SEMINÁRIO PENSAMENTO CRITICO CONTEMPORÂNEO E CIDADE



O que é a cidade? Esta talvez fosse a pergunta mais segura para abrir um debate, sobretudo se se pretendesse empreender uma caminhada, naturalmente sinuosa, em direcção a uma definição de «cidade». Um debate crítico sobre o tema terá, porém, de seguir por outra via. Enquanto realidade histórica e global, a cidade está demasiado atravessada por relações, conflitos, tensões, para que, por um lado, seja possível – ou até mesmo desejável – compor um conceito ou, por outro, abordá‐la sem recorrer aos termos que configurariam uma discussão sobre as relaçõessociais, formas de vida, modos de produção e reprodução das sociedades contemporâneas. Nessa medida, talvez a pergunta mais desafiante seja então: como é a cidade? Ou seja, não se pretende tanto desvendar o resultado de uma equação, mas mais observar uma matriz cujos conjuntos de operações se desmultiplicam consecutivamente em novas operações. 

Este seminário procurará pois discutir as múltiplas declinações do «urbano», invocando para o efeito as realidades físicas e as sociabilidades que respondem pelo nome, as designações mais recentes que procuram condensar a sua complexidade interna e heterogeneidade global e as principais tradições intelectuais que directa ou indirectamente fizeram da cidade um ponto nodal de reflexão. Partiremos daí, justamente, de uma cartografia conceptual do urbano e de uma digressão histórica em torno do tema, organizada a partir da complementaridade teórica de paradigmas espaciais e sociais, para uma discussão aprofundada acerca das relações entre cidade e capitalismo; governamentalidade local, participação e movimentos sociais; espaço público, circulação e política; corpo, identidade e cosmopolitismo; e as relações de género no espaço urbano. 

O seminário realiza-se no Ground Floor - Rua dos Douradores nº220 (à Praça da Figueira), no âmbito do programa Novos Públicos e tem lugar nos dia 18 e 25 de Setembro; 2, 9, 16, 23 e 30 de Outubro; das 18h30 às 20h30.


Sessão 1 - «QUE CIDADE É ESTA?».NOVAS TAXONOMIAS DA REALIDADE URBANA E SEUS PRESSUPOSTOS
18 Setembro, 18h30
Oradores - Unipop (Apresentação do seminário) e Carlos Fortuna
Relator - Bruno Lamas

Nas últimas décadas temos assistido ao surgimento de um vasto conjunto de vocábulos que procuram dar conta dos processos e transformações das novas realidades socioterritoriais da urbanização capitalista (cidade difusa, edge cities, cidades globais, cidade criativa, postmetropolis, metapolis, cidade genérica, cidade franchisada, etc.). Com mais ou menos fundamentação conceptual, tais designações evocam metáforas e analogias sedutoras (mecânicas, orgânicas, cibernéticas, etc.) que carregam em si um conjunto de pressupostos sociais, históricos e territoriais, muitas vezes pouco aprofundados, quando não mesmo apenas implícitos. Por detrás de cada vocábulo, do simples nomear e do poder sugestivo da linguagem, encontramos por isso toda uma forma de olhar e pensar a sociedade capitalista contemporânea. Nesse sentido, um«mapa» dessas taxonomias pode ser um bom ponto de partida para um debate crítico mais ambicioso.

Sessão 2 - «O AR DACIDADE LIBERTA?». URBS,CIVITAS E A CIRCUNSTANCIALIDADE HISTÓRICA DO URBANO
25 de Setembro,19h.
Oradores: João Mascarenhas Mateus e Tiago Carvalho
Relator: João Ferrão

