A possibilidade de uma democracia emergente


Estas palavras são escritas para quem esteve em Lisboa, a 15 de Setembro de 2012, e perguntam o que teria acontecido se a multidão que saíu à rua nesse dia tivesse ficado pela Praça de Espanha, ignorando a Assembleia da República? Para quem não presenciou tal bifurcação histórica, esta equação coloca-se de outra forma: qual a diferença entre uma catarse inútil e nacionalista e uma incerteza fértil e contemporânea?

Ou seja, The Crisis of the European Union é um livro escrito por Jürgen Habermas sobre a actual escolha que paira sobre a Europa enquanto projecto político e social. De um lado, a hipótese federalista e autoritária representada pela chamada integração fiscal, a via do controlo orçamental dos Estados-Membros feito pelas instituições de Bruxelas, a escolha de uma União eficaz e ordeira dirigida por corpos não-democráticos. Do outro lado, a hipótese arriscada por Habermas e outros, a de uma Europa emergente, de uma democracia construída numa escala cujas medidas são a rua, a cidade, e a União.

O desafio é significativo para ambas as habituais e aborrecidas partes do presente conflito: para os Estados-Membros, muito simplesmente, uma cidadania assim coloca em risco a sua própria existência. Para a Esquerda europeia - afinal a outra face da conversa - uma constelação de cidades significa também uma reconfiguração de discursos e de sonhos, uma actualização veloz que exigiria o fim da ilusão patriótica.




Steven Johnson escreve teoria actual como Malcom Gladwell conta a sociologia: com uma destreza popular, ou populista, e a capacidade de síntese própria da geração TED.
Future Perfect arrisca, corajosamente, um programa político para o século digital, uma narrativa que começa com quem somos e com o que temos agora, e a possiblidade de um liberalismo humanista e democrático, em rede, feito da transposição da utopia da web para a realidade da rua.

Dos dois lados do Atlântico, a democracia representativa é posta em causa pelo colapso da legitimidade política de governantes e bancos, pela integração da lógica e do potencial das redes nos mais pequenos gestos quotidianos, pela necessidade incontornável de soluções, pela percepção - histórica - de que vivemos momentos decisivos.

A prosperidade da Ásia e da China, e as narrativas que as celebram, são indissociáveis do autoritarismo iluminado dos seus líderes. Face à possível adopção desse modelo por Bruxelas, as perguntas que a Europa está a colocar aos seus cidadãos são muito simples: pode a democracia deste século ser próspera, justa, emergente? Podem as culturas económicas alternativas sustentar uma outra vida? Das respostas a estas questões se fará muito do percurso dos próximos meses e anos na Europa, sendo o possível destino tão banal, e tão vital, como a confusa escolha entre uma praça anónima e um edifício vazio.