O RESCALDO DE UMA CRISE EM LISBOA PARTE 1: O INEVITÁVEL REBIRTH DA PUBLICIDADE

Que melhor forma para os Estados Unidos restabelecerem a confiança dos consumidores do que posicionar esta crise como marca?
Sarah Banet-Weiser


IMPORTED FROM DETROIT

«O anúncio é uma homenagem a Detroit. Apresenta o cantor de Hip Hop Eminem e a sua canção “Lose Yourself” e é uma espécie de ícone, uma canção sobre Detroit, retirada de um filme e albúm que ele fez sobre a cidade. E o anúncio era totalmente sobre o rebranding de três coisas: da cidade de Detroit, da marca Chrysler; e do capitalismo (…) é um bonito anúncio, em que se encaixam imagens nostálgicas de Detroit e uma mensagem a dizer que Detroit não é uma cidade de ostentação.»

«Diz explicitamente “Isto não é Sin City”, referindo-se a Las Vegas, ou “Isto não é Nova Iorque”, referindo-se à opolência e à riqueza de Nova Iorque. E diz: “Esta cidade não é a esmeralda de ninguém”. Portanto, fazem este gesto muito específico no sentido de mostrar uma cidade onde não há ostentação, que não é rica. E depois dizem que esse é o motor da cidade, é o que fazem. O anúncio é sobre trabalho, numa especie de tempo mais simples. Faz o rebranding do capitalismo nesta moldura nostálgica dizendo que isto é o que temos que fazer agora.»

«No imaginário dos Estados Unidos, Detroit corresponde à ideia de uma cidade mais ou menos deprimida. Aparece então este anúncio, muito bem filmado, a mostrar imagens do passado como a dos murais de Diego Rivera, avenida Woodward, o Teatro Foz..Mostra todas estas imagens nostálgicas e diz: "Estamos de volta". De volta a um tempo simples, podemos fazer isto, reconquistar a confiança.»

«Mas não penso que a questão tenha  a ver com comprar produtos. Estamos em 2011. Os públicos sabem lidar relativamente bem com os meios de comunicação e criam os seus anuncios permanentemente. (...) Não precisamos de anúncio, não têm o poder de nos persuadir que já tiveram. Então porque é que este funciona de forma particular? Penso que os anúncios têm uma qualidade efectiva quando as pessoas se sentem vulneráveis, E os americanos, como praticamente toda a gente do mundo, estão a sentir-se inacreditávelmente vulneráveis neste momento.»

«Não é um Prius. Não é um desses carros amigos do ambiente que devíamos comprar. (...) O anúncio é sobre músculos, afirma que Detroit é uma cidade de músculos e de trabalho duro. (...) O anúncio explora de forma de forma interessante a classe trabalhadora americana, de forma que historicamente os anúncios nunca usaram muito, pois têm sido mais sobre a classe media. Este é mesmo sobre o trabalhador, a classe trabalhadora e encara esse aspecto recordando às pessoas que o caminho pelo qual vamos sair desta confusão é o do trabalho»


GO FORTH 

« (...) penso nos anúncios da Levi´s - recorrem a uma espécie de tom apocalíptico, uma espécie de sentimento de zona de guerra na estética do anúncio, que sugere que devíamos estar cansados. Que não devíamos simplesmente continuar como sempre fizemos. (...) Não é de todo sobre a morte do capitalismo, não para estas empresas, nem poderia ser, porque depois não teriam razão para existir. Portanto, a retórica dos anúncios pós-2008 é sobre capitalismo, mas sobre uma forma de pensar o capitalismo que mudou, que se foca no indivíduo, no trabalho e no trabalhador. É uma espécie de versão mais simplificada e austera do capitalismo.» 
 


«Nos primeiros investimentos da Levis nesta campanha foi usada a poesia de Walt Whitman. Ou seja, este produto americano por excelência, que carrega historicamente uma grande dose de nostalgia (...) E o anúncio é montado com uma locução off, que se assemelha a uma gravação nostalgica da música "Oh pioneers", para provocar ou activar uma espécie de sentimento de: "Isto é o que fazemos. Apoderamo-nos do mundo. Isto é o que fazemos, saímos e trabalhamos sem medo, fortes, poderosos" e usa isto. Curiosamente, algumas pessoas acharam que a ideia de usar Walt Whitman foi demasiado cinica, excessiva, que foi um esforço para transmitir sinceridade de uma forma despropositada»



«Então, no anúncio seguinte a Levi´s foi mesmo a Braddock, na Pensilvânia, filmou pessoas reais e usou-as no anúncio»

«(...) foi historicamente uma cidade movimentada pela industria do aço. Perdeu 90% da sua população desde 2008, desde que a indústria do aço desabou nos Estados Unidos»

«A narrativa do anúncio é feita por uma criança (...). No anúncio a criança diz que alguma coisa se estragou e que é preciso arranjá-la. É impressionante na sua abstracção. Não foi a ganância das empresas, não foi a falência dos bancos a enganar a classe operária. Foi apenas alguma coisa que se estragou. O anúncio abstrai completamente a crise de qualquer tipo de culpas individuais, institucionais ou do Estado.»

Sarah Banet-Weiser, 
em entrevista a Bregtje Van Der Haak
                                                                                     in Aftermath