Realismo Digital


"Yes, we may well only love 24 frames per second because we’re so used to it. What we may not have realized, however, is that we’re in some Impressionistic phase of film making."
48fps: how we accidentally invented Impressionist filmmaking | The Verge Forums


Peter Jackson vai ficar para a história: se o realizador já tinha garantido suficiente notoriedade com a sua obra até agora, a recente estreia do filme The Hobbit tratou de causar suficiente polémica para que o futuro se lembre para sempre da audácia, e quiçá do talento, do autor que provocou o actual debate sobre o realismo digital no cinema.

Para além das muitas opiniões sobre a qualidade do filme, a conversa tem girado à volta da impressão causada pelo novo método, pela nova tecnologia - e a consequente quebra do efeito fílmico a que os nossos olhos estão habituados. A justificação técnica parece ter algo a ver com a pouca sensibilidade da película à luz e com a tradição e norma de exagerar a iluminação nas filmagens. A chegada do digital elimina esse problema, e algumas cenas em The Hobbit, sobretudo em interiores, parecem não lidar bem com essa súbita visibilidade causada pelo aumento de frames por segundo. Mas as críticas vão mais além, é de uma certa perda de inocência que se fala, como se Jackson tivesse ousado mostrar muito, transformando o écran de prata em algo demasiado explícito, demasiado real.



Esta discussão só é nova no assunto: cada introdução e adopção técnica nas artes sempre causou a ofensa, o choque, ou o desconforto de quem estava antes habituado à estranha velocidade dos filmes mudos, à paz cega da rádio, ao som quente e suave do vinil.

O som e a perturbação do cinema falado, a televisão, o CD, o DVD, e agora as 48 frames por segundo podem ser pensados como uma já longa - e previsível ? - dinastia de incómodos. Ou um caminho inexorável para o realismo puro, a possibilidade final da matriz espelhar completamente o detalhe da vida em écrans e projecções. É irónico que a inauguração deste novo capítulo da história seja causada por um filme de fantasia, por uma fábula plena de magia e feitiços, quase como se a luz do software estivesse primeiro a tombar sobre os sonhos, a ficção, antes de penetrar, madura, nos futuros e transparentes retratos do século.