Alejandra Pizarnik: estranho desacostumar-se

Extraño desacostumbrarme
de la hora en que nací.
Extraño no ejercer más
oficio de recién llegada.


Alejandra Pizarnik


Desde que começamos a mover-nos nas palavras de Alejandra, o mundo reaparece na estranheza da aparição, por vezes espectro por outras sombra, Alejandra faz "caminho como espelho" no qual o mundo se reflecte até ao seu desaparecimento, fazendo lembrar uma frase de Kafka do seu diário ( enuncio de memória, a ideia é esta, as palavras não): abro a janela e por todo o lado o vento me enche o quarto, por mais que me procure não me encontro em lugar nenhum.

Aparição que se obscurece, no nosso quotidiano, onde a estranheza de surgirmos de longe se esboroa, e se reduz a um convívio habitual entre coisas conhecidas. "la rebelión consiste en mirar una rosa /hasta pulverizarse los ojos" - Pizarnik trabalha na proximidade do "nada" que floresce, e assim os seus poemas são estas cristalizações de uma luta com a sua própria evanescência. Comecei a citar o poema pelo fim, porque acho que é daí que parte o olhar de Alejandra, pelo menos assim eu o entendo, quando fala do mundo que não treme ( assim como uma árvore treme quando cresce), do mundo que se solidificou, olha-o com o sofrimento de quem não se encontra e se mutila de encontro a ele. O princípio do poema é "una mirada desde la alcantarilla / puede ser una visión del mundo", começa com a violência do esgoto, pois sim, até um olhar que vem do esgoto pode ser uma visão do mundo, a desterrada olha, desde o esgoto, uma rosa até que os seus olhos se pulverizem,habita na distancia, quem não se conforma com a distância, quem se reconhece na dor da distância.

Si mesma, que jamais se conhece como si-mesma, possuída pela palavra, Alejandra vive o dom como uma possessão, "La hermosa autómata se canta, se encanta, se cuenta casos y cosas", quando se torna transparente é quando é levada por um vendaval. um caminho que se faz para além de todas as proibições, onde o espelho se incendeia na inocência de nascer, onde ser espelho é nascer, é ser "ferida", pois na ferida expõe-se o outro, à possibilidade de ser. Alejandra vive na angústia da separação, o tremor do que espera o amor.

Ricardo Norte