A importância de ser Blanco



Mikky Blanco viveu várias vidas antes de se tornar rainha de New York. A verdade, sempre a menos interessante de entre as lendas, mistura-se com as muitas histórias que são contadas sobre Blanco e a sua fuga adolescente, a ânsia pela cidade grande, a carta escrita ao ídolo,  a descoberta do poder e do choque. Muito é dito sobre o momento revelador em que a muda de roupa foi metamorfose de cara e nome:  a preparação para o nascimento da mais recente diva do rap norte-americano.

A homosexualidade de homens negros é um segredo antigo e um escândalo recente, é uma peça que não encaixa bem no puzzle dominante da identidade masculina negra ao longo da história.

A explosiva virilidade dos escravos, o humor e o poder atlético de quem tem o ritmo na pele, a seriedade iluminada do guerrilheiro revolucionário, a sedução ameaçadora do rapper gangsta: há algo que não bate certo quando Mikky Blanco entra em cena. A ameaça latente na voz e nos beats de Blanco dispara em todas as direcções, acerta em vários alvos e um deles é a cultura reaccionária e conservadora do hip-hop, o outro é a personagem telecomandada em que se transformou o jovem negro habitante do século. O nome deste jogo é autenticidade e não há regras.



Não são só os jovens brancos que há muito adoptam a imagem mediatizada da cultura negra porque precisam de se mostrar masculinos e reais. Os jovens negros assumem e escolhem a ficção da cor, da rua, do crime e do poder, reclamam como seus os nomes, as armas, os papéis inventados, como estratégia de sobrevivência e de negócio, e o hip-hop faz-se muito desse tráfico desigual, essa atracção mútua entre o aborrecimento da classe média e a dupla hipnose dos bairros segregados.

Se o P-Funk é um oásis de esquisitice assumida nesta dinastia cultural masculina, o Gangsta Rap emergiu como o seu sucessor natural e necessário, filho das tragédias urbanas da década de 1980, da invenção real e mediática do crack, da abundância de ódios internos e da escassez de soluções que tanto caracterizou a emergência do rap enquanto língua oficial da cidade contemporânea, primeiro na América e depois no mundo. Desde então, a autenticidade da rua passa necessariamente pela figura do thug, pobre, traficante, armado, cara de poucos amigos. This is a man's world.



Mas eis o novo século, e os primeiros sinais de alarme soaram cedo na capela: as calças apertadas de Kanye West desafiavam as expectativas tanto ou mais do que o som que o tornou lendário. Depois houve a proviniência suburbana cosmopolita e skater dos Odd Future, os novos cortes de cabelo de Danny Brown e a literária confissão amorosa de Frank Ocean, e (quase) de repente a homosexualidade negra passou a ser tópico de debate e - sinal da voracidade dos tempos - o discurso oficial em voga no hip-hop americano já incluía o respeito pela diferença e a admissão, muitas vezes velada, de que a homofobia já deixara de ser uma boa estratégia de mercado. 

A recusa da classificação simples do queer rap é um gesto nobre e previsível de Mikky Blanco. 




O pior que pode acontecer a um artista é um movimento, ou um manifesto. Há obviamente uma clara coincidência de sonoridades, tácticas e posturas da parte de rappers como Zebra Katz, Cakes Da Killa, ou mesmo Azealia Banks. Há a tal ameaça implícita de uma tradição antiga que ecoa súbita e de novo em vozes jovens, conscientes do seu poder incómodo. Mas Blanco, rainha e face mais visível deste renascimento, detém uma importância maior, é seu o nome, o previlégio, o dever dos líderes.

Quando James Baldwin se exilou em Paris, por volta de 1948, a literatura moderna descobriu um escritor autónomo. Quando Eminem misturou pela primeira vez o seu sarcasmo implacável com a mestria do microfone, por volta de 1999, o hip-hop mudou irreversivelmente.

Quando Mikky Blanco entra em palco, em 2013, milhares de homens suspiram de amor, e de alívio.