A COVA DA BEIRA, O FUNDÃO, AS DONAS; COM A STRESS E O PACHECO


A presença da stress.fm no Festival Cale no Fundão salvaguarda espaço para uma imensa curiosidade investigativa. Nessas acções, encontrámos Luiz Pacheco em 1995 no improvável Diário Económico à procura de referências na génese do Guterrismo. Escrevia então:

«Donas, do Fundão, passou a perna, mandou bugiar Boliqueime. E com toda a razão surgiu na TV a cantar loas ao filho excelso. São os ínvios caminhos da História...., quem não terá ficado grandemente satisfeito, com tão súbito resplendor, é o Prof. José Hermano Saraiva. E porquê? aposto que em sua douta opinião a terra já devia ser mais conhecida, celebrada. Estou muitíssimo de acordo com ele. Mas a política é uma coisa e as Belas Letras outra. Gostei de ver as ruas, as casas, as gentes de Donas. Nunca lá fui nem tenciono. Mas sabia da existência de Donas de alguns dos seus ilustres naturais. Por exemplo: o poeta António de Navarro (1902-80), dos mais destacados da Presença.  O fidalgote de Donas, cheio de cagança. Da tertúlia do Café Restauração, companheiro de cavaqueira do edmundo de Bettencourt e de Mario Saa. Sujeito de feitio agreste, quase violento, um tanto maníaco e forreta. Já muito velhadas, fez um casamento torto, tresvariou, que Raio de Luar não se dá com todos. Poeta excelente. Ave de Silêncio (1942) é um livrinho muito recomendável. E bem bonita edição. Mas não somente a classe fidalga. Havia ali, nas Donas, uma tribo de marranos, os Grilos, que deu nome de si na vida política e literária da Capital: os Saraivas. O Pai Saraiva, não conheci, que foi Reitor de um liceu (Passos Manuel?) e, suponho, investigador de Arte. E os dois manos Saraivas, o José Hermano e o António José. Na verdade, duas importantes figuras e actores da nossa vida contemporânea. 

Mas quem mais e melhor me falou de Donas foi o meu editado José Alcambar, pseudónimo de António José Baptista, primo dos saraivas e marrano inconformista de todo o tamanho. Resistente lúcido e esforçado, preso pela PIDE, entrou na polémica com António José Saraiva por via da Inquisição, dos cristãos-novos, das precipitadas ilações do priminho. Alcambar (que significa o jardim em árabe, não sei se alusão àbeleza da terra) era um tipo muito inteligente, atravessado nos modos, truculento e, no fundo, de uma infantilidade comovedora. Se recordo os trabalhos que tive, durante meses, para lhe arrancar dois folhetos, resultado ambos de uma profunda investigação e domínio das matérias versadas (o papel dos judeus noutros tempos e actualmente; o sionismo; a luta israelo-árabe), é para enaltecer pro domo mea, o papel de um editor que se preze. Não apenas publicar aquilo que lhe pareça e na maioria dos casos é sucata, mas promover, acicatar, espertinar almas dolentes e preguiçosas. Obrigar, quase a florescer talentos. e querem tarefa mais castiça e mais catita?»

Diário Económico, Lisboa, 18 de Outubro 1995, p.11