ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS! (parte 1)

The more virgin our eyes are, the more we have to say. 
 The most detestable habit in all modern cinema is the “hommage”.
 Orson Welles
  
intro 

O rock está morto? Trata-se de uma questão já com barbas e cada vez mais pertinente numa actualidade dominada pelo pós-modernista nas artes em geral. Trata-se de um fenómeno adjacente ao chamado "capitalismo pós industrial", que se caracteriza pela troca de bens imateriais, como a informação e os serviços (nascidos das tecnologias eletrónica e nuclear) e pela imposição obsessiva de uma mentalidade revisionista. Ou seja, o artista criativo foi substituído pelo artista técnico, capaz de manipular manifestações do  passado criando algo de novo sem elementos originais ou inovadores. Por isso, a Pós-Modernidade é traçada como a época da perda de sentido da narrativa humana, onde o hedonismo é quase um valor totalitário, pois no seu epicentro encontra-se o primado da liberdade absoluta e do fim dos grandes conflitos ideológicos do século XX. Os seus sintomas traduzem-se na substituição da ética pela estética, do narcisismo, na apatia, no simulacro, daí que se utilize continuamente a cópia de elementos pré-existentes. Os novos artistas estão mais interessados em olhar para o passado e descobrir tudo aquilo que lhes foi vedado em vez de se concentrarem no futuro. Em suma, o pós-modernismo evidencia a morte das grandes ideias e o fim do mistério da criação artística.

James Murphy, "Shut Up & Play The Hits"
O recente documentário “Shut up & play the hits”, de Will Lovelace e Dylan Southern, sobre o fim dos LCD Soundsystem é bastante ilustrativo do estado das coisas. Projecto que gira em torno de um DJ chamado James Murphy, o filme dá-nos o exemplo cabal de uma classe de artistas em busca  da auto-consciencialização suprema, uma competição onde todos tentam fazer “história” o mais rapidamente possível sem terem de esperar por um público que finalmente os entenda. Nem Hendrix ou Morrison olharam para a sua carreira a longo prazo, estando completamente a leste da revolução tecnológica que se avizinhava, vivendo obsessivamente no momento, no presente. Murphy parece ter planeado a sua carreira antecipadamente com uma precisão clínica. Antecipou-se à concorrência transformando um gesto corajoso - o término de uma carreira no seu auge -   num espectáculo penosamente narcisista e auto-indulgente. As próprias canções dos LCD Soundsystem são como que uma síntese da história do rock, nelas está patente um conhecimento enciclopédico de todas as suas fórmulas e variantes, um pouco como aqueles livrinhos amarelos que ajudam a resumir grandes clássicos da literatura. Os LCD Soundsystem não obedecem a nenhuma necessidade vital artística, antes possuem uma função perfeitamente definida: pôr o público a dançar ininterruptamente à semelhança de uma discoteca (perdão, clube nocturno) ambulante ou, pior ainda, de um ginásio de fitness – verdadeiros santuários da “sociedade do espectáculo”, segundo Guy Debord

A natureza litúrgica do rock adivinhava esta inevitável tele-evangelização. Trata-se de um género com muitos messias, apóstolos, acólitos mas poucos doutores. Gostava então de convidar o leitor a uma incursão pelos teóricos do rock.

Decerto que, por mais leigo que seja nestas melomanias, já ouviu os termos álbum conceptual ou Ópera rock. Tratam-se de discos inteiros subordinados a uma ideia que organiza as canções em torno de uma narrativa que se forma na cabeça do ouvinte. Os seus maiores praticantes provieram daquilo a que se chamou rock progressivo, apesar das suas origens estarem unanimemente em “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Inevitavelmente tornar-se-ia num lugar comum, todas as bandas que se levassem a sério, em determinada altura das suas carreiras, tinham de produzir o seu álbum conceptual. Mas quantas bandas ou artistas ousaram subordinar as suas carreiras musicais a um conceito? Muito poucas, mas aquelas que o fizeram deixaram uma marca profunda na cultura popular, arrisco mesmo afirmar que foram elas que fizeram o género evoluir através de uma constante reinvenção operada no campo puramente ideológico e racional. Gente que contestou a natureza puramente instintiva e libidinal do rock, e que de certa forma alertou para os perigos dessa mesma natureza quando caída nas mãos erradas - não as dos artistas mas da crescente exigência de novidades da sociedade de consumo que domina todos os sectores das sociedades industrializadas. 

