A colónia e as férias


O desacordo entre arqueólogos e outros amantes do passado ganhara um novo inimigo.

Em Abril de 2014, numa quase humilde mas inequívoca nova demonstração dos seus poderes soberanos, o Google anunciou a possibilidade de viajar no tempo. Através das imagens de rua com que a inteligência de Mountain View espelha o planeta, tornou-se possível visualizar o antes e o depois de um crescente número de lugares mapeados a luz. Os desastres naturais, os encontros fortuitos, os momentos secretos e os rostos surpreendidos capturados pelas cameras móveis deixaram de ser apenas superfícies planas no universo digital: ao espaço conquistado e descoberto o Google acrescentou a dimensão temporal. A limitação da viagem e a falta de precisão e continuidade desta máquina do tempo assombraram o anúncio, mas não são assim todos os nascimentos digitais? Quase patéticos na sua ambição altruísta, quase inofensivos nas suas promessas desmedidas.

A notícia foi saudada pelo século com a mistura habitual de espanto e esquecimento. As banalidades milagrosas continuaram a suceder-se e apenas os pequenos grupos de profissionais e amantes da história ousaram ver nas novas capacidades um instrumento de pesquisa e justiça, uma ferramenta para esculpir evidências do que o quotidiano e as versões oficiais insistem em apagar da memória.

No sul, os últimos anos haviam sido de arrojo, velocidade, incredulidade, choque e profunda mudança. Um registo visual da evolução das cidades permite uma argumentação sobre a política e o movimento do capital que não cabe nas longas guerras de palavras. A desolação e o entusiasmo, quando vistos, falam por si. O Google confrontara os incrédulos com uma prova irrefutável da existência do passado.


Passou algum tempo antes de se ouvirem os primeiros relatos das anomalias.

Era há muito sabido que o ajustamento estrutural Europeu fora importado de outras décadas e de outros continentes. O regime da Austeridade, à semelhança do Google, produziu uma distorção no tecido espaço-temporal e estilhaçou o presente em inúmeras simulações de uma história social feita de ciclos alternados de  crise e protesto. A imersão total da viagem transportou a Europa para o que à primeira vista parecia uma repetição ensaiada das relações de protectorado que uniram o sul e o norte durante várias décadas, que definiram as condições da luta pelo futuro e seus eventuais vencedores.

As anomalias começaram por revelar as discrepâncias entre a simulação e a sequência original dos acontecimentos: os ciclos disciplinares aparentavam ser mais longos, as redes antagónicas produziam efeitos colaterais benéficos e inesperados, as cidades prosperavam apesar da infâmia. Uma análise escrupulosa dos modelos de arquivo demonstrou a existência de vários paradoxos circulares e de uma série de inconsistências no regresso ao normal. A ruína inevitável do regime era continuamente adiada por novos dados, por acordos antigos subitamente accionados numa versão paralela da realidade.

A conclusão tornou-se óbvia. O mundo-espelho, da Califórnia à Europa, expandia-se nas duas direcções do fluxo temporal. Ao indexar e visualizar o passado com detalhes exponenciais, o Google ganhara a pouco e pouco a capacidade mágica de prever os próximos minutos. A simulação da história era apenas um treino preliminar para o oráculo. Da mesma forma, pelos mesmos meios, a Austeridade simulou a terapia de choque como forma de entreter e aprisionar os arqueólogos e os seus debates numa repetição infindável. Aos poucos, dotado da capacidade técnica para recomeçar os dias, o regime passou não só a controlar a história como também a ter residência fixa nos próximos minutos.

Um inimigo que conhece o futuro não pode ser vencido.