O Reino das Sombras Iluminadas


Facebook anunciou o seu motor de busca e a world wide web voltou a fragmentar-se.
Chama-se Graph Search, este terceiro pilar da experiência social azul e branca - os outros dois são o Newsfeed e o Timeline - e transforma o fluxo de mensagens numa base de dados gigante, talvez a maior sem contar com a net chinesa. O universo digital do Facebook passa agora a ter a dimensão temporal que lhe faltava, passa a possuír o antídoto contra o esquecimento diário de todos os comentários e likes que fluem incessantes para o fundo do écran. Com o Graph Search passa a ser possível encontrar, por exemplo, todos os amigos que gostaram dos mesmos filmes, ou todos os potenciais candidatos a um determinado emprego que não gostam de rock, ou todas as fotos de uma certa pessoa antes de 2001.

Os escandalizados defensores da privacidade ganharam mais uma causa. Este motor de busca aplicado ao 1 bilião de utilizadores da rede vai ser uma fonte inesgotável de pesadelos, surpresas, de pequenos e grandes dramas que apenas o cruzamento da informação digital pode criar. A desatenção ou despreocupação dos habitantes do Facebook em gerir as suas definições de privacidade vai agora ditar o volume de informação disponível numa busca. Um encontro furtivo, uma opinião política, o prazer da caça ou o gosto pela prostituição, tornados visíveis, porque a internet é como a máfia: perdoa mas não esquece.

 
Married people who like Prostitutes

O problema, se existir, não é só este. Ao abdicar da amnésia, o Facebook deixou de ser superficial, no sentido geométrico da palavra, e transformou-se num sistema de uma profundidade por agora incalculável, num programa que sabe ler caras, num lugar onde tudo está sob escuta. O Facebook é um reino, da mesma forma que o Myspace é uma favela: a diferença entre Zuckerberg soberano e Timberlake dono do morro é que o primeiro é ímpar e inesquecível na história do feudalismo digital, enquanto o segundo é apenas mais um numa longa sequência passageira de traficantes. Nos dois lugares, a mesma ausência de direitos civis, a mesma exploração económica, a mesma impossibilidade democrática.

O reino das sombras existe por causa da correspondência única entre o mapa e o território, por causa da veracidade voluntária dos nomes e das imagens, das relações e das emoções que constitutem o Facebook. Habitamos um terreno invisível onde caminham sozinhas as projecções do que fazemos e sentimos, os rastos do que gostamos, as palavras ditas aos que mais amamos. Esses momentos e significados todos produzem cópias e estatísticas, este teatro tem o seu duplo e é feito de dados, iluminados agora pela engenharia de software.

A conversa a ter não é sobre a privacidade, é sobre a matriz. As perguntas possíveis não têm a ver com o que se esconde no passado - agora à mercê dos algoritmos - mas com o que se partilha no presente: não com as outras pessoas, as amigas, com as quais vamos continuar a dividir os dias, os gostos, as fotografias.

Devemos perguntar, à luz do Graph Search, o que é que partilhamos com as sombras.