ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS! (parte 3)

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Parte 3: O segredo é a alma do negócio 

Diz-se que são naturais da cidade de Shreveport, no Louisiana, e que em 1966 se mudaram para a Califórnia, mais especificamente San Mateo, onde assentaram arraiais e iniciam um trabalho artístico multifacetado nas mais diversas áreas. Experiências com gravadores produzem uma cassete  enviada para a Warner Brothers ao cuidado de Hal Halverstadt, pela simples razão de que este havia colaborado com Captain Beefheart. Halverstadt acha a cassete interessante mas não suficiente para gravar um disco e escreve uma carta de rejeição enviada ao cuidado dos "The Residents", visto o pacote ter vindo sem nome no remetente. Parece que foi assim que nasceu um dos mais misteriosos colectivos musicais a deixar a sua marca no mundo da música popular.

Os Residents a estudar os hábitos da cultura ocidental
O parágrafo anterior é baseado em “informações” veiculadas pelos próprios The Residents a propósito de uma carreira que subsiste em torno de uma auto-mitologia em constante renovação. Um desses mitos conta que o mentor da banda teria sido um obscuro compositor bávaro de nome N. Senada, criador de duas teorias que têm sido os pilares das composições dos Residents. A primeira chama-se “Teoria da Obscuridade” e defende que o artista estará sempre no pico da sua criatividade se se mantiver totalmente anónimo e imune ao feedback por parte de um público, teoria à qual os Residents sempre foram fiéis. A segunda – “Teoria de Organização Fonética” – sustenta que a música deve ser construída a partir do som, em vez de ser um elemento secundário em relação ao ritmo, tom, estrutura, etc. Trata-se de uma forma de organizar os sons que rejeita as regras estabelecidas da composição musical. Há no som dos Residents uma qualidade primitiva inspirado pelas culturas tribais de África e da América do Sul, ou seja, toda a sua criação é pautada pelas regras do minimalismo filosófico e artístico. Os Residents olham para a música popular como John Cage ou Stockhausen olharam para a música erudita ou clássica. 


Sem acesso aos canais mainstream para difundirem o seu trabalho, os Residents criam uma editora (Ralph Records) e uma companhia (The Cryptic Corporation) para tratar dos negócios e servir de porta-voz do grupo para que estes se possam concentrar exclusivamente no seu trabalho. Para o grupo, o progresso era indissociável de uma ironia sobre as formas pop prevalecentes: no seu primeiro álbum parodiam os Beatles de “Meet the Beatles”, chamando-lhe “Meet the Residents” (1974), na capa as caras dos fab four surgem debaixo de máscaras grotescas; em “Third Reich ’n’ Roll” (1976), surge Dick Clark, mentor do programa “American Bandstand” o equivalente norte-americano do “Top of the Pops”, com um uniforme de oficial nazi na capa, no interior assistimos a um desfile de canções rock clássicas como “Let's Twist Again”, “Papa's Got a Brand New Bag” (ambas cantadas em alemão), “Hey Jude”, “Rock Around the Clock”, “Light my Fire” por vezes tocadas simultaneamente; em “Commercial Album” (1980), os Residents levam ao extremo a sua lógica desconstrutivista criando um disco composto por 40 canções, todas com um minuto de duração. Esta ironia provocatória marca a primeira fase da carreira dos Residents que se apresentavam em fotos promocionais de smokinge cartola com enormes glóbulos oculares no lugar das cabeças – imagem icónica para sempre ligada ao grupo. De certa forma, os Residents devolviam ao público o seu olhar, propondo uma meditação não apenas sobre a própria composição musical mas igualmente sobre o seu consumo massivo. 

Podemos atribuir, desta forma, aos Residents, o título de primeiro grupo pós-moderno. A eles se deve por exemplo, o primeiro mash-up da história do rock (técnica muito em voga hoje em dia na MTV) com o single “The Beatles Play the Residents and the Residents Play the Beatles”, um somatório de samples de músicas do quarteto de Liverpool. Ainda recentemente, os Residents gravaram um anúncio acerca das reedições de todo o seu catálogo e aproveitaram-no para anunciar que passaram a ser um trio com nomes: o vocalista “Randy”, o teclista “Chuck” e o guitarrista “Bob”. Uma das vantagens da persistência em trabalhar sob a “Teoria da Obscuridade” durante tanto tempo, é o facto de se poderem afastar sem o subsequente fim do grupo, podendo este ser mantido por gerações mais novas sem que o público se aperceba. Os Residents, enquanto projecto, transcendem os seus criadores e os seus próprios limites espácio-temporais, encontrando paralelo apenas na série televisiva “Os Simpsons". Esta referência não é de todo casual visto o criador da série, Matt Groening, ser admirador confesso da obra dos Residents.




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