MANIFESTO CIDADE CINZA #SP SÃO PAULO OS #GEMEOS #DOCUMENTARY #DOCUMENTARIO



«Uma negra e uma criança nos braços
Solitária na floresta de concreto e aço»
Mano Brown, Negro Drama


À emergência da street art como uma forma legítima de expressão artística, profissionalizada e bem vinda pelos painéis promovidos pelas cidades deste mundo, coincide o aumento da repressão contra a espontaneidade dessa forma artística. A Street Art, na sua forma agora convencionada, também já faz parte da tentativa de uniformizar as cidades. Bem, se calhar a coincidência não é assim tão grande, e o debate alastra-se em várias sociedades, incluindo a portuguesa, onde ainda há pouco tempo o parlamento aprovou uma lei que agrava as penalizações não só para os derivados da Street Art, como para todas as formas não previstas de "decoração" do espaço público. 

Em São Paulo, a selva de "concreto e aço" não só de Mano Brown mas de todo um imaginário cultural, também anda a amanhecer cinza. Cinza dos convénios de etiqueta e higienistas de determinado status quo. Assim nasce Cidade Cinza, um documentário também  em forma de manifesto que regista presença nas salas de cinema do Brasil.


Manifesto Cidade Cinza:

Para: Fernando Haddad e Prefeitura de São Paulo 

Em São Paulo existem 2 tipos de muros: os reais e os imaginários. 

Os muros reais separam os ricos dos pobres, o poder público dos movimentos populares, delimitam o caminho das pessoas privando-as do horizonte. Os imaginários, curiosamente, também separam os ricos dos pobres, o poder público dos movimentos populares, delimitam o caminho das pessoas privando-as do horizonte, só que de outra forma. 

Os muros imaginários nos aprisionam em nossas rotinas e nos impedem de ver que a cidade é feita de gente e não de carros, prédios e viadutos; que a cidade é um suporte para o intercâmbio de experiências entre pessoas; um imenso ninho, um formigueiro, uma colmeia feita de concreto. E a cidade, assim como qualquer outro ninho, formigueiro ou colmeia, é de quem a habita, de quem por ela transita. A rua é de todos, sem exceções, dos donos dos muros aos que moram nas calçadas. 

O documentário CIDADE CINZA nasceu com a intenção de registrar a história de uma das muitas turmas de grafite de São Paulo, mas no meio das filmagens um mural super colorido de dimensões não indiferentes - de quase 700 metros quadrados - pintado exatamente pela turma que registrávamos amanheceu todo cinza. Foi assim que descobrimos que a Prefeitura presta um inusitado serviço nas ruas de São Paulo: pinta de cinza aquilo que, na opinião de seus funcionários, é poluição visual, vandalismo, enfim, depredação do patrimônio público. São empresas terceirizadas, com metas diárias de superfícies a pintar de cinza, cada Subprefeitura tem pelo menos uma unidade de limpeza urbana para chamar de sua. O problema é que debaixo daquela tinta cinza novinha estava uma obra de artistas, assim como debaixo de outros inúmeros muros cinzas pela cidade. 

O grafite paulistano é um efeito colateral totalmente espontâneo da falta de espaços públicos voltados ao lazer, da concentração de renda, do planejamento urbano desassociado da realidade da maioria da população, do abandono do poder público. A negligência do Estado foi exatamente a fenda no muro que permitiu com que jovens da periferia criassem uma identidade visual única, reconhecida inclusive internacionalmente, que mistura técnicas da pintura de rua norte-americana com a cultura regional brasileira. 

Em algumas partes do mundo o grafite é utilizado como um meio para revitalizar áreas danificadas, em outras é perseguido. E podemos afirmar que em São Paulo, terra natal de alguns dos principais artistas do planeta, o grafite é censurado - ora com mais, ora com menos intensidade. Apagarem um mural gigantesco de artistas como OsGemeos, Nunca, Nina, Vitché e Herbert Baglione é somente mais um exemplo de um equívoco que teve início em 2007 com a lei Cidade Limpa, que surgiu com a finalidade de diminuir a poluição visual, retirando os anúncios de publicidade, mas a aplicação errônea de uma lei apropriada acabou por atingir um fenômeno sociocultural genuíno. 

O mural mencionado foi refeito em 2008 por OsGemeos, Nunca, Nina, Finok e Zefix, mas a política de limpeza visual iniciada na gestão de Gilberto Kassab segue a mesma no mandato do atual prefeito Fernando Haddad. A administração municipal nega ação deliberada contra o grafite, mas obras continuam sendo apagadas. Em um momento em que a Prefeitura dispõe-se a dialogar sobre a ocupação do espaço público, se faz necessário que as autoridades compreendam que o grafite é um ativo de São Paulo. 

O filme CIDADE CINZA diz não à Política do Cinza e reforça o coro dos movimentos sociais ao poder público: a sociedade já está ocupando de forma criativa a cidade, além do grafite nos muros, diariamente hortas comunitárias são criadas, as bicicletas tomam as ruas. Assim, cabe às autoridades fundamentalmente não atrapalhar essa ocupação, e quem sabe até facilitá-la. Através de iniciativas da própria população, cada vez mais os espaços públicos redescobrem a sua vocação efetivamente pública. O grafite não precisa ser apadrinhado, precisa simplesmente que parem de pintar a cidade de cinza. 

Chegou a hora de discutir o uso que fazemos de São Paulo e as contrapartidas que ela nos oferece. A cidade não precisa ser tão cinza, a Prefeitura tem que parar de apagar o grafite nas ruas e investir estes recursos em lacunas básicas em nossa sociedade: educação, saúde, transporte, etc. Se você concorda com a gente, se você também deseja uma cidade mais colorida, precisamos da sua assinatura para pressionar as autoridades responsáveis. Cultura não se apaga. 

Prefeitura de São Paulo, pare de pintar os muros da cidade de cinza! 
DEBAIXO DE UM MURO CINZA EXISTE AMOR PELA NOSSA CIDADE

Assine a petição AQUI