ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS (parte 7)

--> Ler PARTE 6

 
Parte 7: A América do Dr. Moreau

Kent State, 1970
Natural de Akron, Ohio, Gerard Casale juntamente com Bob Lewis, um colega da Kent State University, formaram um grupo artístico conceptual denominado DEVO, abreviatura de “De-Evolution”, o oposto de evolução no sentido darwiniano da palavra. Este conceito afirmava que a humanidade havia parado a sua evolução natural e encontrava-se actualmente num estado de regressão, espelho de um país estagnado moral e ideologicamente. A acção do grupo restringia-se ao campus universitário, usando o conceito para a criação de peças satíricas. Esta vertente algo imatura iria drasticamente amadurecer quando a Guarda Nacional norte-americana matou 4 colegas de Casale numa investida contra uma manifestação estudantil anti-guerra dentro do perímetro da universidade, em 1970. A partir desse dia a piada deixaria de ter graça quando Casale se convenceu de que a “De-Evolução” era real, e havia, portanto, que avisar a população.

Casale, músico nas horas vagas e com gostos muito próximo dos blues, conhece Mark Mothersbaugh, também músico, mas em actividade com um grupo que fazia versões de canções heavy metal. Juntos iriam montar a identidade DEVO e expandir a banda em número com a inclusão dos seus irmãos (Bob 1 e Bob 2). O resultado da mistura da leitura de um livro pseudo-científico de 1971 chamado “The Beginning Was the End”, escrito por um cientista nascido na Hungria, de nome Oscar Kiss Maerth, no qual constava a tese de que a humanidade havia evoluído a partir de primatas canibais, com uma devoção religiosa ao filme de ficção-cientifica de 1932, “The Island of Lost Souls”, adaptação do clássico de H. G. Wells, “The Island of Dr. Moreau”, seria a base de toda a ciência especulativa dos DEVO. A ligação ao clássico de Wells está patente no hino oficial da “De-Evolução” - “Jocko Homo” - onde se ouve o cântico “Are we not men? We are DEVO!”, adaptado do lema das criaturas mutantes do Dr. Moreau. 


Antes de se consolidarem enquanto projecto musical, os DEVO davam mais atenção à produção de vídeos que colassem a música ao universo estético-simbólico conceptual. O primeiro desses filmes “The Truth about De-Evolution” apresentava alguns dos elementos desse universo, como a personagem “Booji Boy”, um adulto com uma máscara de criança inocente que satirizava a conduta infantilizada do homem contemporâneo. O filme ganharia um prémio no festival de cinema de Ann Harbour onde seria visto por David Bowie e Iggy Pop, que se tornariam imediatamente e fervorosamente padrinhos dos DEVO.


Os DEVO apresentavam-se como um encontro entre os “Flintstones” e os “Jetsons” - o passado e o futuro que colidem num universo em contracção. Define um grupo que se apropriava da fúria do punk para potenciar uma força artística assente na subversão e sabotagem das formas pop. A sua música pretendia tornar-se a banda sonora de uma sociedade rígida, repressiva e robótica, obcecada com tecnologia, um pouco como os primatas e o monolito de “2001, a Space Odissey”. 

Os DEVO assemelhavam-se aos Residents em conteúdo e acção multimédia, mas eram mais acessíveis e menos obscuros, apostando em colagens musicais de rock clássico com jingles e ruídos electrónicos do quotidiano, como jogos de computadores ou alarmes. Também como os Residents, destacaram-se através da recriação de um standard do rock, “Satisfaction” dos Rolling Stones, que passado pela máquina DEVO soa a uma fita cortada aos bocadinhos e colada com fita-cola. E não era só ao nível sonoro que esta máquina se distinguia, mas também ao nível temático. Daqui nasceram canções como “Mongoloid”, por exemplo, que cantada do ponto-de-vista de um mongolóide punha em causa o conceito de “normalidade”. 

