XXI Feira Laica: Marcel Ruijters

Inspirado pela vaga de fanzines que eram produzidas no final dos anos 80, Marcel Ruijters começou a fazer bd´s com apenas 7 anos. Durante mais de dez anos lançou um número considerável de publicações auto-editadas, muitas delas impressas em fotocópia: Onbegrijpelijke Verhalen, Mandragoora, Dr. Molotow, Fun&Games, Thank God it’s Ugly. Algumas destas edições foram posteriormente editadas em livros antológicos individuais ou colectivos.

Aos poucos, Marcel passou a lançar os seus livros em edições profissionais (leia-se impressas em gráficas), através de editoras como a De Schaar, Oog & Blik, Le Dernier Cri, Fantagraphics, Top Shelf ou Les Editions de l’An 2. É também editor da revista Zone 5300.

Actualmente, o seu trabalho está publicado em vários idiomas, sendo que a primeira tradução em português foi lançada em dezembro de 2012 pela MMMNNNRRRG. O livro chama-se Inferno e foi o pretexto para Marcel Ruijters estar presente na XXI Feira Laica em Lisboa.

Em conversa com a Stress.fm, Marcel Ruijters falou-nos do seu percurso enquanto criador de comics e das alterações gráficas e narrativas que o seu trabalho foi sofrendo ao longo dos anos.


 

Saindo de um registo de desenho muito próximo do de Charles Burns, Marcel acabou por nos últimos 8 anos encontrar como principal referência e fonte de inspiração a Arte Românica do Século XII.  

As suas bd´s foram adquirindo o aspecto de iluminuras medievais: a narrativa é-nos contada através de uma imagem por página, a técnica por ele usada pode ser confundida pela xilogravura e o desenho é bastante simplificado, sendo as noções canónicas de perspectiva praticamente ignoradas.

Também alguns dos conteúdos narrativos que Marcel Ruijters usa nos transportam para esse imaginário medieval que nos era imposto nas já referidas antigas iluminuras: religião, demónios, violência, punição, etc.

O livro que ele veio apresentar em Lisboa é uma adaptação livre da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265–1321), livro de que "toda a gente já ouviu falar mas [tendo] sido poucos os que realmente o leram". Marcel aproxima esta narrativa aos tempos em que vivemos: o Inferno é como que uma corporação, que trata de punir as pessoas eternamente através da burocracia.

Marcel Ruijters aproveitou a sua estadia em Lisboa para acompanhar a criação de uma edição de 70 serigrafias feitas no a partir de um desenho seu no atelier Mike Goes West.

Quando perguntámos quais os seus planos para o futuro, o Marcel respondeu que tem pronto para ser editado um livro sobre santos medievais e que actualmente está a trabalhar numa biografia ficcionada sobre o trabalho do pintor holandês Hieronymus Bosch.