ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS (parte 4)

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Parte 4: We are the Robots 

No final dos anos 60, surgiu na Alemanha um movimento associado ao rock progressivo intitulado Krautrock, designação criada devido à dificuldade em associar todos os novos projectos germânicos a este género, mercê do uso que faziam do improviso proveniente do free jazz e de uma obsessão com a electrónica. 
As inúmeras bandas que explodiram nos grandes centros urbanos eram compostas por estudantes de arte que reinterpretavam o rock por intermédio de uma nova sensibilidade pós-guerra. No entanto, a maioria destes grupos cantava em inglês e possuía nomes anglo-saxónicos - Can, Tangerine Dream, Cluster, etc – à excepção de uma que se destacava dentro do movimento: os Kraftwerk (termo que significa “Central de Energia”). Formados pela dupla de estudantes de música clássica, Ralf Hütter e Florian Schneider, foram influenciados pelo compositor avant-garde Karl-Heinz Stockhausen, pela música concreta de Pierre Schaeffer e pela banda sonora exclusivamente electrónica do clássico sci-fiForbidden Planet”, pioneiro no seu uso. 

Nascidos das cinzas dos Organisation, os Kraftwerk não destoavam muito do movimento nos seus primeiros álbuns apesar de já se adivinhar a primazia dada aos sons electrónicos e, por levarem os intentos de criação de uma identidade artística alemã mais a sério que os demais, cantando inclusive na língua materna. A metamorfose enquanto banda conceptual só ficou completa quando dois dos membros iniciais, Klaus Dinger e Michael Rother, saíram para formar outra das bandas-chave do Krautrock: os Neu! 
Ralf Hütter e Florian Schneider
Mais livres e bem equipados (Hütter e Schneider haviam adquirido um sintetizadores Moog e EMS), os Kraftwerk lançam o primeiro de uma série de álbuns conceptuais que os tornaria num dos mais importantes projectos musicais do séc. XX:Autobahn”. Nele, a banda ambicionava criar um som que personificasse a Alemanha contemporânea, à semelhança do que os Beach Boys tinham feito nos EUA. Na letra da canção que dá titulo ao álbum, cantam “Wir fahr'n fahr'n fahr'n auf der Autobahn” que soa a “Fun, Fun, Fun in the Autobahn”, numa alusão irónica ao grupo de Brian Wilson. A “auto-estrada”, uma das heranças de Hitler, propõe uma viagem pela nova nação germânica industrializada com todas as suas possibilidades e sonhos. 

“Autobahn” é um disco marcante para o Kraftwerk por muitos motivos: marca a sua última colaboração com o produtor Conny Plank (a quem chamavam o “Phil Spector do Krautrock”); a inclusão dos novos membros Wolfgang Flür e, mais tarde, Karl Bartos, naquela que viria a ser a formação mais duradoura da banda; e o seu estrondoso sucesso além-portas, chegando a nº3 na lista de vendas nos EUA. Com os lucros destas vendas, Hütter e Schneider investem em mais material para o seu próprio estúdio de gravação, baptizado de “Kling Klang”, onde trabalhariam exaustivamente lançando quase um álbum por ano entre 74 e 81. Durante este período, os Krafwerk não só barricaram o seu estúdio para não sofrerem influências do exterior, como também habitaram a mesma casa durante 10 anos.




Em “Radio-Activity” (1975), “Trans-Europe Express” (1977), “The Man Machine” (1978) eComputer World” (1981), os Kraftwerk construíram uma obra conceptual em torno da identidade germânica, do seu papel no continente europeu, ao mesmo tempo que provocavam uma autêntica revolução electrónica no seio da música popular. Durante este trajecto, os membros da banda foram-se despersonalizando, tornando-se personagens secundários da banda sonora de uma nova sociedade tecnológica que progrediu das auto-estradas até aos computadores - fase final na qual os Kraftwerk se substituem literalmente por manequins, simbolizando uma fusão completa entre homem e máquina. 

Hütter e Schneider sempre foram a principal força criativa do projecto e raramente falavam à imprensa musical. Numa rara entrevista concedida ao malogrado crítico de música Lester Bangs, afirmam: 

“Gostamos de ignorar o público enquanto tocamos e de nos concentrarmos totalmente na música. Estamos muito interessados na origem da música, a fonte da música. O som puro é algo a que gostaríamos muito de chegar.” [...] “Criamos a partir da língua alemã, a língua nativa, que é muito mecânica, usamo-la como estrutura básica da nossa música. O mesmo se passa com as máquinas das indústrias da Alemanha.”

Surpreendente é a importância dos Krafwerk para a música popular, do último quarto de século até ao presente. Qualquer projecto musical contemporâneo que incorpore sintetizadores no seu som foi influenciado pelo grupo, mesmo que nunca tenha ouvido falar neles. Os seus ritmos minimais e repetitivos provocariam o nascimento de novos estilos de música hoje predominantes, o hip hop e o techno

Depois dos Kraftwerk, foram os punks os primeiros a incorporar sintetizadores. O desbaste que o instrumento operara no processo de composição musical tornou-se presa fácil da filosofia “DIY”. Daqui nasceram as bandas electrónicas que dominariam os anos 80 como os Depeche Mode, Human League, Soft Cell, Pet Shop Boys e por adiante. Feito extraordinário se nos lembrarmos que por detrás dos Krafwerk estava o trabalho de Stockhausen e Schaefer, os verdadeiros pioneiros da electrónica.

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