«O ar da cidade liberta». Foi assim que ficou conhecido o antagonismo histórico entre o feudalismo medieval e a vida do burgo, cujos limites muralhados terão constituído durante muito tempo um farol de esperança para quem desejava subtrair‐se à servidão. Volvidos vários séculos, é ainda à grande cidade que acorrem todos aqueles que pretendem evadir‐se do jugo damiséria, do fardo da tradição ou pura e simplesmente da falta de horizontes. E se as antigas muralhas que separavam a urbe do campo foram derrubadas, envolvidas ou dispensadas pelo crescimento metropolitano, novas barreirasinternas se levantam, no lugar daquelas, que redefinem de forma material ou simbólica (mas em qualquer dos casos bastante literal) o «direito à cidade». A imagem que temos da posição invertida que, na Europa e no Novo Mundo, centros urbanos e periferias ocupam na vida global da metrópole ou a ideia de cidade informal representam apenas dois entre vários exemplos do carácter circunstancial desta conformação espacial e social. As noções clássicas de urbs e civitas deverão servir pois de pretexto a uma digressão histórica pelo urbano que remeta para as sucessivas e diferenciadas formas físicas que a cidade foi assumindo, para o carácter distintivo das relações humanas que em diferentes épocas a definiram e para asintrincadas correspondências entre estas duas dimensões.




Sessão 3 - A «EXPLOSÃO DA CIDADE» E A TRAJECTÓRIA DO CAPITALISMO
2 de Outubro, 18h30
Oradores: Bruno Lamas e Diogo Duarte
Relator: José Luís Garcia


Há um debate contínuo e fecundo, envolvendo tanto as tradições marxistas como as não marxistas, em torno da relação entre a urbanização moderna e o capitalismo, debate que, como não pode deixar de ser, acompanha o desdobramento histórico do seu objecto, nomeadamente o processo moderno de «implosão‐explosão da cidade» (Henri Lefebvre). Algumas das questões principais que aí têm surgido são: Qual o papel da cidade e do campo na transição do feudalismo para o capitalismo? E como se alteraram as suas relações no quadro de desenvolvimento histórico da urbanização capitalista? Existe ou não uma relação específica ou privilegiada entre capitalismo e cidade? Que relações existem entre o processo de urbanização moderna e o conjunto da reprodução social capitalista? Evidentemente que as respostas a estas questões gerais dependem do entendimento que se tem de «capitalismo» e «urbanização», entendimento que também não pode deixar de reflectir um determinado posicionamento histórico. Agora que a crise de um mundo unificado sob a lógica do capital se mostra também como a crise de um mundo predominantemente urbano, talvez seja este o momento de uma retrospectiva crítica dos termos do debate.

Sessão 4 - CIDADE VS. CIDADANIA: GOVERNAMENTALIDADE, PARTICIPAÇÃO E RESISTÊNCIA
9 de Outubro, 18h30
Oradores: João Seixas e Paulo Raposo
Relator: Giovanni Allegretti

Esta sessão procurará reflectir sobre a actual descoincidência, até mesmo contradição, entre cidade e cidadania. Por um lado, até que ponto os modelos de governança local, não obstante inúmeras tentativas de ir além da representação eleitoral (orçamentos participativos, programas de microfinanciamento local, etc.), passam ao lado de quem realmente faz cidade? Por outro, em que medida é que um sem número de formas de participação e envolvimento comunitário e urbano passam ao lado não só daqueles esquemas de governança mas do próprio espaço público (dito e escrito), dasociedade civil (em sentido estrito, associativo, por exemplo, ou formalizado seja de que forma for) ou sequer da figura domovimento social?

Sessão 5 - PÚBLICO, PRIVADO E COMUM
16 de Outubro, 18h30
Oradores - António Guterres e João Pedro Nunes
Relator - José Neves

A cidade é hoje palco de um intenso conflito entre interesses privados e públicos em que a questão imobiliária e os debates em torno do planeamento, colocando em causa a sacralidade do direito à propriedade, têm assumido particular destaque. Entretanto, a fronteira entre público e privado nem sempre resulta clara,seja porque a questão da privacidade e dos direitos individuais tem sido colocada no âmbito do próprio espaço público (vejam‐se os debates em torno da videovigilância ou da arte urbana) seja porque existem determinados espaços privados, como os centros comerciais ou culturais, que parecem assumir funções de encontro e reunião que antes eram apanágio da rua ou da praça. Ao mesmo tempo, os problemas específicos da habitação, dos chamados bairros de lata aos novos bairros sociais, passando pelos condomínios fechados e pelos movimentos de ocupação de casas, têm colocado as fronteiras entre público e privado em transformação, nuns casos consolidando‐as, noutros atenuando‐as. Em contrapartida, a especificidade que a este respeito define (e a alternativa que representam) os movimentos comunitários(designadamente associativos ou até mesmo informais) que fazem da cidade o espaço privilegiado da sua intervenção permanece ela própria permanentemente ameaçada pelo peso da lógica público/privado, sujeita como está, em virtude da precariedade dos suportes que lhes dão corpo, a lógicas de cooptação institucional por parte dos poderes públicos e a estratégias de gentrificação ao serviço do mercado que, de resto, nem sempre são imediatamente destrinçáveis.


