O que se está a acontecer na cidade de Hamburgo: Exemplo para uma vaga repressiva?

Tradicionalmente, Hamburgo é a cidade dos comerciantes, uma cidade rica e burguesa, orgulhosamente chamada pelos inúmeros patriotas e pacatos turistas, “a porta de entrada do mundo”. Mas Hamburgo também é uma das cidades alemãs que mais sofre crescentes tensões sociais e frequentes ataques às classes mais desfavorecidas economicamente.

Actualmente, agravam-se vários conflictos, todos eles relacionados com a questão do direito à cidade e com a política xenófoba do regime europeu de migração.

Estes conflictos são: 
 
1) A situação legal do Rote Flora, um dos centros culturais autónomos mais antigos da Europa e ainda hoje em estado de ocupação.

2) O acelerado processo de gentrificação (ou enobrecimento) de toda a cidade, processo que levou à expulsão de uma grande fatia da população pobre dos antigos bairros operários no centro da cidade, como St. Pauli, (onde se situa o Rote Flora), mas também a Reeperbahn (zona de bares, discotecas e de prostituição legal).

3) A miséria de um grupo de imigrantes africanos (à semelhança de milhões que lidam com este regime em toda a Europa) que, vindo da Líbia, chegaram à união europeia (UE), passando pela ilha Lampedusa.

Lampedusa em Hamburgo”

Por motivos de cronologia, começa este relato com os acontecimentos relacionados com o grupo de imigrantes chamado Lampedusa em Hamburgo.

A situação destas 300 pessoas demonstra claramente o fracasso e o cinismo do regime de migração europeu que foi estabelecido, entre outros, através do chamado sistema Dublin II, regime que pressupõe)que qualquer refugiado que entre na UE tem que se manter obrigatoriamente naquele país por onde entrou originalmente na Europa. 
 
O grupo “Lampedusa em Hamburgo” chegou  a Itália numa travessia mortal pelo mar mediterrâneo e, poucos meses depois, foi mandado para Norte pelas repartições do estado italiano, que não se sentiu capaz de lidar com a crescente migração. Ou seja trata-se de imigrantes que obtiveram o direito de estadia em Itália mas que se encontram em Hamburgo desde Abril de 2013,  sem perspectiva, sem refúgio e sem apoio social. 
 
O grupo está actualmente a exigir asilo humanitário ao Senado de Hamburgo por oposição ao exigido regresso a Itália,  apelo ao qual o governo de Hamburgo respondeu em Outubro de 2013, poucos dias depois da morte de centenas de refugiados nos naufrágios trágicos perto de Lampedusa, com rusgas e expulsões. 
 
Desde então, semanalmente, tem havido manifestações e acções [Critical Mass, por exemplo] contra as rusgas racistas da polícia de Hamburgo e a favor do asilo humanitário para todo este grupo em lugar do asilo individual que, devido ao sistema Dublin II, automaticamente leva à negação de asilo e à consequente expulsão para  Itália. De uma maneira geral estas manifestações têm sido espontâneas e sem qualquer pedido de autorização às autoridades, uma vez que tais pedidos são continuamente rejeitados pelo governo, que procura salvaguardar o centro da cidade de qualquer manifestação, especialmente em temporada de consumo natalício. 
 
Houve duas manifestações significativamente grandes. Uma delas formou-se espontaneamente depois de um jogo de futebol da equipa do St. Pauli, reunindo cerca de dez mil manifestantes no bairro de St. Pauli/Reeperbahn. Uma outra manifestação - desta vez anunciada e convocada em todo o país - reuniu cerca de 15 mil pessoas. Ouviram-se lemas como “Toda a cidade detesta a SPD” [A SPD, o chamado Partido Social-Democrata da Alemanha, forma o actual governo de Hamburgo.Não se deve confundir com o PSD em Portugal, mas é equivalente ao PS...], “Ninguém é ilegal – direito de estadia em qualquer lugar” ou “No border no nation – stop deportation”. Depois desta manifestação massiva, que certamente surpreendeu o senado de Hamburgo, e depois de várias semanas em que a polícia teve que trabalhar horas extraordinárias devido às inúmeras acções espontâneas, as manifestações continuaram mas já sem grande eco nos media. Aparentemente, houve uma táctica da parte de partidos politicos e dos media de omitir o verdadeiro grau de discordancia e frustação das pessoas. A resolução dos conflitos foi entregue exclusivamente às forças policiais.

As Casas Esso

Esta estratégia observa-se também em relação à actuação do governo no processo de gentrificação, uma estratégia de negação de qualquer dimensão política e económica e de omissão total do conflicto, através de uma repetitiva referência a questões puramente burocráticas e “neutras”. 
 
