MICROSSULCOS #4 - TRILOGIA DA HISTÓRIA DO JAZZ - PARTE I: O SUL


Começámos este show com entrada de conveniência análoga ao 25 de Abril, recordando diversos discursos e músicas que marcaram esse tempo. Demos lugar ao Samba, e começamos a marcar as manhãs com Jazz. Assim, e antes de ir mais longe com associações sentimentais que marcam o quotidiano, lembramo-nos de aproveitar o acervo de discos da Stress FM para contar em três programas separados a história do Jazz.

Mais do que Jazz, este primeiro programa da trilogia - O Sul - tenta retratar o ambiente musical importante para a sua criação, do campo à cidade.

Jazz enquanto estilo feito aparece associado a Nova Orleãs, cidade que concentrava alguma da aura expressiva para as culturas descendentes dos escravos, uma capital cultural para todo um ambiente.

New Orleãs foi com uma meca para os que se libertaram da escravatura, muitos a procuraram para se estabelecerem no seu centro crioulo. Mas as inspirações que sintetizaram a origem do Jazz nessa cidade estão intimamente ligadas aos locais de origem dos seus migrantes.

As dinâmicas associadas ao extenso "sul": colónias penais, plantações, igrejas evangélicas; foram responsáveis pela aparição tanto do Jazz como do Blues.

Apesar do tratado colonizador, que forçou a separação completa dos escravos com o seu continente de origem e ancestralidades associadas; os músicos do sul, através da utilização de instrumentos do folk e da voz; conseguiram introduzir espiritualidades, melodias e ritmos que reportam às suas origens.

No princípio do século XX, as composições da música afro americana iam para o mercado sob o carimbo de "Race Records", especificamente para satisfazer as "necessidades musicais do negro". As editoras discográficas usavam uma numeração diferenciada para separar as gravações "legitimas" e as de "raça". Todas as músicas compiladas neta edição do Microssulcos foram editadas no seu tempo enquanto "Race Records".

Playlist

Ducking and Dodgin - Uma das coisas que não mudou neste último século é a Penitenciaria de Angola nos EUA. Titulada anteriormente como Colónia Penal, o espírito mantém-se. No princípio do século XX, já se faziam registos das músicas aí produzidas. Duckind and Duging é uma música sobre infidelidades, em que "boogy" aparece como metáfora para fazer amor.

Ol´Hannah - Música de Trabalho cantada por Doc Reese a partir das Brazos Bottoms do Texas, deriva das tradições musicais das plantações de escravos. 

Penitentiary Blues - De East Texas, Bessie Tucker canta este blues relatando as estórias da pobreza, prisões; a insegurança do amor e da vida.

Dry Bones - Sermão improvisado do Reverendo J.M. Gates, com a participação da sua congregação, numa igreja de plantação. Nascido em 1884, J.M. Gates liderou a congregação baptista de Rockdale Community em Atlanta (Georgia) durante 26 anos. Seus sermões eram frequentemente gravados, e chegaram a representar 1/4 de todas as gravações do género.

I Can´t Feel at Home in This World Anymore - Emma Daniel e Mother Jones formavam um duo de rua em Atlanta e cantavam gospel aludindo a espíritos do tempo da escravatura.

38 Slug - Tocado por Jim Jam Band, "38 Slug" é inscrito na categoria Penitentiary Blues, que inclui descrições e histórias de homicídios.

Blues For Lorenzo - De motivo crioulo, é apresentado pelo Omer Simeon Trio de Nova Orleãs.  O nome da canção não é indiferente ao facto de o mestre de clarinete de Omer Simeon ser Lorenzo Tio, o mestre do clarinete de Nova Orleãs. Nesta versão de Trio, o piano era interpretado por James P. Johnson. James era de Nova Jersey e mudou-se para uptown New York ainda na década de 10 do século XX. Em 1911 conseguiria o seu primeiro emprego enquanto pianista. Ao atacar o piano como bateria, James ficou conhecido como o avó do Harlem Piano (stride).


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Referências:

Jazzmen
Negro Folk Music USA