Pele de Galinha #6: Franz F. Liszt

quartas & sábados às 11:00 e 19:00  



Compositor, pianista e professor, nascido na Hungria, Liszt foi uma das principais figuras musicais corrente romântica. Nas suas obras ele desenvolveu novas abordagens, técnicas e criativas, que marcaram os seus mais "avant-garde" contemporâneos e anteciparam algumas ideias e procedimentos típicos do sec. XX. Como nenhum outro, até então, ele usou e desenvolveu a "transformação temática" como parte da sua revolução formal, concretizou ousadas experiências harmónicas, inventou o poema sinfónico para orquestra e termos/conceitos como "recital". 
 
Liszt sobre um excerto do manuscrito da sua Sonata em si menor
Enquanto intérprete (considerado o mais virtuoso pianista do seu tempo) utilizou a sua fabulosa técnica e a cativante presença em palco não só em proveito próprio, mas também (num contributo muito mais importante) para divulgar a obra de outros compositores, através das suas transcrições para piano. Liszt foi o primeiro a decorar programas de concerto inteiros, libertando-se assim do incómodo da partitura, em apresentações ao vivo; o primeiro a tocar todo o vasto leque de repertório (então existente) de Bach a Chopin e Wagner; o primeiro a pensar de uma forma consistente a colocação do piano no palco para que a tampa aberta pudesse refletir o som por todo o auditório; o primeiro a apresentar-se por toda a Europa (entre 1839 e 1847 apresentou-se em mais de 1000 concertos em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Irlanda, Turquia, Alemanha, Austria, Roménia e Russia) numa altura em que as viagens (antes do advento dos caminhos de ferro) eram difíceis e se faziam primordialmente em carruagens, sobre terrenos acidentados e muitas vezes durante a noite. 

Como maestro e professor, especialmente em Weimar, conseguiu transformar-se na mais influente figura da Nova Escola Alemã, dedicada ao progresso na música. O seu persistente e incondicional apoio a compositores como Wagner e Berlioz, valeu-lhes um muito maior reconhecimento pela Europa fora. Igualmente importante (ou talvez mais importante) foi o seu incomparável empenho na preservação e divulgação da melhor música do passado, incluindo nos seus concertos obras de Bach, Handel, Schubert, Weber e sobretudo Beethoven; as suas interpretações de peças como a 9ª Sinfonia ou a Sonata Hammerklavier geraram um novo (ou de novo um) público para música que até então era vista como incompreensível. 

"A minha única ambição como compositor é arremessar a minha lança para o espaço infinito do futuro." 
 Franz F. Liszt

De facto, ainda que como interprete e como compositor tenha sido um dos portentos do romantismo, o seu impacto no modernismo (em compositores como Ravel e Scriabin, entre outros) foi considerável. 

"Todos descendemos radicalmente dele." 

Desde o inicio da sua carreira, Liszt foi considerado o maior de todos os pianistas, mas o seu caminho até ao estatuto de compositor que hoje lhe é justamente atribuido foi particularmente atribulado. 

A Sonata em Si menor, dedicada a Robert Schumann e publicada em 1854, é hoje aclamada como um dos maiores feitos da época romântica e uma das maiores glórias de toda a escrita para piano. No entanto, devido à sua radical inovação, várias décadas passaram até ela ser aceite e outras tantas até ser defenitivamente integrada e valorada no repertório do instrumento. Sempre um ávido experimentador, Liszt queria escrever um novo capítulo na história da forma da sonata. 

