De pé a noite inteira para ter sorte




O ano de 2013 pode não ter sido revolucionário em termos musicais, mas foi um ano que deu muitos frutos, ainda que discretos. Tivemos direito a canções inteligentes e belas como as da galega Cate le Bon, das islandesas Emiliana Torrini e Ólöf Arnalds, ou da jovem inglesa Laura Marling, com o seu folk-que-vem-das-entranhas. Devendra Banhart, Valerie June, Volcano Choir, Matthew E. White, Kurt Vile, Junip, Big Scary, Midlake, Local Natives e The Dodos também merecem destaque, assim como os ingleses Daughter. O trio actua em Hong Kong a 20 de Fevereiro, juntamente com King Krule (Zoo Kid), que nos trás o seu rock inglês e voz de crooner “à desgarrada”.

No Rock, retornos muitos bem sucedidos dos Nine Inch Nails (embora tecnicamente Hesitation Marks seja música de dança), dos brasileiros CSS, dos Yeah Yeah Yeahs (deliciosa a actuação da banda no “Late Show” de Letterman, com Karen O de fato amarelo e acompanhada por um coro de gospel),  e dos Arcade Fire, que se juntaram a James Murphy (DFA/LCD Soundsystem) para nos trazerem um álbum rock com um pé na pista de dança. Da geração mais velha, Elvis Costello foi o que mais se divertiu, criando com os The Roots um conjunto engraçado de canções que se ouve mesmo muito bem. Outra colaboração que deu que falar em 2013 foi a de Thom Yorke (Radiohead) com Flea (Red Hot Chilly Peppers) em Atoms for Peace, excelente projecto que fez ressair o melhor de ambos. E talvez menos conhecida, mas não menos louvável, foi Darkside, parceria entre o produtor Nicolas Jarr e o guitarrista Dave Harrington, que tocam em Hong Kong a 8 de Abril.

Em Breathe, a inglesa Anna Calvi continua fascinante, e o rock feminino, de resto, esteve em forma em 2013, com bandas como Chastity Belt, Thao & the Get Down Stay Down, Marnie Stern e Chelsea Wolf a darem provas disso. Até Julie Ruins, ex-Bikini Kills/Le Tigre e grande referência do Punk dos anos 90, se juntou à maré “feminista”.

Os americanos Vampire Weekend voltaram animados como sempre, e os MGMT tornaram a desiludir os fãs dos êxitos pop como “Kids” ou “Time do Pretend” ao enveredarem ainda mais pelo psicadélico, que é, afinal, a paixão dos rapazes. Acabou o tempo de fingir, decididamente. Psicadelismo foi uma das palavras-chave de 2013, e temos muitos exemplos de rock que se perde em si próprio – Of Montreal, Goat, Girls Names, TOY, ou os nova-zelandeses Unknown Mortal Orchestra – que estiveram em Hong Kong a 21 de Janeiro, com os “nossos” Turtle Giant a abrirem o concerto no Grappa’s Cellar. Outros álbuns de rock interessantes são os de Jackson Scott, que repega na estética grunge dos anos 90, dos Foxygen, com o vocalista a soar a um jovem Mick Jagger, e dos San Fermin, que por vezes fazem lembrar Sufjan Stevens.

Daquela bela fatia da música contemporânea a que chamamos “pop com música electrónica”, há sempre o Tricky, que volta com “mais do mesmo”, embora o “mesmo” continue a ser bom. Na micro-electrónica, há os agudos estridentes de Baths ou a delicadeza dos Blue Hawaii e Braids, ambos liderados pela voz cristalina da canadiana Raphaelle Standell-Preston. Julianna Barwick continua magistral na exploração dos seus “coros de igreja”. Hyetal, Nosaj Thing, Gold Panda, Mount Kimbie, Lapalux, Moderat, Toro Y Moi ou os mais orquestrados Son Lux são outras boas sugestões.

Para quem aprecia algo mais experimental há o genial Loud City Song de Julia Holter, e também Wed 21 da argentina Juana Molina, que tocou para uma mão cheia de pessoas no Festival Clockenflap em Hong Kong no fim do ano passado. Uma má escolha da organização tê-la posto a tocar tão cedo… Thundercat é outro nome a reter: na fronteira entre o Hip Hop, a Soul e o Jazz, Apocalypse conta com a produção de Flying Lotus, e é capaz de ser um dos álbuns mais curiosos de 2013.

Da Soul, imperdível o último trabalho do inglês Jamie Lidell, que deve ser o único homem branco no planeta a conseguir reinventar o R&B à Bobby Brown, recorrendo para isso a boas doses de funk bem “mexida”. Falando em “mexido”, 2013 foi excelente para a dita “música de dança”, e não foi pelos Daft Punk terem ganho cinco Grammys e posto toda a gente a trautear o refrão de “Get Lucky”.

Em 2013 saíram álbuns “electrónicos”como já não se via há algum tempo. Com Vapor City, o americano MachineDrum volta a mostrar o seu domínio das sonoridades mais actuais da chamada Base Music, com toques sóbrios de Footwork e Glitch Hop. O inglês John Hopkins com o seu Immunity revitalizou o Techno Minimal e Progressivo com uma viagem sonora poderosa e madura, e também bastante inovador é o álbum de Jackson and His Computer Band, que brilha em todas as direcções com Glow. Um ano em grande tiveram os novatos Disclosure, que pegaram nas origens da House inglesa e criaram muitos dos êxitos do verão. Mas a jóia da coroa britânica foi Overgrown de James Blake, que recebeu o prémio Mercury e foi eleito por muitos como o álbum do ano. (E é a Blake que dedicamos a próxima crónica, depois de este ter tocado em Hong Kong no passado dia 23.)

Rita Gonçalves