DE VOLTA AO PURGATÓRIO #narrativadacidade #capadasemana


I

De Arroios, nascido e criado, perto da sua fronteira, como convém, para travessias e transgressões. Ficam para trás as transformações aceleradas da Baixa, fica a distância e o espaço de racionalização criado, para ainda olhar para ela com preocupação. Ainda assim, solidário com a psicose dos que ficam.

De volta ao Purgatório (deixo à vossa estima decidir onde pára o céu e o inferno desta cidade), talvez por dois anos, o tempo que agora demora a cavalaria a bater à porta, até ter que subir: duas, quatro, seis, estações de metro, até a linha extinguir-se.

II


Porta para Oriente; ligação entre o planalto e a parte baixa da cidade; intersecção entre povo, aristocracia e burguesia; Arroios é transição e, para que não haja repetições: um espaço de purificação ou castigo temporário


Para os mais distantes, o sítio era pouco mais do que o Convento de Nossa Senhora da Conceição, onde se afirmava ou negava o bacilo de Koch. Os de cá, percebem como a caminho de Sacavém pariu-se a Morais Soares, alguns lembram-se das consequências póstumas de Ressano Garcia, da migração dos ciganos da Calçada do Poço dos Mouros para o Alto Varejão,  das homenagens pagas pela República do Chile, da fuga do Neptuno para a Estefânea .

Há ainda quem tenha visto o filho do Sr. Taveira, agulheiro da Carris do Arco do Cego, a cirandar todo de branco que nem herói pelos salões de jogos de Arroios, e a conspirar com os amotinados da Casa de Estudantes do Império contra o regime. E talvez por isso, as mãos de Tomás, mais do que uma promessa no bilhar, tridimensionaram  parte da cidade de Lisboa. 

Responsabilidades de Arroios?

Ribeira esquecida que desagua num golfo agora inexistente, Arroios não perde seu nome, não lhe acontece como ao sítio onde se depositava a Palha Vã da cidade, por mais homenagens que ofereçam. Tem demasiada cultura própria.