AS CHEIAS EM OBRENOVAC #serbia



Mais de um mês passou, mas em Obrenovac (Serbia) parece que as cheias foram ontem. Ao descer do autocarro, somos envolvidos pelo odor da humidade e por terrenos pantanosos. Camiões militares percorrem as ruas cheios de entulho, roupa e objectos perduram no topo das árvores, e a descoberta da impossibilidade actual de alguém dormir numa casa que tenha portas, janelas e telhado. Uma nova forma de relento.

Seus habitantes reportam à experiência de pós-guerra, das várias tidas, num esforço individual e colectivo de reconstrução. Carrinhos de mão, mangueiras, carros particulares; tudo serve, assim como estar numa cadeira ao lado da devastação para contemplar, abstrair, intervalar ou apenas desistir.

O voyeur interrompe o quotidiano ou não, porque o esbracejar seguinte parece treinado e regular. Ser testemunha também parece formar parte da construção quotidiana, e a cada esbracejar terminamos dentro de uma casa, a tentar ouvir e é-nos pedido para capturar o melhor momento possível. 

Na desgraça, e na certeza do devir de cada um na reconstrução, evoca-se a culpa. As últimas grandes cheias em Obrenovac foram em 1981. A partir desse ano foram construídas barragens de contenção, esgotos canalizados; e na promessa desse progresso continuou-se a construir onde a natureza não permite.

O crédito da culpa cai nos políticos, representantes da promessa e que até ao último momento confiaram na inviolabilidade da tecnologia, não avisando do que aí vinha. Trinta caíram no Sava, muito rotinado a sair das suas margens.



Algumas imagens da situação em Obrenovac: AQUI