ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS! (parte 2)

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Parte 2: Os elevadores da percepção 

O termo “rock psicadélico” é hoje um lugar comum do género, nasce da fusão entre a música popular e drogas alucinogénias que desde então caminham de mãos dadas, por isso, a cada nova cultura psicotrópica emergente, lá se volta a ouvir o adjectivo “psicadélico”. As origens deste termo situam-se na Universidade do Texas em Austin, por volta da mesma altura em que os Monks arrancavam na Alemanha – 1965. 

Tommy Hall, um estudante que havia trocado a engenharia química pela filosofia e a literatura, começa a destacar-se na vida boémia do campus através da produção de fanzines, festas literárias e experiências comunais com alucinogénicos. Hall estava fascinado com o efeito que estas drogas tinham nas pessoas e estava convencido de que tinham o poder de alterar o mundo e não apenas as pessoas que as tomavam. Com a música rock a crescer de importância enquanto banda sonora da contra-cultura estudantil, Hall começou a olhar para este meio como o ideal para veicular as suas teorias.

Roky Erickson e Stacy Sutherland
Para descobrir os parceiros ideais para esta empresa, organizou trips comunais de LSD que atraíram jovens músicos como Roky Erickson ou o guitarrista Stacy Sutherland. A junção destas 3 personagens foi o suficiente para fazer nascer os 13th Floor Elevators. Eram também três os elementos que destacavam esta banda de qualquer outra na altura: a poderosa voz de Roky Erickson que no seu pico rivalizava com a de Janis Joplin; um instrumento inventado por Hall que consistia num bidon de gasolina que funcionava como câmara de eco à sua voz criando o “som” do psicadelismo; e os seus poemas  em forma de letras exaltando as substâncias que possibilitam a cada um “alterar quimicamente o seu estado mental.” Estes elementos convergidos dão origem a “The Psychedelic Sounds of The 13th FloorElevators”, o primeiro registo do grupo. 

Na contracapa encontra-se um texto não assinado (da autoria de Hall) no qual este expõe as bases do seu pensamento: a mudança de um conceito aristotélico de conhecimento vertical, separado entre si e ordenado por classes, criando um mundo no qual impera o caos e a desordem; Hall propõe uma sistematização do conhecimento horizontalmente para encarar a vida na sua totalidade. Por detrás desta filosofia está o trabalho do matemático polaco Alfred Korzybski, para quem toda a experiência humana devia ser reavaliada através de uma perspectiva não-aristotélica. Onde Korzybski é vago, ou seja, na forma de atingir esta meta, Hall é prático, através do uso de substâncias psicadélicas. Nesta introdução explica de que forma o álbum corresponde a uma reavaliação psicadélica em torno do nascimento de uma nova percepção afastada do “velho sistema”. Assim, cada canção representa um estádio nesse processo de libertação. 
 


O grupo foi um sucesso imediato na zona de Austin e as suas actuações ao vivo inesquecíveis e irrepetíveis, quanto mais não fosse pelo facto de Hall obrigar todos os músicos a tocarem sempre sob o efeito de LSD. Em Novembro de 1967 é lançado o segundo álbum da banda “Easter Everywhere” – termo provindo do gnosticismo e da ideia de ressuscitação de Cristo. Ou seja, o homem está num processo de constante renascimento que o aproxima cada vez mais do paraíso, ou de uma consciência mental total. O momento mais ambicioso do álbum é a faixa de abertura, “Slip Inside this House”, uma viagem de 8 minutos que pretende passar a mensagem de que os Elevators não eram uma mera banda de rock mas antes uma experiência vital. Na canção encontram-se alguns temas básicos da poesia de Hall: o movimento, expressado através de metáforas sobre ascensão e nascimento ou na referência a povos nómadas como os beduínos ou ciganos; a consciência mental; e, finalmente, a síntese - a mistura de elementos de diferentes crenças.

Como é do conhecimento comum, o Texas não é (nem nunca foi) um dos estados progressistas dos EUA e o endosso público do uso de LSD por parte dos Elevators era visto como uma séria ameaça à manutenção do tecido social. Não só foram perseguidos como as suas detenções eram transmitidas em directo pela televisão. O uso abusivo das substâncias psicotrópicas começou também a ter o seu efeito negativo na banda, que internamente começou a dividir-se entre os que levavam a sério a experiência e os que se opunham à obrigação de tomar as ditas drogas. Os 13th Floor Elevators iriam pagar caro a sua ousadia, a começar pelo vocalista Roky Erickson, que para fugir a uma sentença por posse de um cigarro de cannabis alegou insanidade em tribunal. Foi internado e submetido a terapias à base de electro-choques e torazina. O guitarrista Stacy Sutherland lutou durante anos contra a dependência de drogas pesadas até à sua morte prematura, provocada por um tiro disparado pela sua esposa. Tommy Hall entrou num exílio forçado, transformando-se num eremita urbano mas sem nunca desistir de trabalhar a ideia de “Pensamento Horizontal”, acabando por converter-se à Cientologia nos anos 70.

A influência do conceito psicadélico fez-se sentir imediatamente e moldou de certa forma o ambiente que se viveu na segunda metade dos anos 60. A lista de bandas que aderiram ao movimento é infindável: Beatles, Byrds, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Doors, Jimi Hendrix Experience, etc, etc. 

 Considerados pela comunidade musical texana - dos barbudos ZZ Top aos Butthole Surfers - como a mais importante banda local, o interesse pela herança dos 13th Floor Elevators não pára de aumentar, principalmente quando uma sub-cultura fundada numa nova droga emerge, como foi o caso da cultura rave associada à droga ecstasy. Um dos álbuns mais marcantes desse período – “Screamadelica” dos Primal Scream – contém uma versão de “Slip Inside this House”.


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