A Guerra da Atenção


A abundância de informação e comunicação digital deste século assenta na escassez de um outro recurso, ou propriedade: a atenção humana. O sistema mediático global é omnipresente, quase omnisciente, e extremamente persistente, incorporado e personificado em todos os computadores e écrans urbanos e quotidianos.  As comunicações interpessoais intertrocam-se com os fluxos de notícias, as pequenas surpresas da rede e a extensão inequívoca da actividade laboral. Os dias continuam a ter apenas vinte e quatro horas.

A guerra da atenção é travada entre amigos, estranhos, empresas. Máquinas.

O desmantelamento da passividade instituída pelos media do século vinte inaugurou o que Manuel Castells chama a era da mass self-communication, o paradigma da comunicação horizontal que acontece na rede, através das muitas redes. Armados com todo o software necessário à publicação e distribuição de conteúdos, todos os habitantes da matriz vivem agora num sistema de feroz competição pela atenção dos outros. As ideias e as novidades fluem à velocidade da luz e ninguém tem tempo para tudo.

Mas o que é a atenção? Como medir essa fugaz chama de interesse? Qual é o equilíbrio entre a visibilidade, a partilha, o tédio ou o consumo, na troca global de ideias?
Enter Hollywood e o Silicon Valley.

O barulho cor de rosa

No seu excelente artigo de 2010 Attention and the evolution of Hollywood film”, James Cutting et al analisaram a estrutura de planos numa amostra de filmes de Hollywood dos últimos 70 anos e concluíram que o padrão das sequências dos filmes mais contemporâneos aproxima-se matematicamente do fluxo inconstante da atenção humana: um padrão natural de ondas e amplitudes conhecido como o 1/f pattern, ou pink noise. 

O que o artigo revela é que a duração dos planos nos filmes analisados tem vindo a diminuir radicalmente, forçando através de cortes sucessivos a concentração do espectador na cena seguinte. Uma possível conclusão precipitada diria que a capacidade de assistir, ou realizar, planos muito longos tem vindo a ser reduzida no cinema mainstream, e que tal pode reflectir a actual impermanência, o desassossego, dos olhos e dos cérebros digitais. Mas uma análise cuidada não pode ir tão longe: o que Cutting et al demonstraram é que há uma tendência para aglutinar planos semelhantes, por vezes longos e muitas vezes curtos, e que essa aglutinação é semelhante à forma como os seres humanos prestam atenção ao mundo.

Films from 1960 onward follow a significantly increasing 1/f pattern, suggesting greater selfsimilarity in the pattern of cuts

O oráculo e o seu espelho

A organização da informação feita luz na rede cabe maioritariamente, até hoje, ao Google. 
É difícil pensar num dia na internet sem que se toque pelo menos numa parte do software made in Mountain View, e o futuro próximo da relação entre o quotidiano e a matriz passa pela actual transformação que Larry Page está a operar nos serviços e produtos da empresa. As listas de links azuis estão rapidamente a dar lugar a respostas pertinentes sobre o mundo, a uma interpenetração móvel e constante entre a confusão e variação analógica da vida e a certeza conveniente do motor de busca e de conhecimento. 

A fragmentação do ecosistema Android já foi apontada como uma das fraquezas do novo Google, mas é exactamente o contrário: ao distribuir o seu sistema operativo móvel por múltiplos aparelhos e operadores, Page está a transformar o Google numa inteligência planetária, emergente e distribuída, dotada de milhões de sensores móveis e que a um nível celular, literalmente, ausculta e responde atentamente às questões humanas.  

Na guerra da atenção, Google é o centro oracular do conflito, o mundo-espelho que simula o espaço e o tempo do planeta.




O sistema nervoso

A invenção da velocidade acontece periodicamente, e cada nascimento parece único para quem lhe é contemporâneo. O Twitter não será decerto a última das redes de comunicação instantânea, mas é até ao início da segunda década do século aquela que mais sincroniza as palavras, sons, e imagens na internet. De curiosidade banal, de palco individual de celebridades a parte inevitável de qualquer acontecimento, perfil ou artigo, o fluxo de mensagens de 140 caractéres permite o tipo de interacção com que a blogosfera ousou um dia sonhar: a conversa transversal entre estranhos, conhecidos, e todos, em tempo real.

A opinião pública, afirma Habermas, foi em tempos uma peça fundamental no fortalecimento da vida política das sociedades ocidentais. Com o declínio acelerado da imprensa de papel, e o mito do cariz revolucionário de redes de informação como o Twitter nas mais recentes turbulências mundiais, a guerra da atenção trava-se e gasta-se muito na sequência interminável de tweets. Na escolha incessante e enervante entre o trivial e o fundamental.




O fim da solidão

Quando um bilião de pessoas partilham algo, deixamos de falar de objectos ou sistemas e entramos no campo das ideologias. A amizade é uma ideologia em tons de azul.
O Facebook é uma empresa cotada no mercado financeiro, o seu software analisa e classifica emoções, e Mark Zuckerberg é o (segundo) político mais importante do mundo ocidental.
Na guerra, diz quem a viveu, os amigos são para sempre.

Edgerank é um algoritmo desenvolvido pelo Facebook para determinar o que cada utilizador vê no seu stream. Medidas como afinidade, peso, e tempo contribuem para a equação que determina a visibilidade de uma qualquer foto, confissão, ou promoção no universo codificado de todas as relações mediadas. A necessidade de lucro da empresa tem causado algumas alterações ao algoritmo, inventando a possibilidade de promover posts para que estes sejam visíveis a um maior número de pessoas. A atenção paga-se.
 


O futuro do Facebook, como atestam as compras do Instagram e da Face.com, está necessariamente ligado às fotografias e ao seu significado emocional. Ao definir, modelar e vender o mapa das relações interpessoais dos seus utilizadores, a empresa está a estabelecer o novo paradigma comercial: íntimo e indissociável das relações reais. Quando o Facebook souber ler imagens, e identificar caras, e aprender algoritmicamente a sociologia, a distinção entre a vida e a publicidade será cada vez menor, esbatida na conversa permanente entre o quotidiano, a tecnologia, e a estética.

A guerra da atenção terá entrado numa nova fase: sem tréguas, sem solidão, sem silêncio.