ABAIXO OS ÁLBUNS CONCEPTUAIS! VIVAM AS BANDAS CONCEPTUAIS! (parte 8 & conclusão)

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Parte 8: One, two, three...
 
Tendo seguido uma ordem cronológica, resta terminar com o último fenómeno conceptual entretanto já extinto. No meio da fornada de “novas” bandas de rock que emergiram após o sucesso súbito dos The Strokes nos primeiros anos do século XXI, estava um duo, ou melhor um casal, originário de uma das grandes mecas musicais dos EUA – Detroit, lar da Motown e das explosões sónicas dos The Stooges e MC5. Traziam na bagagem referências que iam para além do universo musical, algo que nenhuma das outras bandas que emigraram para NY possuía. Compostos pelos “irmãos” Meg e Jack White, os White Stripes foram das últimas bandas de rock a evangelizar o reducionismo extremo.


Os White Stripes são um projecto formado em torno da ideia de re-apropriação do conceito primordial do rock, isto é, reduzir tudo ao básico: a voz, guitarra e o compasso batido com o pé segundo aqueles registos semi-sepulcrais dos bluesmen primitivos gravados nos anos 20. Tudo começou quando Jack ouviu a irmã tocar bateria pela primeira vez, a simplicidade e o encantamento por detrás da batida primitiva, própria de alguém sem experiência. Isto fê-lo sentir que não estava assim tão longe do seu grande ídolo musical, o músico de blues Son House, cujo poder das suas canções a capela superavam tudo o que se havia conseguido em quase 100 anos de rock. Para voltar a esta honestidade natural, havia que estabelecer regras rígidas de conduta, um pouco como havia acontecido aos Monks, para atingir o grau máximo de pureza. Em primeiro lugar, a importância concedida ao número 3, tudo gira em torno deste dígito: o som que se ouve nas canções provêm sempre de 3 instrumentos (voz, bateria, guitarra ou piano); Jack e Meg trajariam sempre um combinado de 3 cores - branco, preto e vermelho - as primeiras manifestações cromáticas que o olho humano apreende, daí o seu recorrente uso em propaganda ideológica (suástica) ou em publicidade (Coca-Cola). Para compensar o facto de não terem nascido escravos ou sequer negros, muito pelo contrário, os Stripes roubaram a sua imagem às teorias da escola neoplástica holandesa, principalmente ao movimento “De Stijl”. Esta escola englobava artistas como Theo van Doesburg ou Piet Mondrian e advogava o reducionismo nas artes plásticas na direcção do que consideravam o essencial - forma e cor - daí o uso exclusivo de cores primárias, mais o branco e o preto. O segundo álbum da banda intitula-se mesmo De Stijl.

Durante dez anos de carreira, o virtuosismo de Jack era controlado pelas limitações de Meg e desta justaposição saiu um corpo de trabalho dos mais interessantes dos últimos tempos. Para além do choque entre o blues primário e o aspecto neoplástico, salienta-se também uma ética profissional pouco comum naquilo que comummente se entende como o percurso normal de uma estrela do rock. Os Stripes gravavam discos no espaço de uma ou duas semanas, como aconteceu com “Elephant”, álbum que os catapultou para o imaginário popular; iam tocar a sítios que não constavam do itinerário habitual das bandas norte-americanas, como toda a América Latina ou a Europa de leste; quando a Coca-Cola insistiu em utilizar um tema da banda num anúncio, White recusou ceder os direitos, mas para não ser acusado de ser um “ludita” (movimento político anti-revolução industrial nascido em Inglaterra no século XIX) propôs compor um tema original.

Outras referências que os Stripes incluíam no seu universo consolidavam a sua “mística”. No filme “Coffee & Cigarettes”, de Jim Jarmusch, o casal surge num dos episódios do filme a discutir as virtudes da obra do físico Nikolai Tesla, que via a terra como um condutor de ressonância magnética. No som do banda, a electricidade é um elemento essencial que é libertado no éter, os músicos parecem mais domadores de electricidade do que instrumentistas. Outra referência extra-musical relacionada com a vertente iconoclasta da banda é o cinema de Orson Welles, o sumo-prestidigitador da 7ª Arte. Na canção “Union Forever”, do álbum “WhiteBlood Cells”, White inclui a marcha dedicada a Charles Foster Kane, do clássico “Citizen Kane”. Welles é outro artista que construiu a carreira com base no mito do génio moderno. Com experiência em magia, teatro e rádio, Welles alimentou ao longo da sua carreira o seu próprio mito, recorrendo a um chavão intelectual: Welles é um personagem de Welles. No documentário sobre a tourné canadiana da banda, “Under the Northern Lights”, White diz que a descrição que mais lhe agradou das que leu acerca dos White Stripes é aquela que sustenta que são simultaneamente a banda mais verdadeira e mais falsa do rock. 


