Projecto de Arte Postal: as cartas de jogar e o jogar das cartas



"Criaremos uma instalação colectiva de arte postal inserida num encontro de pesquisa lúdico-artistística baseada no tema: As cartas de jogar e o jogar das cartas"

Esta é uma convocatória que nos chega do Algarve, lançada pela Mandrágora em conjunto com o colectivo Verde Salto. A partir do conceito de arte postal (mail art), este  open call é lançado a nivel internacional com o objectivo de organizar em breve um encontro de "pesquisa lúdico-artistica" onde todas as peças recebidas serão expostas.

Até ao momento, já responderam cerca de 40 pessoas, que enviaram aos organizadores desta iniciativa um total de 60 obras.

O prazo de envio das peças termina no dia 30 de Abril do presente ano de 2015

As regras deste jogo são simples: formato e técnica totalmente livres; não vai haver juri (o que quer dizer que tudo será exposto); no final, cada participante, vai receber por correio um documento/catálogo da exposição. As peças têm de ser enviadas via postal para a seguinte morada:

Belisa de Almeida e Sousa
Estrada Nacional 125 Nº133
8800 109 Luz de Tavira
Portugal


Isto é o quê, a Arte Postal?


Isto é o quê, a Arte Postal? de momento, algumas palavras (três) a servirem de chave: distribuição, isolamento, pluralidade. O circuito é interminável, tanto quantas as caixas postais, no mínimo. Nada a ver, portanto, com o espaço bi-unívoco da galeria de arte, preferencialmente. Aqui, e por essência, tudo se desloca. Há um selo: eis o que basta; de um lado para o outro o desentrançar é permanente.

Rosa dos ventos. Deslocamentos parcelares e contínuos. Uma trama que se constrói. Um feixe. Cada objecto de Arte Postal transposto para o espaço fechado de uma galeria tende a morrer em algum dos seus pontos: deixa de reproduzir, apenas se mostra. Na verdade, e à maneira de um electrão numa câmara de nevoeiro, o que está em causa na Arte Postal é o desenvolvimento de uma geografia, um espaço que se multiplique em linhas de força: fluxos e mais fluxos. E que a Arte Postal faz-se sobretudo em trânsito, de dentro para fora e de fora para dentro. 

Um corpo-pleno, dir-se-ia por isso. A Terra como território de distribuição: o ovo cósmico. Aqui, uma exposição está como que a mais, ou a menos. Paradoxo. A menos põe em evidência todo o sistema pela sua negativa. Fazer uma exposição de Arte Postal é deter a máquina, fazê-la avariar naquilo que ela possui de essencial, e isso como forma de lhe evidenciar os mecanismos. Expor Arte Postal no sentido em que se expõe quadros ou esculturas é inviabilizar um ponto fixo do espaço e no tempo a sua re-produção, facto momentâneo mas básico, de modo a que tudo permaneça na mesma, isto é, a avaria constitui a condição necessária ao funcionamento de todo o mecanismo. 

A arte vai com a Unidade. mas dois não é ainda plural. Dois é o público frente ao objecto: Pura dicotomia. Pluralidade é o dois que se faz três: re-produção. Na Arte postal, somente, emissores em primeiro e segundo grau se encontram implicados. Quem recebe também emite, utilizando a mesma via - o correio -, e segundo as modalidades de uma mesma forma - a arte. Um nome e uma morada são elementos ínfimos, moléculas, que se organizam caoticamente numa rede sempre alargada. Não há Arte Postal sem um nomadismo artístico, sem deserto. 

O deserto. Isso não é ainda o betão, mas quase. Talvez o seu efeito. Isolamento e comunicação. A Arte Postal é nómada porque só pode sê-lo, porque vai de um ponto a outro no deserto. Estender os braços. Aqui é o betão que se transforma parcelarmente em deserto liso. Não se atravessa uma parede: O correio serve para isso.


(Mandrágora)