OITO CÃES A UM OSSO NUMA TARDE SEM PARAPEITO

Para aqueles que o não deixaram escapar e querem recordar; 
Para os que por espanto e histeria não o conseguiram ouvir;
Para os muitos que não tiveram oportunidade:



E daqui ainda eu, com a minha laringe bárbara a arrepelar gritos à míngua de gemidos. É que nem imaginam como roço as partes pudicas na dureza das pedras, mas a vida só me afaga o pêlo, afoga-me discretamente no pó dos seus séculos. E neste ventre germinam só balas, JURO!, sem pingo de metáfora, JURO! E cuspi-las!? Chama-lhe um figo! Entopem-me, reviram-me as tripas à procura de enterro. Pois, as vísceras, essa mobília mole, im-penhorável. 

De garras cravadas no alcatrão a ver se arranho esta merda e quando dou por ela já só me sobram dois belíssimos cotos num estafurdo de sangue. A boca toda transtornada na articulação de hercúleos ais. Um arfar de seios que não se explica! 

E depois arrasto-me de nuca grave para um tasco qualquer a pensar com que membros ainda posso dançar gestos de vertebrado. Porque esta máquina filha da puta chupa-te os ossos, e a menos de tiro acasula-te, (quase ternamente) na sua baba perniciosa. Ardil de preguiça. Um beijo que te esmurra certeiro na chicha gasta. Queixo descaído a ocidente. 

Certas mãos ramalhudas esmifram-te a goela, até que uma cabeça estala. Uma cabeça de onde emerge, fervilhante, pus! A bordar a pele com a lentidão da lava.… E ainda bem que o pus seca depressa, senão como dormiríamos nós joínhas?, nas nossas camas encharcadas no pus que nós transpiramos… joínhas…? 

Chapéus há muitos, cabeças menos, macrocéfalos cheios de dedos em riste, demasiados. Gerações inteiras indignadas, (vejam só!), saudosistas de toda a História que não lhes passou pelos poros, petrificadas nesta, na História que nos é possível, muito asseadinha, muito civilizada, como deve ser. 

A desobediência é assim como um voo a pique, asinha que te quero ir à tromba, de maxilares muito abertos para um despenhamento de dentada à Mike Tyson no clitóris do Espectáculo. 



Arrancam-se a esta sociedade insurreições à laia de cesariana brutal. Espasmos que se liquidificam numa sonolência deveras aplaudida. E começam a chegar os taxidermistas, pé de lã, a enterrarem o que sobra em formol. A entrançarem-me os pintelhos com as suas mãos de profissionais, gesto sublime de precisão.

Parece pois que cada vez que escancararmos a dentuça à superfície a abocanhar ar livre uma mão cheia de pó nos atafulhará a traqueia toda. 

Hão-de decorar as paredes assépticas das burguesias vindouras as cabeças dos que hoje vão dando o corpinho ao manifesto. Mumificar-lhes o sobrolho insurrecto, queixada na inclinação que sublinha o vilipêndio, faca a tinir nos molares?. Debaixo do escalpe, poliuretano. Só os mortos é que se veneram sem reticências. 

Ando portanto aos caídos, bêbada de tanto dedilhar mapas, a farejar rugosidades inéditas, ilhas nunca antes cartografadas, coisas além mar, além mundo. Soluços do sistema solar… Isto só pode implodir tudo não é joínhas? Tudo! Até ficar uma cambada de abutres num céu morno, borrão ridículo que se move sobre esse El Dorado de carcaças flutuantes a pontuar um imenso oceano. Idílio de lama podre. Para quem mata a fome com morte. E faz bem que o pasto é sempre muito, às vezes, até muitíssimo. 



Mas vai-se vivendo, dizem!... À cata das migalhas que caiem, chuva miudinha, lá do cume dos arranha-céus. A dar corda ao sangue a ver se não coalha nos Agostos. A sujar de pele, de carne nua, as paisagens, os móveis, os lençóis. Giga-joga de ilíacos dobrando as esquinas do tédio (tédio nunca!), na mira de se deitar a unha a um sexo fluorescente, a um sexo que sue com forma de amor-perfeito, e que desbote os dentes como o vinho a cinquenta cêntimos a taça. 

Ladrões do ego e de mais um par de misérias! Bando de Ubus, pá! Que me engatilham a libido, que me embustam os sentidos com as tais falinhas delicodoces, olarilolelas, demagogias de bolso fidalgo, assim de fininho, isco moral para as massas… 

É Berlusconi a mergulhar manápulas em ratas mediterrânicas importadas de Lampedusa; É Rockefeller cós testículos azuis, amarrotados, balanceando a cada tacada de golfe no terraço da bolsa egípcia; É Pinto Balsemão, focinho mais feio que o de um prussiano nazi a arrotar ostras na avenida da liberdade; É o Cardoso das iscas a desfazer-se em vénias a quem lhe paga o bandulho cheio com gorjetas chorudas; E vocemecês polícias de toda a espécie, que tão bem vos amoleceram a mioleira e vos incharam os tomates de raiva apócrifa. Desertem pombinhos, dêem à asa e deixem pousar a vossa caganeira nas cabeças altíssimas dos Maximilianos que nos vigiam as praças. 

É tudo por um fio, neste inferno forjado. E às vezes nem se acredita que foi possível sobreviver mais um segundo. 

Reconheço este lufa-lufa de um ódio tal que já não é para mim. Que afunila o olhar, e logo o meu brindado com tantas dioptrias por olho! Utilitarismo filisteu sem faro nenhum para transe nenhum. Delego isso sem menos aos correligionários a quem a ideologia, (qual for!) já roeu a moleirinha toda. Gentalha séria que vive tudo com muito realismo. Bocejo evidentemente. 

É só azedume discursivo, joínhas, bem sei, ninguém lhe molha o bico. Mas ao menos sejamos cínicos o suficiente, porra! Em diplomacias não lavo eu as mãos. Porque o crime é o último reduto de um corpo que ainda é um corpo, vivo! Crimes inéditos, crimes nunca antes cartografados. Enormes! Além mundo. 

Revoluçõezinhas são para pardais! Eu quero é um canhão que faça BOOOM, e depois é só varrer a paisagem e cuspir outra que cheire melhor, que cheire a deserto… ou a bife do lombo. Mil cadáveres não chegariam para encher o buraco de um dente. Portanto o plano é plantar uma meia dúzia de gerações terroristas, daquelas que engolem de estômago roto as falácias da eternidade. Só essa noção de que vai na volta talvez nem se morra, de que nem o fim seja ainda uma possibilidade, é que poderá parir uma guerra digna de se me estalar o verniz. Uma vírgula que enfim me emocionasse até à fome… E aí então eu gritaria: Bravo… Bravo! 

E mexia as mãos assim, ó… Assim…