EUSÉBIO EM ARGUMENTOS #eusebio #leiturasemdia



Durante o dia de hoje (09/01) fez-se um mural no Bairro da Cova da Moura em homenagem a Eusébio. Os actos de homenagem vão-se sucedendo, entre o simbólico e expressões de um quotidiano emocional. As interpretações são múltiplas. Nos últimos dias, a Stress.fm, através do canal feed.stress.fm, foi recolhendo e arquivando informações sobre Eusébio e as opiniões, julgamentos e dissertações que a sua morte desencadeou. 
Deixamos aqui algumas dessas referências.





Before Eusebio, it had been unthinkable for a European national team to be dominated by players of African origin 


(...)


the imagined community of millions seems more real as a team of eleven named people." And that allows it to represent a more inclusive image of the national idea, as in the case of France’s 1998 World Cup victory with a team dominated by black and Arab players. But it was Eusébio and his Mozambican, Cape Verdean and Angolan teammates that first gave a European country a different image of itself on the football field.” 


(...)


“And few people know that Madeira, where Cristiano Ronaldo was born, is effectively an African island.”






O desejo de alguns académicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. "


(…)


"O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 60 a sua glória serviu a defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi esta que serviu de justificação à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até aos nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado, ajudando a reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.”


(...)


“Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da “situação”, enquanto elemento da narcotização do povo”

(...)

“As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Este enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual colectiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 60. Em Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colónias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à selecção nacional.” 


Nuno Domingos in Publico via Entre as brumas da memória





"I’m black…
They never let me forget it..
I’m black alright..
I’ll never let them forget it”


“o Eusébio devia ficar num cemitério. onde as pessoas possam deixar cachecois, tocar viola, beber cerveja, cantar, jogar à bola, grafitar a campa com mensagens de amizade, dormir, chorar, gritar… não num museu de ossos onde das 9h às 17h apenas se pode estar calado… o panteão não glorifica os mortos, glorifica a nação… mas enfim…”


utilizador de facebook conhecido como João Matos



“In the photo, Eusébio bears a facial resemblance to Desmond Tutu, the South African human rights campaigner. And there is significance in Eusébio, born in Lourenço Marques, Mozambique, becoming so loved, and now so mourned, in the southern African countries former colonial ruler, Portugal.”


(...)


“Benfica was not the Lisbon team he admired from afar, but it, rather than a rival club, Sporting, made his mother an offer (a pittance worth a few thousand dollars by today’s standards). It was an offer one of Eusébio’s brothers insisted the club double — and no contest, since Sporting made no financial offer at all, trying to insist instead that the fledgling player was bound to it by virtue of playing for a Mozambican feeder club in his boyhood.”






"What I do say is that people have a healthy appreciation of situations in which they are being oppressed or exploited, that this appreciation holds steady across cultures, and that it generates reasons for action. This is why what we typically see is what James Scott called “everyday forms of resistance.”



Postcolonial theorists have to stop insisting we choose between the universal and the particular. 





"A nacionalização de Eusébio é, desde logo, uma matéria tensa. Eusébio faz parte de uma narrativa nacional portuguesa imperial e pós-imperial. Esta, vista por muitos como um encontro cultural, foi, na verdade, e apesar de uma inegável história em comum, erguida pela violência, pela exploração e por relações de poder radicalmente desiguais. Tudo questões de índole pouco comemorativa que não interessam à moderna diplomacia económica, legitimada por uma ideia de lusofonia global mais preocupada com os negócios do que com a vida das populações." 

(...)


"Quarenta anos depois do 25 de Abril, a permanência de algumas classificações sociais, que se erguem enquanto normas de comportamento ideais, revelam como perduram as representações de um certo povo imaginado pela elite, um povo que é bom por ser simples, humilde e conformado. ”


Nuno Domingos in Publico


"Declaração de interesses: Nunca me senti honrada por, durante muitos anos, no estrangeiro, ao saberem-nos portugueses, nos falarem imediatamente de Eusébio. Pelo contrário: sempre achei que era uma humilhação mais que nos era inflingida por uma ditadura que perseguira a sua inteligentzia e reduzira a vida cultural portuguesa aos 3 Fs de Fátima, Futebol e Fado. Parecem-me, também, exagerados os três dias de luto nacional decretados pelo Governo a propósito da sua morte. Mas nada disto tem a ver com a pessoa de Eusébio, apenas com a forma como outros utilizaram o seu nome, o abuso que dele fizeram."


Diana Andringa in Antena 1 via Entre as Brumas da Memória

Continuar a acompanhar em