O facto é que durante uma carreira de dez anos, os White Stripes fizeram jus à premissa que os viu nascer - a de que há mais criatividade onde houver menos oportunidade. O próprio Jack White é a personificação desse ideal, desde que se separou da sua “irmã” qualquer um dos projectos em que esteve envolvido, bandas mais “convencionais” como The Raconteurs ou The Dead Weather, não tem metade do poder ou interesse que advinha do reducionismo sónico dos Stripes. Em 7 álbuns de estúdio nunca a banda se afastou dos seus princípios fundadores e a sua influência no universo popular ainda está para vir, e tendo em conta os relatos anteriores, virá certamente. 

Conclusão: Oh Captain, my Captain!

Esta foi apenas uma introdução algo circunstancial que cabe ao leitor completar e aprofundar. Mais bandas existiram ou existem (?) que também se fundamentam num conceito, mas não creio que nem os Village People ou os Gorillaz, por exemplo, provocaram (ou provocarão) alguma ruptura artística ou cultural de realce, pelo menos a meu ver. Mas, voltando aos projectos seleccionados, para além das contaminações implícitas (e por vezes explicitas) olhadas no seu conjunto, todas partilham características comuns bastante evidentes e recorrentes: a banda enquanto corporação (a soma das partes é mais do que o todo); o recorrente processo de reconstrução minimalista; os currículos artísticos e académicos; a constante busca por inovação e originalidade; a persistência conceptual; a influência da ficção científica popular em vez de teorias futuristas; e a devoção quase absoluta de alguns ao trabalho experimental de Don Van Vliet, mais conhecido no universo musical por Captain Beefheart.
Van Vliet é o pintor expressionista dotado de uma voz imensa que lhe permite registos tão diversos como os grunhidos de Howlin' Wolf. Pensado como uma resposta à invasão britânica, Van Vliet rapidamente desapontou aqueles que apostavam numa carreira comercial bem-sucedida. Ao invés tiveram “Safe as Milk”, um álbum pejado de ideias coloridas que pressupunha um artista verdadeiramente original. A decisão de seguir por um caminho pautado pela liberdade artística a qualquer preço foi possibilitada pela mão amiga de outro artista do rock, seu ex-vizinho de infância, Frank Zappa. Este último permitiu que viesse ao  mundo um dos trabalhos mais influentes do rock, amado e odiado com a mesma intensidade, “Trout Mask Replica”, de 1969, aquele que o lendário DJ John Peel apelida de “única obra de arte na história do rock”. Ensaiado até à exaustão e gravado ao vivo de uma assentada, é um dos maiores desafios artísticos propostos ao ouvinte, há que sentar e perder um tempo com ele. Os sons que os instrumentos produzem soam como pinceladas de tinta nos ouvidos, alimentada por poesias surrealistas ditas naquela voz única ao ritmo do blues primitivo. Para o terminarem, Van Vliet e os membros da Magic Band chegaram a passar fome, tornando-se nos artistas que mais longe levaram o conceito do rock enquanto “arte ou morte”, gesto que o imortalizaria e inspiraria gerações e gerações de músicos, alguns citados neste artigo. Van Vliet sempre soube que a verdadeira e pura criação artística, algo a que sem dúvida almejava, requeria um sacrifício, por isso nos anos 80 deixou os palcos e foi pintar para o deserto até à sua morte em 2010.
James Murphy
Regressando aos LCD Soundsystem e comparando-os com outro projecto seu contemporâneo, os White Stripes, verificamos em ambos a ostentação de um pós-modernismo consciente e militante. Mas em justaposição ao hedonismo superficial de James Murphy, em Jack White há alguém profundamente empenhado em ir à origem do estilo e recuperar o mistério que exalava daqueles registos únicos dos bluesmen provenientes das plantações de algodão do Mississipi. Sons amplificados por torrentes de decibéis nas décadas seguintes, que em confronto com a desilusão pós-modernista, dá origem a um estranho corpo retro-futurista. Já os Kraftwerk por aqui teriam andado, com o seu charme nostálgico de um futuro perdido às mãos da barbárie ideológica do 3º Reich. Se os Monks e os PIL visavam a destruição do rock e os 13th Floor Elevators, com os Magma, propunham um sopro de transcendência num género puramente orgânico, a partir dos Residents e dos DEVO assiste-se àquilo a que gostaria de chamar de pós-modernismo positivo. Nem tudo são características negativas, este constante olhar para trás permite também uma correção de erros passados e uma tentativa de fugir ao beco sem saída a que o rock parecia estar condenado, isto é, o lema: Sexo, drogas e Rock'n'Roll. A contrapô-lo está a tendência generalizada do pós-modernismo negativo personificado pela inanidade dos LCD e projectos semelhantes, e nalguns casos mais extremos, pelas Amy Winehouses e Pete Dohertys deste mundo. Resta saber por que caminhos se desdobrará o Pós-Modernismo, se ele também sofrerá uma ruptura inevitável, se será, enfim, substituído por outro movimento sócio-cultural. Até lá: “Keep watching the skies!”.



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