ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS (parte 6)

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Parte 6: Os coveiros do Rock

Escrever sobre bandas conceptuais e passar ao lado do movimento punk seria uma grave omissão, principalmente se se tiver em conta que foi acima de tudo um movimento de índole filosófica e política. Uma das suas bandas fundadoras, pelo menos deste lado do mundo, os Sex Pistols, surgiram numa altura em que o rock era dominado pelos grupos progressivos que agora restringiram as suas actuações a grandes recintos e tournés caríssimas, cujo paradigma absoluto foi o super-grupo Emerson, Lake & Palmer
New York Dolls
Malcolm McLaren, após desistir do curso de arte que estava a tirar, parte para Nova Iorque em busca de um rumo para a sua vida. Na Big Apple é exposto aos decadentes New York Dolls, banda de rock clássico que se distinguia pelo seu aspecto extravagante, ou melhor, travestido que usavam em palco e nas ruas, completamente alheados do efeito que provocavam. McLaren consegue, antes do término do grupo, ser o seu empresário e responsável pelo último look da banda – sempre de vermelho com proeminentes foices e martelos, a maior provocação que um grupo norte-americano poderia almejar.

Regressado a Londres, abre uma loja de roupa com a estilista Vivienne Westwood chamada “Sex” onde vende indumentária sado-masoquista. A loja atrai todo o tipo de juventude alienada e desencantada proveniente da classe operária britânica. Entre estes, destaca-se um jovem com visíveis carências higiénicas orais chamado John Lydon e uma atitude 100% hostil para com todos à sua volta. Mais conhecido por Johnny Rotten, iria liderar a maior ofensiva musical à sociedade de sua majestade. Sob o título provocatório “The Sex Pistols” e a presença de McLaren como empresário, a banda estava decidida a acabar de vez com o rock'n'roll. 
  
A história é por demais conhecida, não fosse o punk um dos movimentos recentes mais documentados. Resta salientar durante o único ano de existência da banda o seu apogeu, com o famoso hino “God Save the Queen”, lançado no dia de celebração do jubileu da Rainha. Após a controvérsia os Pistols fogem para uma tourné nos EUA, onde se separam literalmente em palco enquanto tocam uma versão de “No Fun”, dos The Stooges. Pouco depois, Sid assassina Nancy e morre devido a uma overdose, lançando uma sombra negra sob todo o movimento que iria sobreviver durante os anos 80 numa semi-obscuridade até reemergir em grande nos anos 90 com o fenómeno Nirvana.

Muito se tem discutido sobre a paternidade dos Sex Pistols, se de McLaren ou de Lydon. O primeiro sempre se gabou da banda constituir o seu maior feito artístico. A verdade é que sem Lydon, os Pistols nunca teriam atingindo o estatuto lendário de que hoje gozam. Aquilo que os distinguia musicalmente não era o som da sua música, nada mais que o clássico três acordes do blues eléctrico, mas as letras e voz carregadas de raiva mais a pose ferozmente anti-vedeta de Lydon. A prova disso é que este iria ser uma das figuras de proa de um novo movimento denominado de pós-punk, terreno de novas experiências, longe da explosão niilista e limitadora do punk. 

Furioso com a importância dada a McLaren e a sua própria redução a mero joguete nas mãos do manager, algo que os Monks, por exemplo, nunca questionaram, resolve criar um novo projecto musical destinado a levar adiante o intento primordial de destruir o rock. Juntamente com Keith Levene e Jah Wobble forma os Public Image Limited, no dizer dos próprios não uma banda mas “uma empresa de comunicações”. Musicalmente, os PIL (abreviatura pela qual são mais conhecidos) eram muito mais aventureiros e experimentais, conjugando elementos do Dub jamaicano com o krautrock germânico (reza a lenda que após o término dos Pistols, Lydon tentou juntar-se aos Can). Lydon era agora o grande timoneiro, visionário e ideólogo do projecto.
Metal Box”, de 1979, seria o seu trabalho mais influente, considerado pela Rolling Stone como um dos 500 melhores álbuns de sempre. Vendido dentro de uma caixa de metal, óbvia referência ao seu título, trazia um conteúdo marcado pelas letras crípticas de Lydon, o baixo hipnótico de Wobble, e os sons metálicos da guitarra de Levine. Em entrevistas, Lydon anunciava o fim do rock, género muito limitado transformado agora em banda-sonora de aeroportos. Os PIL não impunham limites à sua acção e ao vivo faziam os possíveis por quebrar as barreiras entre o público e o performer. Exemplo disso é a bizarra aparição da banda no programa “American Bandstand”, de Dick Clark, onde tudo fazem para dinamitar o formato. Lydon recusa-se a cantar em playback e  obriga o público a sair do seu lugar e a ocupar o palco.



Os PIL não acabaram com o rock, mas este intento, levado com a maior seriedade, coloca-os sem dúvida no panteão das bandas conceptuais, assim como a primeira incarnação do escárnio de Lydon, os Sex Pistols. Trata-se de uma história que cruza duas das pessoas mais inteligentes e sagazes do rock de cariz artístico e revolucionário, numa polémica que nunca terá um fim. 
Neil Young canta na canção “Hey Hey My My”: “The King is gone but he's not forgotten / This is the story of Johnny Rotten / Better to burn out than to fade away”, destacando obviamente Lydon. Mas, quando McLaren faleceu em 2010, Lydon referiu-se a ele, pela primeira vez em público, como um amigo e alguém cujas diferenças não eram de âmbito conceptual mas apenas motivadas por colisões de egos. 

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