Giella, Gil Kane, Neal Adams, Ross Andreu, Irv Novick, Dick Giordano, Bob Brown; Frank Robbins - que darão o melhor do seu talento ao herói nocturno. 


Mas os tempos mudam, e as jovens gerações não se entendem com os seus maiores. Robin abandona Batman, e luta só cotra o crime, para unir-se, depois, aos Teen Titans. Batman sente-se abandonado, os casos escampam-se-lhe entre as mãos e, o que é  pior, os leitores também.

Os supertitãs Marvel causavam impacto, mas nasce (ou seria melhor dizer, renasce) uma nova afeição pelo género de terror e bruxaria, e vemos Batman a lutar contra estranhos assassinos e sociedades secretas (ainda que já sem demasiada convicção), o crime, a droga, a corrupção e outras formas marginais - contudo bem organizadas para o herói solitário, e, ainda que a série não o diga clara­mente, Batman é amiudadas vezes vencido pelas artimanhas mais ou menos legais das grandes figuras, ocultas, dessa comunidade que ele anteriormente defendera com total convicção.

Surge a Justice League of America, para agrupar os heróis que estão sendo Jubilados pelo tempo; personagens que trabalharam quotidianamente junto a Batman , unem-se a essa associação, e assim encontraremos acamaradando com o homem-morcego Superman, Green Lantern, Atom, Black Canard, Wonder Woman e outros triunfantes no passado, agora muitas vezes vencidos ou casualmente salvos por uma centelha de valor ou inteligência, quase tardia, de últi­ma instância.
 
Não obstante, as colecções Detective Comics e Batman conti­nuam oferecen­do-nos as andanças do justiceiro nocturno, que intervém tam­bém ocasional­mente noutros comic-books, onde os mitos resistem - embora o tempo implacável, continue a transcorrer ...

Esteban Bartolomé