Urge então elaborar uma lista dos mais importantes doutores do rock, nem que seja para animar (e iluminar) os espíritos em tempos de pessimismo generalizado. São histórias que se cruzam no tempo e no espaço subentendendo uma linhagem, que se contaminam e que prenunciam a chegada do pós-modernismo devido ao seu carácter militante, progressista e radical. Bem-vindo ao maravilhoso mundo das bandas conceptuais. 

Parte 1: O regresso ao futuro

Ponte entre Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental, 1960
A Alemanha, no dealbar da década de 60, era um país sem uma identidade cultural nacional que não trouxesse à memória o seu terrível passado recente. O ocidente aproveitara as consequências da rendição e invadira a nação europeia, que por sua vez a acolhera desesperadamente, sedenta de entretenimento. Para além de possuir uma forte tradição boémia e artística, tinha também um circuito de bares onde se podia tocar para um público entusiasta de novidades, principalmente nas grandes cidades como Frankfurt, Hamburgo ou Colónia. Este circuito foi a escola que os Beatles frequentaram e de onde se lançaram para o estrelato mundial. O seu impacto foi tal que dois designers de publicidade, após os terem visto, decidiram que este fenómeno popular era merecedor de uma resposta “artística”. Karl-H.-Remy e Walter Niemann, seguidores da corrente vanguardista provinda da escola Bauhaus, concentravam o seu trabalho sobre a ideia de identidade corporativa, ou seja, a forma como todos os objectos e instalações de uma única empresa se identificam de modo singular e consistente. 

The Torquays
A vontade de consolidar esta premissa através de uma banda pop começou a desenvolver-se após terem registado o impacto da cultura beat e em particular dos Beatles. Para formar aquilo a que designavam de “anti-Beatles”, escolheram uma de entre as centenas de bandas que tentavam a sua sorte na Alemanha: os The Torquays, formados por cinco ex-soldados estacionados em território germânico. Remy e Niemann convenceram os jovens a deixarem a seu cargo toda as decisões artísticas e financeiras em troca de um contrato discográfico. Para a dupla de empresários criativos era urgente mudar-se o nome do grupo para The Monks e trabalhar a sua imagem e som como se de uma ordem eclesiástica se tratasse. Para eles, The Monks não era o nome de um grupo pop mas um conceito de cariz monástico que deveria alicerçar-se na estrutura militar que os jovens já possuíam intrinsecamente. 

The Monks
Para realçarem a importância destas mudanças, elaboraram um conjunto de regras que cimentassem a identidade corporativa do grupo: vestir sempre de preto; usar o cabelo curto tonsurado como um monge medieval; ser um monk não apenas em cima do palco mas também nas ruas; e principalmente nunca mais voltar a ser um torquay. Após anos de condicionamento militar na sua aparência, não foi sem relutância que os ex-torquays obedeceram a estas directivas. E em Março de 1965, os rebaptizados Monks entram em estúdio para em conjunto com Remy e Niemann descobrirem o seu novo som, que se iria basear numa rejeição total de todas as características do beat britânico. O seu pendor melódico era totalmente inexistente e a estrutura do ritmo profundamente alterada. O baixo era tocado muito alto sob ritmos minimalistas marcados por uma bateria que raramente utilizava címbalos. Esta secção rítmica criaria uma tensão hipnótica à qual se acrescentaria um órgão de igreja tocado com agressão, um som de guitarra assente no uso descontrolado de feedback e um banjo electrificado que apenas servia a secção rítmica, criando um som metálico que se sobrepunha ao conjunto final. Os versos das canções seriam breves e nunca cantados, antes falados ou gritados, apoiados por um coro uníssono de matriz gregoriana.

