Pele de Galinha #8

sábados & quartas às 11:00 e 19:00
 
"O meu amigo Daniel Baremboim e eu escolhemos a via das razões humanistas e não políticas, no pressuposto de que a ignorância não é uma estratégia de sobrevivência sustentável."
Edward Said (1935 – 2003)


Daniel Barenboim, pianista e maestro
"Qualquer conflito contém em si o potencial de produzir alterações positivas se os individuos nele envolvidos forem capazes de compreender a legitimidade dos argumentos da parte contrária, por vezes permitindo mesmo que esses argumentos enriqueçam a sua própria maneira de pensar. A orquestra foi sujeita a uma grande prova quando, em 2004, surgiu a oportunidade de dar um concerto em Ramallah. Eu dava recitais em Ramallah e na Universidade de birzeit desde 1999, e a apreensão que eu próprio senti perante a ideia de levar a Orquestra do Divã a Ramallah permitia-me compreender bem os receios e preocupações dos jovens que admitiam dar um passo tão corajoso, atendendo nomeadamente a que muitos deles nunca tinham ido à Palestina. Discutiu-se muito sobre a decisão de ir mas, finalmente, a tensão que se tinha acumulado durante o debate dissipou-se quando se concluiu que viajar para Ramallah naquele ano era um risco demasiado grande para a orquestra em termos de segurança. Mas no ano seguinte eu estava firmemente decidido a concretizar aquele que poderia ser para todos nós um acontecimento de proporções históricas: um concerto de uma orquestra formada por palestinianos, israelitas, sírios, libaneses, egípcios e jordanos no coração da Palestina. Era de facto uma missão impossível e até ao último momento esteve em dúvida a realização do concerto. 

A minha principal preocupação era, evidentemente, a segurança dos músicos. Era proibida pela lei israelita a entrada de israelitas em território palestiniano, e os cidadãos sírios e libaneses estavam proibidos pela lei dos seus países de atravessar território israelita, o que era essencial para chegar a Ramallah. Os únicos dois países cujos cidadãos podiam ir legalmente eram o Egipto e a Jordânia, cujos tratados de paz formais com Israel eram glaciais, à falta de expressão melhor. Eu estava decidido a não levar por diante o concerto se houvesse qualquer dúvida, por pequena que fosse, sobre a segurança da viagem ou do concerto propriamente dito. Alguns músicos israelitas tinham cumprido serviço militar ou estavam mesmo a cumpri-lo na altura, e por isso sentiam-se constrangidos; outros estavam hesitantes. Muitos músicos dos outros países árabes não queriam ir à Palestina se para isso tivessem de atravessar Israel e postos de contolo israelitas para lá chegar. Alguns músicos espanhóis tinham simplesmente medo. A decisão de ir, que acabámos por tomar, tocava num nervo central de todo o conflito israelo-árabe, levantando todas as questões de segurança, identidade nacional, medo e preconceitos em relação à outra parte, que tanto dificultam os progressos políticos. 

O governo espanhol, numa iniciativa simultaneamente visionária e pragmática, propôs-se fornecer a todos os músicos da orquestra passaportes diplomáticos espanhóis válidos pelo período de duração da viagem. Isto só em parte resolvia os problemas formais, porque todos os governos envolvidos sabiam perfeitamente qual era a nacionalidade legítima de cada músico. Esta solução, muito diplomática só contribuiu para reduzir a angústia individual dos músicos ou o medo da viagem propriamente dita, e das consequências posteriores nos seus países de origem. O governo espanhol deixou claro que assumia as responsabilidades por quaisquer dificuldades com que os músicos se pudessem deparar no regresso aos respectivos países, mas isso não produziu mais do que um limitado alívio das tensões individuais. [...] 

Medo, curiosidade, coragem, desconfiança e um incontestável espírito de aventura misturavam-se no coração dos músicos; estas emoções fortes enchiam cada dia de excitação e desespero. Todavia, apesar da riqueza das emoções e da exuberância da excitação, houve sempre um grande respeito mútuo entre os músicos. Fez-se uma votação, que decidiu por amplíssima maioria a favor da ida a Ramallah, mas ficou bem claro que ninguém seria obrigado a ir, independentemente do sentido do seu voto. Apenas um pequeno número de músicos decidiu não participar na aventura, e aqueles que participaram fizeram-no de livre vontade e com pleno conhecimento dos riscos envolvidos. Mantinha-se, no entanto, a questão de saber se alguns dos membros da orquestra seriam autorizados pelos seus governos a ir. No dia 18 de agosto de 2005 tocávamos em Wiesbaden, no Festival de Rheingau, e já a madrugada ia alta quando conseguimos confirmar que tinhamos orquestra para ir a Ramallah. [...] 

