Santa Filomena #blues



É muito estreita, a linha entre o escândalo e o silêncio, é fino o véu que protege a acção dos fortes contra os fracos. Era uma vez um bairro chamado Santa Filomena.

Há umas casas num morro, e visto de fora qualquer um destes lugares parece uma favela. Vista de fora, a vida de todos os dias e de todos os últimos anos de existência desta comunidade parece agora reduzida à espera entre duas fases de demolições ordenadas pela Câmara Municipal da Amadora. A história parece contar-se em poucas palavras: o bairro de Santa Filomena, habitado por muitas pessoas que ao olhos da lei não podem beneficiar de um realojamento previsto no último recenseamento de 1993, começou a ser demolido no Verão de 2012 e aguarda agora a conclusão das expulsões. 

Às famílias sobre a qual pesa a ameaça de demolição das suas casas têm sido propostas duas opções, em linguagem oficial: 0 alúguer de uma nova casa no mercado aberto, com uma renda comparticipada nos dois primeiros meses pelas autoridades, ou o regresso ao país de origem. A ironia é digna de nota, primeiro porque a maioria das pessoas em causa está desempregada - logo incapacitada de conseguir ou garantir um alúguer - e segundo porque se fala de gente que habita neste país, nesta cidade, há tempo suficiente para que a sua identidade e origem sejam um pouco mais complexas do que algumas palavras no passaporte.



Face ao incómodo silêncio institucional das entidades competentes, ao grave desrespeito da parte dos agentes da autoridade por vários direitos humanos da população de Santa Filomena, e à iminência de mais uma vaga de demolições-surpresa, a moral da história abrange não só quem está em risco de perder a casa e quem é responsável político pela situação, mas também quem escreve estas linhas e quem as lê.  

O drama de Santa Filomena é a sua banalidade.


Na verdade, os problemas urbanos contemporâneos são sem fim, a situação até nem envolve assim tanta gente - o que são 100, 150 famílias? - e as pessoas envolvidas não contam para nenhuma estatística, nem sequer dispõem de um movimento. O que fazer?

O Colectivo HABITA tem providenciado ajuda logística, legal e social à situação de Santa Filomena. Existe no bairro um esboço de organização dos moradores, levado a cabo por pessoas responsáveis e corajosas. Os media têm aparecido quando se anuncia mais confusão.

É bem possível que a vida continue impassível na cidade da Amadora, sem que as histórias desta comunidade sejam rodeadas de solidariedade ou mesmo da mais frágil atenção. 
Mas na sequência dos dias e dos ciclos noticiosos, e dos clicks na rede, é importante saber que ainda há algumas vozes por entre as ruínas. Há o pó, a fúria. 
E o som, mecânico, de uma política urbana que também nos pertence.