O despejo das chamadas Casas Esso, na Reeperbahn, foi o principal motivo que voltou a gerar graves tensões no bairro de St. Pauli. Estas casas, construidas nos anos 60, são (ou melhor, eram) dos últimos prédios de renda baixa na zona da Reeperbahn. À sua volta, onde antes existia uma antiga cervejaria e bares vanguardistas, ergueram-se nos últimos três ou quatro anos arranha-céus com escritórios e grandes hotéis de luxo. Também nessa altura, as Casas Esso foram vendidas a um investidor imobiliário que - tal como o anterior proprietario - não investiu no edifício, apostando simplesmente no aumento do valor do lote. 
A cidade sabia do mau estado do prédio, mas ninguém pressionou  o seu dono para que o edificio fosse renovado. Pelo contrário: numa noite de Dezembro de 2013, os moradores do prédio foram desalojados devido ao perigo de desmoronamento consequente das dezenas de anos de especulação imobiliária. Os cerca de 100 moradores foram obrigados a ficar em tendas tendo sido privados dos seus objectos pessoais. Julga-se que o investidor (uma empresa chamada Bayerische Hausbau) vai avançar no início de 2014 com o projecto de um prédio construido de raíz, com rendas bem mais elevadas.

O Rote Flora

A renovação das chamadas Casas Esso e a expropriação da empresa Bayerische Hausbau foram os principais alvos das reivindicações previstas para a grande manifestação internacional agendada para o dia 21 de Dezembro de 2013. Mas outras exigências seriam levadas para essa manif: mudança total da política racista em Hamburgo e na Europa, asilo humanitário para o grupo “Lampedusa em Hamburgo” e a defesa do centro cultural autónomo, Rote Flora.

O Rote Flora foi ocupado em 1989 para evitar a construção de um teatro de revista. Desde essa altura é um importante factor de resistência e crítica radical às realidades capitalistas na cidade [e, de certa maneira, um dos factores que contribuiu para a atractividade do bairro e, assim, talvez tenha aberto a porta , indirecta e inadvertidamente, para o início da gentrificação]. 

Em 2001, em plena campanha eleitoral, o governo social-democrata vendeu o edifício a um investidor privado de maneira a evitar críticas por parte dos partidos da direita. Foi elaborado um contracto que obrigou o investidor Klaus-Martin Kretschmer a aceitar que o edificio fosse usado enquanto centro autónomo durante um período de dez anos, e a consultar as autoridades antes de qualquer venda do terreno. 

Desta maneira, a cidade conseguiu descartar-se de qualquer responsabilidade para com aquele espaço e, a médio prazo, a polémica acerca do Rote Flora acalmou. Ao contrário do que se passava anteriormente, com o passar do tempo, as próprias forças politicas mais conservadoras deixaram de ver o Rote Flora como o inimigo público numero um. 
 
Foi nesta fase de aparente calma que o novo proprietario do edifício fez saber que pretendia despejar o Rote Flora para construir uma sala de concertos. O senado (outra vez social-democrata) e as autarquias locais apressaram-se a criar um decreto para impedir que alguém pudesse fazer lucro com o lote, demonstrando a sua política supostamente apaziguadora. Talvez ingenuamente, nessa altura pensou-se realmente que as forças políticas consideravam mais importante a paz na cidade do que cumprir a lei e protejer a propriedade privada. [Entretanto, o presidente da Câmara Municipal de Hamburgo, Olaf Scholz, propôs ao dono voltar a comprar o edifício. A proposta foi rejeitada.]
 
Só que o dono continuava decidido a despejar o Rote Flora. A contrapartida que oferecia aos inquilinos do edificio era uma renda mensal de 25.000 euros . Fez vários anúncios nos media que não deixavam dúvida alguma em relação ao agravamento da situação [Entre outros avisos algo absurdos, o senhor Kretschmer tentou impedir um concerto dos Fettes Brot – uma banda de Hip-Hop de Hamburgo, famosa em toda a Alemanha – e, embora contasse com 5.000 euros para que o evento acontecesse, a banda rejeitou e o concerto tornou-se numa espécie de manifestação festiva, com som e projecção de imagens na praça pública em frente ao Rote Flora.]. 

Na verdade, desde a manifestação do 21 de Dezembro 2013, parece que o próprio Senado tem o mesmo objectivo de escalada. Entre o investidor privado e ocupas “radicais”, o governo aparentemente quer mostrar-se como única força capaz de garantir a ordem civil e uma política “razoável” e “democrática”.

O que aconteceu na manifestação do 21 de Dezembro:

Na manhã de 21 de Dezembro de 2013, cerca de 10.000 manifestantes vindos de toda a Alemanha e de países vizinhos reuniram-se para uma manifestação anunciada e aprovada que procurou denunciar a política racista e neoliberal do governo hamburguês e defender o Rote Flora contra as ameaças de despejo. 
 
Segundo os media, a manifestação contou com um bloco de cerca de 4.000 autónomos do chamado Black Bloc. Embora a mesma tenha sido antecipada por uma campanha mediática (e da parte dos organizadores da manif) alertando para o alto risco de motins, não se esperava que a polícia atacasse a manifestação logo no início. A expectativa era que o objectivo mais importante da polícia seria evitar que alguém entrasse no centro da cidade, perturbando o consumo de Natal. De facto, parece que esse não foi o objectivo central do governo. O objectivo parece ter sido simplesmente não aceitar qualquer manifestação.