Sessão 6 - O SPLEEN DE LISBOA. A EXPERIÊNCIA SUBJECTIVA DA CIDADE
23 de Outubro, 18h30
Oradores: Sofia Neuparth e Jorge Figueira
Relator - António Guterres

Lugar por excelência da modernidade, desde há muito que a cidade é objecto da crítica de inspiração romântica que deplora o advento da metrópole e a perda do sentido de comunidade que se afirma ser‐ lhe inerente. De forma simétrica, o cosmopolitismo, a densidade e a virtualidade (no seu duplo sentido de potencial e de tecnologicamente mediado) das relações interpessoais nas grandes aglomerações urbanas têm sido celebradas por um veio intelectual difuso que se pode dizer pós‐moderno. De forma mais dialéctica, toda uma tradição crítica tem sublinhado o carácter fundamentalmente ambíguo da experiência individual e colectiva (geralmente masculina e burguesa, diga‐se) da modernidade urbana. A este respeito, a complementaridade conceptual da figura do flâneur, por um lado, e da ideia de spleen, por outro, tal como ficaram fixadas nos poemas de Baudelaire, condensam convenientemente uma oposição teórica entre liberdade e solidão que foi glosada por autores como Georg Simmel, Walter Benjamin ou Herbert Marcuse. Em âmbito mais estritamente académico, uma certa antropologia do espaço tem feito de muitos destes tópicos a razão da sua existência. Estas diferenças, contudo, não parecem invalidar que as linhagens aqui invocadas partilhem entre si um sujeito essencialmente passivo, submetido ao peso exterior do edificado e das sociabilidades consagradas. Seja como for, é esta intuição que justifica que o itinerário que aqui propomos pelas principais abordagens teóricas à relação subjectiva com o urbano seja estendido à «deriva» situacionista e à crítica prática dos que se confrontam por necessidade ou por diversão com os obstáculos físicos e sociais ao usufruto da cidade.

Sessão 7 -  «O SEXO E A CIDADE». AS  RELAÇÕES DE GÉNERO E O PROCESSO DA URBANIZAÇÃO MODERNA
30 de Outubro, 18h30
Oradores: Fátima Orta Jacinto e Paulo Jorge Vieira
Relator: Frederico Ágoas

Se é certo que as estruturas sociais patriarcais são historicamente anteriores à sociedade moderna e mais abrangentes do que as do Mundo Ocidental, também é certo que existem especificidades no patriarcado moderno capitalista e que a este correspondem expressões espaciais particulares, que são hoje tendencialmente globais. Não é por isso difícil constatarmos hoje, num mundo predominantemente urbano, o carácter «gendrificado» do processo histórico de urbanização moderna. Há muito que as críticas feministas da arquitectura e do urbanismo modernos têm chamado a atenção para estas questões, a maior parte das vezes tratadas como secundárias, derivadas ou simplesmente não sérias. Entretanto, diversos estudos empíricos continuam a comprovar as diversas assimetrias entre homens e mulheres nos padrões de mobilidade, uso e organização do espaço urbano, assimetrias que de certo modo parecem atravessar diferenças de classe, «raça» e etnia. De facto, se observarmos os próprios temas das restantes sessões do seminário, é também sem dificuldade que encontrarmos uma clivagem de género atravessando a generalidade dos debates. Propõe‐se por isso uma retrospectiva crítica das sessões anteriores mas, desta vez, à luz de uma perspectiva «gendrificada».