Ao vivo, os DEVO apresentavam-se trajados de operários da (des)construção civil e os concertos até 1977 eram provocadores e, por vezes, redundavam em confrontos com o público, os organizadores ou outras bandas punk que não os entendiam. Bowie convenceu Brian Eno a assistir a um concerto dos DEVO para que este produzisse o seu primeiro álbum. Eno ficou rendido à banda e levou-os para a Alemanha para gravarem no estúdio de Conny Plank (esse mesmo, o “Phil Spector do Krautrock”) e em 1977 é lançado “Q: Are we not men? A: We are DEVO”, a primeira ofensiva DEVO contra a sociedade norte-americana. 

O seu impacto fez-se sentir da pior maneira, ninguém entendeu a “De-Evolução” e como a ignorância anda de mãos dadas com a violência, a Rolling Stone  rotulou-os de fascistas. Para a revista, os DEVO eram emissários desta regressão civilizacional, quando estes apenas se apresentavam como a “CNN da De-Evolução”. Até ao início dos anos 80, os DEVO eram vistos com desconfiança pelos media. Em todas as entrevistas os jornalistas, atónitos, pediam a Casale que explicasse recorrentemente a “De-Evolução” ou o significado dos vídeos e da indumentária. 

Tudo iria mudar com o nascimento da MTV que precisava de vídeos musicais para encher programação, linguagem ainda nova para as grandes editoras e algo que os DEVO tinham em abundância no seu catálogo. É divertido imaginar a reacção do comum espectador que a meio do seu zapping se cruza com “Satisfaction” ou “Jocko Homo”, trabalhos artísticos de cariz vanguardista. Um destes vídeos iria tornar-se o maior êxito dos DEVO, “Whip It”, no qual surgem os famosos “Energy Domes”, capacetes semelhantes a vasos invertidos – todos os objectos DEVO eram desenhados, produzidos e vendidos pelo grupo sem intermediários comerciais – que com as insinuações sexuais da letra fizeram o público finalmente reparar nos DEVO. A seguir, lançam o vídeo do tema “Freedom of Choice”, no qual estão reunidos os melhores skaters da altura tornando-os, por brevíssimos momentos, a banda mais cool dos EUA.



Mas, por esta altura, o grupo tinha deixado o fervor idealista, substituído agora por uma ironia ácida e amarga, própria de quem não consegue veicular um pensamento. Sensação ilustrada na melodia em tons rosa de “It's a Beautiful World” que contrapunha a raiva contida nas letras de Casale: “It's a beautiful world we live in / A sweet romantic place / Beautiful people everywhere / The way they show they care / Makes me want to say / It's a beautiful world / For you”.

Os DEVO tinham deixado de ser relevantes e apagaram-se naturalmente após uns quantos álbuns. Casale em entrevista descreveu os DEVO como “o laxante musical de uma sociedade obstipada” e, de facto, foram a banda que todos mereciam naquela altura. Demasiado punks para serem respeitados pelos punks e demasiado esquisitos para a pacata MTV. As suas colagens musicais de fragmentos da cultura popular anunciavam o fim das ideias, como Fukuyama diria: “o fim da história” (do rock). O velho estilo musical deixara de ser importante ou capaz de transformar consciências; era agora justamente o contrário, um estilo reaccionário, averso à originalidade e à inovação.
Destinados a habitarem a história do rock enquanto bizarria passageira, os DEVO iriam ser convocados pelos altos espíritos tecnológicos para que fossem finalmente apreciados em vida. Mothersbaugh, que se tinha transformado num conceituado compositor de bandas-sonoras, cruzou-se com Casale, que se tinha tornado realizador de videoclips (no qual é pioneiro), ligaram aos seus irmãos e voltaram a reunir-se para uns concertos de apoio à candidatura de Barak Obama (DEVObama) – para Casale, Sarah Palin era a prova irrefutável da De-Evolução. Depressa começaram a surgir, dos mais variados espectros musicais, interessados em produzir o regresso dos DEVO, de Snoop Doggy Dog a Trent Reznor. A estes novos “tradicionalistas”, que chegaram a produzir um álbum de versões muzak das suas próprias canções (para que ninguém o fizesse por eles, foi dada a oportunidade de voltarem e poderem dizer com autoridade: “Tínhamos ou não tínhamos razão?”
 

--> Ler PARTE 8



artigo relacionado:

'ARE WE NOT MEN?' Devo Documentary