A Sonata como género musical, como peça, era normalmente composta para um instrumento solista ou para um duo com um instrumento de teclado, em quatro andamentos distintos e cujo primeiro teria normalmente uma estruturação interna correspondente à "forma sonata" e os restantes um modelo formal normalmente mais simples; a "forma sonata" era uma organização, mais ou menos fixa, de um andamento em três partes fundamentais - Exposição Desenvolvimento e Re-exposição - defenidos não só à custa de elementos harmónicos mas principalmente temáticos. Parece existir aqui um conflito de terminologia (termos semelhantes a retratarem estruturações diferentes e/ou complementares) ao qual Liszt responde brilhantemente. Os típicos quatro andamentos subsistem mas sem quebras entre si, fazendo com que as suas ideias se revelem ao longo de um único corpo musical sem interrupções de cerca de 30 minutos. A este ele sobrepõe a estruturação da "forma sonata" e assim a complexidade formal que figuraria somente no 1º andamento passa a moldar toda a obra. A Sonata é conhecida por ser baseada em cinco motivos (três dos quais são expostos na primeira página), simples mas esperançosos, sobre os quais é construido um enorme edifício musical. Os motivos são então submetidos à transformação temática ao longo de toda a peça, para se adaptarem ao contexto do momento. Um tema que, em determinado contexto, soa ameaçador e até violento, é, no contexto seguinte, transformado numa belíssima melodia. Em cada compasso, cada partícula destes temas é transformada a partir deste escasso material. Observando os poderosos conflitos interiores desta peça, encontraremos a mais audaciosa inovação formal numa obra de larga escala desde Beethoven. Esta é uma música de uma drástica intelectualidade envolvida por um drama Dantesco. 

"Meu mui caro Franz, Estiveste comigo, a sonata é bela para além de todas as comparações, maravilhosa, doce, profunda e nobre, sublime como Tu."- escreveu Richard Wagner depois de um recital privado em Londres. 

A estreia mundial da obra, em 1857 (depois de dois anos de afincado estudo, de perto supervisionado pelo compositor) aconteceu pelas mãos de Hans Von Bulow (aluno brilhante e genro de Liszt), em Berlim. A crítica não poderia ter sido mais devastadora. Nos anos seguintes não foi tocada e o próprio compositor desencorajava os seus alunos de a incluirem nos seus programas de concerto. Na década de 80 (do séc XIX), ela reapareceu em Londres, Paris, Viena (onde ainda foi recebida com extrema controvérsia) e no final da década chegava aos Estados Unidos da América. No entanto, no inicio do séc. XX ela era amplamente tocada por toda a Europa e pouco depois atingia o seu estatuto de obra prima, decorridos quase cinquenta anos.         

playlist :

Sinfonia nº 9, em ré menor, op. 125 II andamento Scherzo: Molto vivace – Presto 
Ludwig Van Beethoven (Bonn 1770 - Wien 1827)   

Sonata para violoncelo e piano nº2, op.99 II andamento Adagio affettuoso 
Johannes Brahms (Hamburg 1833 – Wien 1897)   

Stabat Mater 1. Stabat Mater - Duetto 
Giovanni Battista Pergolesi (Jesi 1710 - Pozzuoli 1736)   

Sonata para piano em si menor 
Franz Liszt (Raiding 1811 - Bayreuth 1886)   
        



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 wednesday & saturday at 11 AM and 7 PM


Hungarian composer, pianist and teacher, Franz F. Liszt was one of the most proeminent figures of the Romantic movement in music. In his compositions he developed new methods, creative and technical, which left their mark upon his forward-looking contemporaries and anticipated some 20th century ideas and procedures; he also evolved the "thematic transformation" as part of his revolution in form, made radical experiments in harmony, invented the symphonic poem for orchestra and terms/concepts such as "recital". 

As the greatest piano virtuoso of his time, he used his sensational technique and captivating concert personality not only for personal effect, but also (and more importantly) to spread, through his piano transcriptions, knowledge of others composers' music. He was the first to play entire progammes from memory; the first to play the full range of the keyboard repertory (as it then existed) from Bach to Chopin and Wagner; the first to place consistently the piano at right-angles to the stage, so that its open lid reflected the sound across the auditorium; the first to tour Europe (between 1839 and 1847 he gave well over 1000 performances in Portugal, Spain, France, England, Ireland, Turkey, Germany, Austria, Romania and Russia) in a time before the age of railway, when travel was accomplished mostly by post-chaise over rough terrain, often at night. 