Alguns músicos ainda estavam indecisos no final do concerto. Ao longo do dia tinha havido uma pressão indicutível sobre muitos dos israelitas e suas famílias, enquanto a alguns músicos espanhóis era lembrado que se tratava essencialmente de um projecto israelo-árabe e que, para eles era imperativo participar. [...] 

No dia seguinte, a orquestra dividiu-se em vários grupos por razões de segurança. Estes jovens tinham passado o verão juntos, partilhando alojamentos, refeições, estantes de música e tocando juntos concertos inesquecíveis. Daí que dividir a orquestra em grupos nacionais fosse para eles um momento de reflexão, que os fez coompreender melhor do que nunca a importância e gravidade da situação. No dia 19 de Agosto, os músicos israelitas e espanhóis apanharam um avião para Telavive. Os cidadãos espanhóis seguiram imediatamente para Ramallah e os israelitas ficaram em Israel até ser absolutamente necessário atravessar a fronteira para a Cisjordânia, para participarem no ensaio e no concerto. À nossa chegada ao aeroporto de Telavive, esperava-me um grupo de pais dos músicos israelitas; alguns vinham para me dizer que tinham muito orgulho que os seus filhos estivessem a participar num acontecimento único como aquele, mas outros para contestar que eu tivesse o direito de dar um passo que, no seu entender, era irresponsável e perigoso, apesar de os seus filhos serem maiores de idade. Eu tentei dialogar com todos, mas o que os convenceu foi o facto de o meu filho ser o primeiro violino da orquestra. Este foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da minha vida; só o acontecimento histórico que ali criámos o tornou, a posteriori, suportável. Os músicos árabes viajaram de avião para Amã, entrando na Cisjordânia pelo lado jordano. Chegaram a Ramallah com Miriam Said, viúva de Edward, no dia 20 de Agosto, maravilhados pelo facto de terem a possibilidade de entrar na Palestina pela primeira vez. Mas o seu entusiasmo foi ensombrado pela possibilidade de obstáculos de última hora impedirem a passagem da outra metade da orquestra, de Israel para a faixa ocidental, que era ilegal. Por razões de segurança, nem aos membros da , orquestra foi dita a hora exacta da chegada dos israelitas, o que acentuou a já considerável impaciência da espera. Finalmente, no dia 21 de Agosto, de manhã cedo, os músicos israelitas foram metidos em Jerusalem em carros diplomáticos alemães, à prova de bala, e, depois de passarem os postos de controlo, foram escoltados pela polícia palestiniana até ao palácio da cultura de Ramallah, onde se reencontraram com os seus colegas num ambiente de euforia generalizada. Nesse momento tive mais uma confirmação de que às vezes o impossível é mais fácil de concretizar do que o difícil. Custava a acreditar que toda agente estivesse de facto ali, em Ramallah, vestida a rigor para o concerto, pronta para ensaiar e dar um concerto como se este tivesse lugar em qualquer ponto do mundo. [...] 

As reacções do público palestiniano ao concerto dividiram-se entre aqueles que compreendiam a profundidade da mensagem que a actuação da orquestra ali lhes transmitia - e esses foram a grande maioria - e aqueles a quem cegava a ideia de que aquilo podia representar uma normalização da situação; por outras palavras, uma aceitação da ocupação. os primeiros viam na nossa presença um modelo da igualdade que era possível alcançar entre Israel e a Palestina, tal como ela se exprimia nos termos em que aqueles jovens faziam música; os segundos, infelizmente, não concebiam ouvir e ver israelitas e palestinianos tocar juntos enquanto continuava a haver tanques e soldados israelitas estacionados nos arredores de Ramallah.
Para eles, o progresso é impossível ou pelo menos extremamente dificultado pela expectativa de verem satisfeitas certas condições prévias para que seja possível encetar um diálogo, mesmo que entre civis. Neste caso, perde-se o simbolismo da orquestra e o seu potencial de transcender as ideias feitas de um grupo em relação ao outro. É de facto uma grande pena, porque a música não faz distinções de raça, sexo, religião ou local de origem. Diante de uma sinfonia de Beethoven todas as pessoas são iguais e podem aprender com ela ou ser inspiradas por ela de acordo com a capacidade e vontade de cada uma. [...] Em todo o caso, o concerto foi um sucesso e para muita gente, uma ocasião histórica. Os israelitas, que não tiveram autorização para sair do Palácio da Cultura durante todo o dia - assim tinha sido estipulado pelas autoridades israelitas e palestinianas - tiveram de regressar a Israel logo que acabou o concerto, antes mesmo de o público abandonar a sala do concerto. A ironia de tudo isto reside na impossibilidade da ideia, por um lado, e na facilidade da sua concretização física, por outro. Os árabes e os espanhóis comemoraram alegremente pela noite fora e na manha seguinte regressaram aos seus países. Todos os participantes desejavam ansiosamente voltar a encontrar-se no ano seguinte, sem fazerem ideia de que uma nuvem terrível iria descer sobre todos nós no verão de 2006, sob a forma de uma guerra absurda e cruel entre o Hezbollah e Israel. [...]"

