ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS (parte 5)

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Parte 5: A civilização Magma

Houve uma altura em que a música improvisada, com durações que chegavam a ocupar o lado inteiro de um LP (executada por virtuosos que se perdiam em solos intermináveis tendo por fundo cenários futuristas fantásticos provindos da imaginação de gente como Lewis Carrol ou Tolkien), dominava as tabelas de vendas um pouco por todo o mundo ocidental. Não havia país ocidental que não tivesse uma “cena progressiva” (até Portugal). 

John Coltrane
O mais original, aquele que mais longe levou todos os excessos do sub-género, nasceu em Paris. Christian Vander, baterista de formação jazzística, descobriu a sua raison d’être na música de John Coltrane. Aquando da morte prematura deste, Vander entrou em depressão profunda. Via apenas no seu horizonte duas possibilidades: o suicídio ou pôr sobre si a responsabilidade de continuar a obra de Coltrane. Quando se decidiu pela última, fez-se luz no interior da sua mente. Imaginou um mundo, muitos séculos no futuro, quando a sociedade tal como a conhecemos havia sucumbido ao caos e à degradação. A colonização do espaço era uma realidade e as viagens interestelares prática comum. É neste cenário que um grupo de terráqueos iluminados partem numa nave privada em busca de um novo mundo onde uma civilização fundada na espiritualidade possa florescer. Descobrem-no no planeta Kobaia, onde darão inicio à sua empresa.

Fundar uma banda de rock progressivo com base nesta mitologia fantástica não é um feito inédito, aliás, pelo contrário, é quase um ritual de iniciação. Mas Vander decidiu cantar as suas canções na nova língua que iria nascer neste planeta, o dialecto kobaïan, que fundido com a espiritualidade da música de John Coltrane, daria origem aos Magma – porta-vozes de um som proveniente de um futuro longínquo. Em entrevista, Vander disse que tinha inventado o kobaïan porque o francês não era suficientemente expressivo, tanto para a narrativa como para o som da música. A linguagem desenvolveu-se naturalmente em paralelo com a música, através dos sons que esta lhe pedia. Usando elementos de dialectos eslavos e germânicos com técnicas vocais empregues no Jazz por cantores como Leon Thomas, nascia uma nova língua musical obediente apenas ao som e não às limitações fonéticas de cada idioma. Relativamente à imagem do projecto, Vander e a banda trajavam sempre de negro, ostentando colares com um símbolo inventado pelo próprio, imagem que consolidava uma ideia de culto alienígena. 

Pelos Magma passaram muitos instrumentistas e cantores desde a sua formação em 1969 até ao presente (o seu último lançamento data de 2012). O primeiro álbum, editado em 1970, intitulado com o nome da banda, marca o início da odisseia kobaïan. Relata a partida, a viagem e a chegada ao planeta; o longo processo de construção de uma nova sociedade de acordo com a sua visão e a familiarização com o novo território em seu redor. Os terráqueos impressionados com os seus progressos imploram um regresso à Terra para salvar o planeta da interminável degeneração – pedido a que os kobaïans acedem. Em “1001 Degrees Centigrades”, o segundo registo, de 1971, um grupo de kobaïans aterra na Terra e, após a proclamação das suas soluções, são detidos pelas autoridades e a sua nave é confiscada. Do planeta Kobaïan ouve-se a ameaça de destruição da Terra em caso de não libertação dos reféns. Tudo termina bem com o regresso do grupo ao seu novo lar, seguro de nunca mais voltar. A partir daqui os álbuns dos Magma debruçam-se sobre aqueles que na Terra se recordam da visita dos kobaïan, dos seus ensinamentos e da forma de os pôr em prática. Nos onze álbuns seguintes, a história perpetua-se através de inúmeros personagens e peripécias alegóricas que aos poucos se vão tornando cada vez mais crípticas, talvez fruto da ascese metafísica de Vander.



Os Magma gozam actualmente de um reconhecimento que tardou durante a sua longa carreira. Ainda dão concertos, gravam álbuns e Vander ainda fala dos kobaïans em entrevistas. Se o mundo fosse justo, os Magma gozariam de um estatuto equivalente àquele que alguns mamutes do rock progressivo como os Pink Floyd ou os Yes possuem. Com uma obra tão extensa e inclassificável, seria interessante imaginar que tipo de bandas de tributo se poderiam formar.