As a conductor and teacher, especially at Weimar, he made himself the most influential figure of the New German School dedicated to progress in music. His unremitting championship of Wagner and Berlioz helped these composers achieve a wider European fame. Equally important was his unrivalled commitment to preserving and promoting the best music of the past, including Bach, Handel, Schubert, Weber and above all Beethoven; his performances of such works as Beethoven Ninth Symphony and Hammerklavier Sonata (op.106) created new audiences for music hitherto regarded as incomprehensible. 

"My sole ambition as a composer is to hurl my javelin into the infinite space of the future" 
Franz F. Liszt 

Indeed, though as both performer and composer he was one of the potent forces of Romanticism, Liszt's impact on modernism (on composers such as Ravel, Scriabin and so many others) was considerable. 

"We are all descended from him radically" 

From the outset of his career, Liszt was considered the greatest of all pianists. But his road to victory as a composer has been rocky. 

The Sonata in B minor, devoted to Robert Schumann and published in 1854, is now acclaimed as one of the greatest achievements of the Romantic age and one of the chief glories of all piano literature. Yet because of its radical inventiveness it took decades to become entrenched in the repertoire. Always an avid experimenter, Liszt wanted to create a new chapter in the history of the sonata form. 

The Sonata as genre, as a piece of music, was normally composed for a solo instrument or for a duo with a keyboard instrument, in four separate movements; the first movement would tipically be structured formally according to the also established "sonata form", while the others would have a less complex internal organization; the "sonata form" was the way to bild a movement of a piece out of three fundamental parts - Exposition, development and recapitulation - defined not only by harmonic but mainly by thematic elements. Here we seem to find a terminology conflict (similar terms seem to represent different and /or complementary things) to which Liszt answered brilliantly. The typical four movements remain but without gaps between them, making his ideas unfold over a single, unbroken body of music lasting some 30 minutes. To this body he superimposes the "sonata form" structuring, and thus the formal complexity that should be applied to the first movement alone is now molding the entire work. 

The Sonata is notable for being constructed from five motivic units (three of which are presented in the first page) that are woven into an enormous musical arquitecture. The motivic units undergo thematic transformation throughout the work to suit the musical context of the moment. A theme that, in one context, sounds menacing and even violent, is then transformed into a beautifull melody. In every measure, every particle of these themes is transformed from this sparse material. Looking within the Sonata's mighty inner conflicts, one finds the most daring structural innovation in large-form composition since Beethoven. It is music of drastic intellectuality, clothed in a Dantesque drama. 

"Dearest Franz, You were with me, the sonata is beautifull beyond compare; great, sweet deep and noble, sublime as You are Yourself" - wrote Richard Wagner after a private recital in London. 

The world primiere (after two years of deep preparation of the technical arduous composition under Liszt's close guidance) took place in 1857 by the hands of Hans Von Bülow (Liszt's brilliant pupil and son-in-law) in Berlin. The work was crushed by the critics. The following years were devoid of performances, and the composer himself discouraged his students from programming it. By the 1880's she reappeared in London Paris, Vienna (where it was still highly controversial), and in the end of the decade it reached the New York. Yet by the turn of the century it was receiving frequent performances in Europe, and shortly following she achieved the status of masterpiece, nearly fifty years after from being composed.         

playlist :

9th Symphony, in d minor, op. 125 2nd movement Scherzo: Molto vivace – Presto 
Ludwig Van Beethoven (Bonn 1770 - Wien 1827)

Cello Sonata no.2, op.99 2nd movement Adagio affettuoso 
Johannes Brahms (Hamburg 1833 – Wien 1897)  

Stabat Mater 1. Stabat Mater - Duetto 
Giovanni Battista Pergolesi (Jesi 1710 - Pozzuoli 1736)  

Piano Sonata em b minor 
Franz Liszt (Raiding 1811 - Bayreuth 1886)