A marcha tinha avançado pouco mais de 50 metros quando um batalhão da polícia e um canhão de água avançaram rapidamente de maneira a retêr aquela massa de gente, ainda antes desta sair da praça em frente ao Rote Flora. Mais tarde, a polícia declarou que teve que parar a manifestação por ter sido atacada com garrafas e pedras. Na internet, porém, encontram-se vários documentos que provam o contrário: os manifestantes começaram a defender-se só depois de terem sido parados e ameaçados pela polícia. [ver videos]


Sem que tenha havido qualquer agressão por parte dos manifestantes, as autoridades começaram a atacar a manifestação simultaneamente por trás e dos lados. Passados 40 ou 50 minutos, a polícia tinha bloqueado praticamente todos os manifestantes, situação que se prolongou por várias horas. Ao mesmo tempo, várias centenas de pessoas que tinham conseguido fugir do cordão policial deram início a manifestações espontâneas em diferentes zonas da cidade. Tentou-se ocupar as Casas Esso, atiraram-se pedras a hotéis de luxo, bancos, sedes do SPD e a repartições administrativas da cidade. [A lista provisória dos prejuízos inclui: janelas e montras destruídas em vários bancos, supermercados e pelo menos quatro hotéis de luxo, assim como em várias sedes dos Sociais-Democratas e das repartições da cidade. A comunicação social contou cerca de 500 manifestantes feridos (20 deles com gravidade), 120 polícias feridos e cerca de 260 detenções]

E agora?

Para alguns o balanço da batalha de dia 21 de Dezembro é neutro, outros sublinham o facto de uma manifestação marcada e autorizada ter sido impedida pela polícia e o facto de ter implementado um estado de emergência permanente.

De facto, é surpreende a energia decisiva dos manifestantes que se defenderam durante várias horas contra os ataques da polícia, utilizando para tal quaisquer meios que estavam ao dispor. A total limpeza da praça (seguida do bloqueio das massas) demorou cerca de 50 minutos. Paralelamente, o facto da polícia se organizar em grupos relativamente pequenos para atacar os manifestantes levanta dúvidas sobre se o objectivo principal da polícia era realmente despejar a praça ou simplesmente criar um confronto directo com os manifestantes, causando o maior dano possível. Alguns vídeos na Internet mostram esta batalha na praça, que certamente impõe respeito. Uma óptima sinopse dos ataques e contra-ataques nas diferentes fases da batalha e nos diferentes sítios da ampla praça (como se vê, com ataques tanto ao chamado black bloc como aos grupos mais pacifistas) pode ser vista aqui, aqui, aqui ou aqui. Fotos aqui, aqui e aqui.
 
Agora resta saber que influência terão estes acontecimentos no discurso público e político; resta saber se as denúncias excitadas da “violência” dos “autónomos” levarão ao fim dos protestos ou se a atenção pública se irá manter ou aumentar, de maneira a pôr em causa a política racista e neoliberal em Hamburgo.

O facto da força da presença das pessoas nas ruas ser limitada, acrescendo o facto de nem todos os fins de semana aparecerem milhares de "autónomos" para protestar em Hamburgo, deixa que as perspectivas se afigurem negativas. [A polícia já se tinha revelado enquanto força política quando declarou toda a zona do centro da cidade como uma “zona de risco”, podendo a partir de então controlar, revistar e expulsar qualquer pessoa “arguida” nesta zona sem ter que argumentar qualquer justificação – medida que, na realidade, a polícia de Hamburgo utiliza frequentemente desde há alguns anos. Entretanto, um misterioso ataque a uma esquadra, supostamente o terceiro em poucos dias, foi o pretexto para que a polícia declara-se no dia 4 de Janeiro todo o bairro de St. Pauli e arredores como “zona de risco”(gefahrengebiet). Segundo a comunicação social, só nas primeiras 24 horas do levantamento desta “zona de risco” foram revistadas cerca de 200 pessoas e 70 pessoas foram expulsas da zona! Este mapa mostra a imensa extensão desta “zona proibida”]

Para acabar, segue uma mensagem do Rote Flora:

Thank you! 

Even if the demonstration couldn't take place in the favored way, we want to thank you all for coming and taking part in our protest.
We are thrilled, that so many people showed their solidarity with us, the refugee-movement and the inhabitants of the Esso-Houses.

Especially we want to show solidarity with the many injured and arrested people. We have great respect for your withstand to the cops brutality and that you did not let you daunt.
We are thrilled, that our accomplices of Recht auf Stadt (Right to the City) succeeded to keep on holding the Schulterblatt that long and even managed to hold a spontaneous manifestation in the near of the Esso-Houses.
Alike a big gratitude to the people, who were in the inner city and those, who used the whole area of the city to express their protest and their displeasure.


Our special gratitude to the groups who supported this day (legal team, medics and prisoner-support) and made it possible to organize.

We will keep on! Flora stays!

House-Assembly of Rote Flora, 12-23-13”