Excerto do livro "Está tudo ligado - O poder da música", de Daniel Barenboim*

*Daniel Barenboim nasceu em Buenos Aires em 1942; iniciou a sua carreira como pianista aos sete anos de idade; em 1952 mudou-se com a família para Israel. Tem, desde então, dirigido e tocado com as principais orquestras do mundo. Várias vezes foi distinguido pelo seu trabalho em prol da paz no Médio Oriente. Em 1999, com o intelectual e académico palestiniano Edward Said, fundou a Orquestra do Divã Ocidental-Oriental, que reúne jovens músicos de Israel e de países árabes, com o objectivo de fomentar o diálogo entre as várias culturas da região. 

"Tenho sido frequentemente admirado por certas iniciativas, admiração a que é muitas vezes acrescentada uma alusão à minha ingenuidade. Não será ainda mais ingénua a fé numa solução militar que há sessenta anos nada resolve?"
Daniel Barenboim


 
playlist:

Os planetas Venus (The bringer of peace), de Gustav Holst (Cheltenham 1874 - London 1934) 

Vathek (Poema sinfónico) 1. Tema e prólogo 3. Variação II 5. Variação IV, de Luís de Freitas Branco (Lisboa 1890 - Lisboa 1955)

Concerto para piano e orquestra nº2, op.18 I andamento - Moderato II andamento - Adagio sostenuto III andamento - Allegro scherzando, de Sergey Vasil'yevich Rakhmaninov (Onega 1873 - Beverly Hills 1943)

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"My friend Daniel Barenboim and me, we chose the way of humanitary instead of politic reasons, considering that ignorance is not a sustainable survival strategy."
Edward Said

"Every conflict holds in itself the potencial to induce positive changes if the entangled indiduals are able to understand the arguments of the other side, sometimes allowing those arguments to enrich their own way of thinking. The orchestra faced a big challenge when, in 2004, the opportunity of playing in Ramallah arose. I myself had been performing there and in the Birzeit University since 1999, and the troubles I faced before the idea of travelling there with the Divan Orchestra allowed me to perfectly understand the fears and worries of those young men and women that were willing to take such a courageous step, since many of them had never even visited Palestine. We debated the decision profusely, but finally, the tension this debate generated vanished when we concluded that travelling to Ramallah that year would be too risky for the orchestra in terms of safety. But the next year I was firmely decided to make, what could be for us, an historical event happen: to perform in the heart of Palestine with an orchestra that joined palestinian, israeli, syrian, lebanese, egiptian and jordan musicians. It was mission impossible and until the last moment the concert was a doubtfull event. 

My main concern was, obviously, the security of the musicians. Israeli law forbids its citizens to enter Palestine territory, and syrian and lebanese musicians were not allowed to cross israeli territory, wich was essential to reach Ramallah, by the laws of their own contries. The only contries that legally allowed their citizens to go were Egipt and Jordan, with whom Israel had glacial (for lack of a better word) peace treaties. I was determined to give the concert up, if any doubt about the safety of the journey or of the concert itself. Some israeli musicians had complied with military duty and some were still envolved with it, at the time, and they felt constraint; others were just unsure. Many arab world musicians didn't want to go if that meant crossing israeli soil or israeli check points to get there; some spanish musicians were just affraid. The decision to go, that we ended up taking, touched a central point to the whole israelo-arab conflict, it raised every question of security, national identity, fear and prejudice towards the other side that made political progress so dificult. 

The spanish government, in a visionary and pragmatical iniciative, offered to issue spanish diplomatic passports valid for the whole voyage. This solved only in part the formal issues, since every politic liedership knew exactly the true nacionality of every musitian. This very diplomatic solution only contributed to reduce the individual angst and the fear of the journey, and the aftermath consequences in their native countries. The spanish government stated clearly that it would take all responsability for any hardship the musicians could encounter when returning to their homeland, but that only achieved a slight relief of the indidual burden. [...] 

Fear, curiosity, courage, distrust and an overwhelming spirit of adventure were mixed feelings in the hearts of the musicians; these strong emotions filled every day with excitement and despair. However, despite the richness of emotions and the intensity of excitement, there was always great mutual respect between musicians. We had a vote, wich was, by a large majority, in favor of going to Ramallah, but it remained clear that no one would be forced to go, regardless of the way they voted. Only a small number of musicians decided not to participate in the adventure, and those who did, went freely and with full knowledge of the risks envolved. Wheather all musicians would be allowed by their governments to go remained to be seen. 