Destas experiências nasce “Black Monk Time”, o único registo sonoro deixado pela banda. Assim que a agulha baixa sobre o vinyl, o vocalista Gary Burger dá as coordenadas destes novos territórios: 
Alright, my name's Gary. / Let's go, it's beat time, it's hop time, it's monk time now! / You know we don't like the army./What army? / Who cares what army? / Why do you kill all those kids over there in Vietnam? / Mad Viet Cong. / My brother died in Vietnam! / James Bond, who was he? / Stop it, stop it, I don't like it! / It's too loud for my ears. / Pussy galore's comin' down and we like it. / We dont like the atomic bomb.” 

Apesar do discurso algo desconexo e meio surreal, há um arremedo daquilo que ainda hoje se chama de “canção de protesto”, algo que na altura não pertencia de todo ao universo da pop eléctrica. Mais: enquanto os Beatles cantavam “I Wanna Hold you Hand”, os Monks gritavam “I hate you with a passion, baby!”. E com este cocktail explosivo na bagagem, os Monks atacam Hamburgo, cidade onde os Beatles tinham começado. 

Escusado será dizer que mesmo um público aberto a novidades como o alemão não conseguiu entender, quanto muito aceitar um som que continha em si sementes de Heavy Metal, de Techno, de Punk e da música industrial; um som de instrumentos que se fundiam numa entidade colectiva sonora; um som total de um grupo de músicos. Quando tento imaginar o que seria assistir a um concerto dos Monks em 1966, vem-me à cabeça uma cena do filme de Robert Zemeckis “Back to the Future”, aquela em que Michael J. Fox resolve tocar “Johnny B. Good” terminando em apoteose com um solo de guitarra à Eddie Van Halen perante um público atónito (“I guess you guys aren't ready for that yet. But your kids are gonna love it.“). Mas é possível ter uma ideia porque Remy e Niemann conseguiram colocar a banda em programas de música na televisão germânica. 

 

 As sucessivas tournées por solo germânico não atraíam nem aceitação nem sucesso comercial e os Monks começaram a pagar a factura de estarem demasiados adiantados no relógio da música pop. Ou eram recebidos com estupefação ou com agressividade, principalmente quando tocavam em bares frequentados exclusivamente por soldados norte-americanos, que pouca piada achavam às letras de canções anti-bélicas como “Monk Time” ou “Complication”. O ponto mais alto deste período foi quando partilharam cartaz com Jimi Hendrix - e até este não soube o que pensar dos Monks.

Remy e Niemann foram-se afastando do grupo e quando chegou a última oportunidade na forma de uma tourné asiática, um dos elementos regressa à América e a banda dissolve-se. Cada um dos seus ex-membros constrói uma nova vida e apenas o baixista Eddie Shaw lutou para que a incrível história dos Monks não fosse apagada dos anais da pop, através de uma auto-biografia semi-ficcionada, intitulada Black Monk Time.

Nas últimas quatro décadas, o legado dos Monks foi apenas celebrado por músicos mais marginais como Mark E.Smith dos The Fall (que chegaram a gravar versões de canções dos Monks), Genesis P. Orridge dos Throbbing Gristle ou pelas Raincoats. Mas com o advento da Internet, principalmente de sites como o youtube, onde se podem encontrar as performances televisivas dos Monks, fez disparar a sua popularidade e não tem faltado gente a louvar as suas qualidades visionárias, de Jon Spencer a Jack White. Um documentário de 2006 promove uma reunião da banda para um concerto. Os Monks, 40 anos depois, eram finalmente reconhecidos mas os seus empresários/gurus Remy e Niemann permanecem no obscurantismo voluntário. A aparição dos Monks no programa Beat Beat Beat foi o seu maior feito na qualidade empresários/criativos – este momento teria o efeito anti-matéria que tanto desejaram. 

Se o momento fulcral da ascensão dos Beatles foi a sua aparição no Ed Sullivan Show, transformando toda a música popular do séc. XX, então o mesmo se aplica aos Monks, porque a vê-los pela televisão estavam pessoas como Hans Joachim Irmler, que viu nesta actuação um chamamento revolucionário. Anos mais tarde formaria os Faust, um dos expoentes máximos do Krautrock, a linguagem vanguardista (e anti-comercial) do rock dos anos 70.


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