On the 18th of August we were playing in Wiesbaden, in the Rheingau Festival, and it was late night when we were informed that we had an orchestra to go to Ramallah.[...] 

Some musicians were still unshure by the end of the concert. All through the day there had been a lot of pressure on israeli musicians and their families, while the spanish were reminded that this was essencially an israelo-arab project and asked if it was imperative for them to participate. 

The next day the orchestra was divided into several groups for security reasons. These young people had spent the summer toguether, sharing quarters, meals, music stands and playing toguether in unforgetable concerts. Hence dividing the orchestra in national groups provided a moment of reflection, that drove them to understand, better than ever before, the importance and seriousness of the situation. On the 19th of August, israeli and spanish musicians flew to Telavive. The spanish citizens followed imediately to Ramallah while the israeli group stayed in Israel untill it became absolutely crutial to cross the border to Cisjordan, to be able to participate in the rehearsal and concert. Upon our arrival at the Telavive airport I was met by a group of israeli parents; some came to tell me how proud in their children, for participating in a unique event as this was, they were, but others were there to contest my right to take such a step, in their view irresponsable and dangerous, even though their children were legally adults. I tried to argue with all, but what really convinced them was the fact that my son was the orchestra's "concertino". This was, undoubtfully, one of the hardest moments of my life; the only thing that made it bareble was the historic event that we created. 

The arab musicians flew to Amman, entering Cisjordan by the jordan side. They reached Ramallah with Miriam said, Edward's widow, on the 20th of August, marvelled by the the possibility of entering Palestine for the first time. But their chearfullness was shadowed by the possibility of last minute obstacles that could prevent the other half of the orchestra from crossing to the West-bank, since this was illegal. For safety reasons, the exact time of arrival, was not known, not even by the musicians, wich sharpened the considerable impatience of the waiting. Finally, early morning, on the 21st of August, the israeli musicians embarqued, from Jerusalem, on german diplomatic, bullet proof cars, and after traversing the control posts, were escorted by palestinian police to Ramallah's Palace of Culture, where they reencountered their collegues in a mood of generalized euforia. That moment I had another proof that sometimes the impossible is easier to achieve than the dificult. It was hard to believe that everybody was really there, in Ramallah, dressed accordingly for the performance, prepared to rehearse and give a concert as if it was hapenning in any other place in the world. 

The reaction of the palestinian public to the concert split between those who understood the depth of the message that the orchestra had transmited - and they were the majority - and those blinded by the idea that this event could represent a normalization of the situation; by others means an acceptance of the occupation. The first saw, in our presence there, a model of the equality between Israel and Palestine that was possible to achieve, just as it was expressed by those musicians when they played music; the others, unfortunately, could not concieve hearing and seeing israeli and palestinian playing toguether while there were tanks and soldiers in the surrondings of Ramallah. For them, progress is impossible, or at least severely geopardized by the expectation of seeing certain previous conditions satisfied in order to initiate the dialogue, even among civilians. In this case the simbology of the orchestra is lost and it's potential to transcend the preconceaved ideas of one group towards the other. It's in fact a great loss, since music makes no distinction of race, gender, religion or point of origin. While facing a Beethoven's symphony every person is equal and can lern from, or be inspired by her according to his or her capacity and will. [...]

In any case, the concert was a success and, for a lot of people, an historical occasion. The israeli, who weren't allowed out of the Palace all day - as both israeli and palestinian authorities had established - had to return as soon as the concert was over, even before the audience had left the room. The irony behind all this resides in the idea's impossibility, on one side, and in the easeness of its actual realization, on another. The arab and spanish celebrated joyfully through the night and, in the morning of the next day, returned to their own countries. Every participant was eagerly expecting to meet once again in the following year, clueless of the terrible cloud that would rain on all of us, in the summer of 2006, as an absurd and cruel war between Israel and the Hezbollah. [...]"

Excerpt from the book "Everything is connected - The power of music", by Daniel Barenboim *

*Daniel Barenboim was born in Buenos Aires in 1942; his debut as a pianist was in his seventh birthday; in 1952 he moved with his family to Israel. Since then he has been performing with and directed the main orchestras in the whole world. Several times he has been distinguished for his work to achieve peace in the Midle-East. In 1999 he founded, with the intelectual and scholar Edward Said, the West-Eastern Divan Orchestra, composed of young israeli and arab world musicians, with the objective of promoting the dialogue between the numerous cultures of the region.

"I've been frequently admired for certain iniciatives, admiration to wich usually is added an alusion to my naiveness. Is it not more naive the faith in a military solution that in sixty years nothing solved?"
Daniel Barenboim